O que não deve ser o ciclismo

O ciclismo, como modalidade altamente dependente de patrocínios e de publicidade, sofre bastante em alturas de aperto económico. Por isso, não é de estranhar que esta pré-temporada de 2009 esteja a ser marcada pela indefinição e pelo risco de emagrecimento do pelotão nacional. Qualquer pessoa que goste da modalidade quer que as equipas existentes consigam garantir a manutenção, que novos projectos singrem e que o risco bem real de desemprego para dezenas de corredores profissionais acabe por não se concretizar.

Apesar desses desejos, não vale tudo e os fins não justificam os meios. Não podemos concordar com iniciativas como a do peditório a favor da continuidade do CC Loulé nas estradas. Por muita simpatia e respeito que nos mereçam os seus dirigentes e profissionais – e merecem! – uma iniciativa deste género é prejudicial ao ciclismo. A modalidade tem de “vender-se” aos investidores como tendo potencial elevado de gerar mais-valias. Dito de outra maneira: acreditamos ou não que o ciclismo é um excelente veículo para implantar marcas junto do seu público-alvo? Se acreditamos não podemos fazer desta modalidade e dos seus clubes uns coitadinhos dependentes da boa vontade e da simpatia de particulares e de empresários. É preciso frisar que um patrocinador ganha com o investimento numa equipa, não presta nenhum favor em prol do desporto. O ciclismo e os seus projectos têm de colocar-se em plano de igualdade com os potenciais investidores, não podem apresentar-se de chapéu estendido à espera de umas esmolas.

A crise está também a motivar um grupo de ciclistas e de outras pessoas para o lançamento de uma nova equipa na região Oeste, uma zona geográfica com forte tradição neste desporto. A ideia passa por envolver autarquias e associações de municípios para o investimento directo na nova equipa e/ou para ajudar a captar investimentos de empresas da região. Até aqui tudo bem. Como escrevemos no parágrafo anterior, o ciclismo é um óptimo veículo para divulgar regiões e marcas, pelo que as verbas que sejam confiadas a uma equipa competente têm uma forte probabilidade de gerar retorno.

O que me leva a trazer o projecto do Oeste a este artigo foi uma frase que ouvi de Feliciano Ferreira, aos microfones da Rádio Voz de Alenquer. Feliciano Ferreira é, pelo que percebi, a pessoa encarregada de trabalhar em conjunto com os ciclistas na construção de todo o projecto, com especial enfoque nas questões de marketing. A tal frase, que cito de cor, dizia mais ou menos isto: Se todas as autarquias da região se associarem ao nosso projecto, cada uma delas disponibilizará uma verba inferior à necessária para receber uma partida ou uma chegada de uma corrida e terá um retorno maior, porque verá a sua equipa a divulgar a região durante todo o ano, em todo o país e, eventualmente, em corridas no estrangeiro.

Começar um projecto a atacar um dos alicerces da modalidade não é bom caminho. Se todos fizessem este tipo de contas, ainda nos arriscávamos a ter uma equipa por região… sem corridas em que participar, porque os orçamentos autárquicos cobriam os colectivos mas não pagavam as provas.

São dois exemplos de esforços bem intencionados mas que são negativos para a modalidade, que precisa mais de cabeça e de razão do que de paixão. Ainda assim, esperando que a racionalidade acabe por imperar, faço votos para que o pelotão nacional de 2009 conte com o CC Loulé e com a nova equipa do Oeste nos seus efectivos. E, já agora, com corridas que tenham saúde financeira para darem protagonismo e retorno àqueles que investem na modalidade.

