Audiência da Volta a Portugal: evolução 2005-2008

A Volta a Portugal de 2008 perdeu telespectadores face à edição transacta, recuando para valores comparáveis aos de 2006, ano em que as audiências não foram famosas. As causas podem ser várias, começando pela sobredose de desporto provocada pelos Jogos Olímpicas e terminando na concorrência, no que ao chamamento mediático diz respeito, dos primeiros jogos oficiais de futebol. Ainda assim, os números revelam que a maioria da população portuguesa passou os olhos pelas transmissões da Volta, pelo menos num pedaço de etapa.
Do total de cerca de 9 milhões e meio de indivíduos com mais de 4 anos residentes em Portugal, foram 55 por cento aqueles que pararam, em algum momento, em frente ao televisor para assistir à gesta de David Blanco e companhia. Este valor, correspondente a 5,2 milhões de pessoas, é interessante, mas inferior ao de 2007 – 5,4 milhões – e mais baixo do que o de 2005, 5,3 milhões. Só em 2006 os números foram ainda mais reduzidos, 5,1 milhões.
Aqueles dados englobam, contudo, tanto os espectadores fiéis como as pessoas que apenas esporadicamente viram o desenrolar da corrida. Para uma ideia mais fidedigna da realidade, importa analisar o desempenho da corrida, em termos de audiência, etapa a etapa. Neste aspecto a Volta deste ano começou muito mal. Nunca, desde 2005, tão pouca gente assistiu ao arranque da corrida. O prólogo apenas captou 2,8 por cento de audiência média, o que corresponde a aproximadamente 265 mil espectadores.
Tradicionalmente, são as etapas tidas como decisivas aquelas que colhem maior atenção, destacando-se as passagens e/ou chegadas à Torre, a etapa da Senhora da Graça e o contra-relógio final. Em todos os anos a tirada com maior audiência foi a última, o “crono” decisivo. A excepção foi… 2008.
Este ano a etapa que mais interesse despertou foi a da Torre, que conseguiu “pregar” em frente à pantalha uma média de 719 mil espectadores durante as duas horas de emissão. Estes números, traduzidos em share, resultam numa taxa de 40,4 por cento. Ou seja, de todas as pessoas que viam televisão à hora da etapa, 40,4 por cento optaram pelo ciclismo, ao passo que os restantes 59,6 por cento se dividiam pela restante oferta televisiva, o que deu ao ciclismo, naquele período a liderança das audiências.
Pior desempenho teve a última etapa. Foram 643 mil aqueles que se mantiveram ligados à RTP1 para ver as derradeiras pedaladas da edição 70 da Volta. Nada que se compare com os 870 mil não perderam o contra-relógio de 2007 – apesar de essa transmissão ter sido afectada por problemas técnicos – ou com os 823 mil do “crono” de 2005. Mesmo a ligação à Senhora da Graça, desportivamente mais sedutora em 2008, teve menos audiência do que as etapas homólogas de 2007 e de 2005.
As cifras negativas de 2008 têm tradução na tabela das etapas mais e menos vistas de 2005 a 2008. Entre as dez mais vistas destes quatro anos, há três de 2008. Mas entre as dez com menor audiência encontram-se seis de 2008.

Retrato do espectador de ciclismo
O estudo da Marktest observa o tipo de audiência, além da sua quantidade. Em linhas gerais, podemos caracterizar a audiência de ciclismo como sendo envelhecida, com pouco poder de compra e habitante do Interior.
Começando pela idade, 57,9 por cento daqueles que seguiram a última volta a Portugal têm 55 ou mais anos, sendo que 40 por cento tem mais de 64 anos. Em 2005 a percentagem de espectadores com mais de 64 anos era de 37,2 por cento, tendo subido para 39,9 por cento em 2006. No entanto, com o aumento do número de espectadores em 2007, a concentração etária diluiu-se, tendo a percentagem de pessoas com mais de 64 anos baixado para 34,8. Uma tendência que a quebra de público em 2008 inverteu.
Mesmo estando desertificado, é o Interior do país que contribui com mais pessoas para o total de 5,2 milhões de residentes em Portugal que viram a corrida pela televisão. 1,425 milhões de telespectadores da prova residem no Interior do país. A região que se segue é a Grande Lisboa, com 1,019 milhões. Do Sul são oriundos 837 mil telespectadores, 686 mil são do Litoral Centro, 624 mil do Grande Porto e 603 mil do Litoral Norte. Estas cifras contrariam os dados da observação empírica do número de adeptos na estrada: é no Norte, no Grande Porto e no Litoral que se assiste aos maiores banhos de multidão.
No que concerne ao poder de compra de quem vê ciclismo pela televisão, constata-se que os ricos, talvez por terem muitas alternativas de diversão e ocupação de tempos livres, são pouco amigos de se sentarem durante a tarde a assistir às pedaladas dos heróis do asfalto. Apenas 10,2 por cento de todos quantos viram a Volta pertencem às classes A/B, as mais abonadas. Os remediados-mais (C1) constituem 21 por cento dos adeptos do ciclismo televisivo, os remediados-menos (C2) são 23 por cento e os mais desfavorecidos (D) são uns impressionantes 45,8 por cento do total de espectadores da Volta a Portugal.
Entre géneros, a diferença não é significativa 53,8 por cento dos que viram a corrida na pantalha são do sexo masculino e os restantes 46,2 por cento são do sexo feminino. Estes dados, à primeira vista, podem assustar aqueles que querem atrair patrocinadores ao ciclismo, pois o retrato aqui traçado do espectador da modalidade não encaixa no perfil mais sedutor para uma fatia considerável dos anunciantes. No entanto, há empresas, produtos e serviços transversais à sociedade e que terão interesse em chegar ao público-alvo que partilham com o ciclismo.