4 thoughts on “O que não deve ser o ciclismo”

  1. Caro José Carlos Gomes,

    Antes de mais, os meus parabéns pela magnifica iniciativa que foi o Jornal do Ciclismo, assim como a recente iniciativa da edição on-line.
    O seu artigo mereceu a maior das atenções, contudo não posso concordar com parteque escreveu acrescentando o seguinte:

    Não é só o aperto económico que justifica a actual conjuntura no ciclismo nacional, mas também uma crise de confiança, onde a grande responsabilidade é de quem manda no nosso ciclismo, afinal um processo arrasta-se há seis meses, onde exceptuando avanços e paragens com timmings bastante oportunos e algo suspeitos, nada aconteceu e ninguém soube e continua sem o porquê.
    Não há investidor que resista a situações semelhantes

    Quando refere no seu artigo que opinião que não podemos concordar com o peditório do Loulé, está a falar por si ou por todos os adeptos do ciclismo?

    Permita-me recordar que há uns anos atrás houve uma iniciativa semelhante num grande do Futebol – Títulos de boa vontade, lembra-se. Tratou-se também de um peditório e acrescento que são nos más momentos que realmente concluímos quem cá anda porque gosta da modalidade e faz algo pelo ciclismo e que cá anda encostado à modalidade, limitando-se a criticar.

    Onde refere que a modalidade tem de “vender-se” aos investidores, vai-me desculpar mas a palavra “vender-se” aqui soa algo forte demais, dando a sensação de que alguém está a “vender a alma”, talvez uma das prováveis razões para o flagelo do doping que afecta a modalidade, onde os ciclistas são o “elo mais fraco”, que na maioria das vezes têm que enfrentar as consequências de situações cuja iniciativa não partiu deles.

    No caso do apelo do Sr. Feliciano Ferreira aos municípios, não vejo onde está o mal do mesmo, se o governo disponibiliza todos os anos milhares de euros em incentivos ás grandes empresas porque não financiar o orçamento anual de uma equipa de ciclismo. Certamente não será por aqui que os municípios irão deixar de financiar parte da organização das provas.

    Aqui sim os organizadores das provas têm que ser mais proactivos e vender a prova ao patrocinadores, não só convencer, mas utilizarem meios que permitam de facto divulgar a região com as provas – um bom exemplo do ciclismo como meio de promoção e divulgação foi a volta à Turquia de 2008. Desde o site oficial da prova até aos países para onde a mesma foi transmitida passando pela transmissão televisiva em si, foi tudo promoção turística – um bom exemplo a seguir, não esquecendo a componente competição.

    Para terminar diria que estes exemplos de paixão, contrariamente á sua opinião não os acho negativos para a modalidade pois se apenas persistisse a razão nesta modalidade, há muito tempo que não existia ciclismo, ou não se recorda que a maioria das organizações de provas eram movidas por pura carolice?

  2. Caro Feliciano Ferreira,

    Concedo que o termo “atacar” possa ser demasiado forte. E não tenho dúvidas de que ficará mais barato a uma câmara dar uma parte do orçamento de uma equipa do que pagar por inteiro uma partida ou chegada de uma corrida. O que eu quis dizer, mas não me expressei tão claramente quanto o desejado, é que importa somar investimentos no ciclismo e não desviar de um lado para o outro. Ou seja, deseja-se que haja investimentos nas corridas da mesma forma que é preciso lutar para que haja patrocínios às equipas. Dizer que mais vale uma coisa do que outra não me parece adequado e essa é uma opinião que mantenho.

    Quanto ao mais, espero que os esforços levados a cabo dêem bons resultados e que tenhamos a equipa do Oeste no pelotão.

  3. Caro José Carlos Gomes, penso que o termo atacar é demasiado forte quando se estava a comparar os valores em questão. De qualquer forma e retirado do contexto da conversa isso pode parecer um ataque? O que precisamos agora é de construtividade e peço-lhe que verifique o contexto porque esse é um facto! E porque não uma partida ou chegada ao Oeste este ano na Volta a Portugal?

  4. Subscrevo. Um peditório para “salvar” uma equipa de ciclismo profissional? É com este tipo de iniciativas que se pretende dinamizar o ciclismo profissional? O ciclismo interessa se for um bom espectáculo, produzido por equipas que joguem no mesmo campeonato. O CC Loulé enquanto equipa não pode justificar a sua presença nas estradas com iniciativas deste cariz, mais valia vender rifas…Isto é uma enorme garotice!

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