Audiência 2008
Dia    Etapa    Audiência    Share
13.08    Portimão – Portimão    (C/R) 265 mil    22,6%
14.08    Portimão – Beja    331 mil    28,8%
15.08    V. Viçosa – C. Branco    388 mil    26,9%
16.08    Idanha – Torre    719 mil    40,4%
17.08    Guarda – Viseu    501 mil    27,9%
19.08    Gouveia – SJ Madeira    369 mil    30,4%
20.08    Aveiro – Gondomar    350 mil    27%
21.08    P. Varzim – S. Tirso    416 mil    31,6%
22.08    Barcelos – Fafe    397 mil    32,3%
23.08    Fafe – Sr.ª Graça    634 mil    38,9%
24.08    Penafiel – Felgueiras (C/R)    643 mil    33%

Dez etapas mais vistas
Ranking    Etapa    Ano    Audiência    Share
1º    Viseu – Viseu (C/R)    2007    870 mil    46,7%
2º    Viseu – Viseu (C/R)    2005    823 mil    43,4%
3º    Celorico – Sr.ª Graça    2007    776 mil    46,4%
4º    Idanha – Torre    2008    719 mil    40,4%
5º    Lixa – Gondomar    2007    653 mil    37,1%
6º    Celorico – Sr.ª Graça    2005    643 mil    37,2%
7º    Idanha – C. Branco (C/R)    2006    643 mil    35,6%
8º    Penafiel – Felgueiras (C/R)    2008    643 mil    33%
9º    Fafe – Sr.ª Graça    2008    634 mil    38,8%
10º    Lousã – Fundão    2005    625 mil    35,2%

Dez etapas menos vistas
Ranking    Etapa    Ano    Audiência    Share
1ª    Portimão – Portimão    2008    265 mil    22,6%
2º    Oeiras – Lisboa    2005    331 mil    28,5%
3º    Portimão – Beja    2008    331 mil    28,8%
4º    Aveiro – Gondomar    2008    350 mil    27%
5º    V. Viçosa – C. Branco    2007    350 mil    29,7%
6º    Trancoso – Fafe    2005    369 mil    28,8%
7º    Gouveia – SJ Madeira    2008    369 mil    30,4%
8º    V. Viçosa – C. Branco    2008    388 mil    26,9%
9º    Penamacor – C. Branco    2005    388 mil    33,6%
10º    Barcelos – Fafe    2008    397 mil    32,3%

Audiência por classe social
A/B    530 mil espectadores
C1    1,092 milhões espectadores
C2    1,144 milhões espectadores
D    2,383 milhões espectadores

Audiência por classe etária

4 a 14 anos    281 mil espectadores
15 a 24 anos    364 mil espectadores
25 a 34 anos    484 mil espectadores
35 a 44 anos    354 mil espectadores
45 a 54 anos    713 mil espectadores
55 a 64 anos    931 mil espectadores
+ 64 anos    2,081 milhões espectadores

Audiência por região
Interior    1,425 milhões espectadores
Grande Lisboa    1,020 milhões espectadores
Sul    837 mil espectadores
Litoral Centro    687 mil espectadores
Grande Porto    624 mil espectadores
Litoral Norte    603 mil espectadores

Glossário

Audiência média: Mede-se em percentagem, traduzindo a quantidade de espectadores que assiste a determinado programa, tendo em conta o universo possível (total de espectadores existentes no país). Por exemplo, dizer que a audiência da etapa da Torre foi de 7,6 por cento, quer dizer que de todos os indivíduos residentes em Portugal com mais de 4 anos e acesso a televisão, uma média 7,6 por cento manteve-se em frente ao ecrã durante as duas horas da emissão da etapa. Neste trabalho, transpusemos os valores em percentagem para valores absolutos.

Share: Mede o número de espectadores de um programa em função de quem vê televisão nesse momento. Ou seja, o universo deixa de ser o total de indivíduos do país para passar a ser o total de telespectadores a determinada hora. Quando se diz que a etapa da Torre teve um share de 40,4 por cento, significa que de todas as pessoas que viam televisão àquela hora 40,4 por cento optaram por seguir o ciclismo.

Foto: João Fonseca