Período de reflexão, ou como repensar o futuro

Christopher Froome, Vincenzo Nibali, Alejandro Valverde e Phillippe Gilbert são, como sabemos, alguns decanos do pelotão. Também são alguns dos ciclistas de maior sucesso , e também continuam a ter em comum, mais de cem dias de corrida este ano. Começaram cedo e ainda não terminaram a época.

Estes, ganham bem, é certo, mas também poderíamos referir aqui outros ciclistas, que não sendo tão famosos nem ganhando tão bem, nem estando em estruturas Worldtour, e que têm nas pernas os mesmos, ou mais, cem dias de corrida por ano.

Bem, a estatística pode ser a coisa mais falsa do mundo, porém, se dividirmos o salário de alguns (poucos) ciclistas que correm em Portugal pelos dias de corrida que têm, afinal, em Portugal terão salários acima da média. Alguns dos ciclistas que melhor ganham em Portugal (mesmo que não seja uma fortuna) podem dar-se ao luxo de não ir à Volta ao Algarve, falhar a Volta ao Alentejo, prepararem-se, apenas, para a Volta a Portugal e dizer que estão cansados no Grande Prémio JN!

Mudando de assunto, e por falar em Volta a Portugal, talvez seja altura de repensar a transmissão televisiva da Volta. No fundo, o assunto é recorrente, mas também não será por causa disso que deixaremos de falar nele.

O modelo de transmissão é o mesmo há anos, num mercado que é tudo menos o mesmo. Quem vê ciclismo há muito tempo, designadamente a Volta, até já consegue adivinhar que perguntas e que respostas serão dadas, por exemplo, no dia da apresentação de equipas.

Depois, às vezes, parece que existe uma espécie de sequestro em relação a alguns intervenientes. Do que vi este ano, não me lembro de um dia em que não tivessem falado com o Gustavo Veloso, e também não me lembro de um dia em que tivessem entrevistado o Bruno Silva, ao que sei, líder e vencedor final da classificação da montanha. E, no segundo caso, o que esta falta de visibilidade que só a televisão consegue dar pode significar para os patrocinadores.
Também sabemos do que vive a televisão, no entanto, para além do óbvio, há coisas interessantes que podem ser feitas. E os custos de transmissão não aumentam por isso.

Retomando uma ideia anterior, a do sequestro, o ciclismo está cada vez mais refém dos empresários. Se por um lado são motivadores de alguns sucessos contratuais nas carreiras dos ciclistas, por outro, tal como noutros desportos, também são condicionadores da liberdade de escolha quer dos ciclistas quer das equipas.

Também os preparadores físicos começam a ter demasiada importância nessa liberdade de escolha das equipas. É evidente que a todo o custo têm de vender o seu produto (entenda-se, o atleta!). Qualquer dia não sei para que servem os treinadores/diretores desportivos. A figura do “treinador pessoal” surge cada vez mais cedo na vida dos ciclistas e tem dado a falsa sensação de formar ciclistas. Tantas vezes são demasiados watts, e muito pouca habilidade, ou vontade, para aprender a correr, sobretudo, na forma coletiva, pensando em interesses que não sejam puramente individuais.
Luís Gonçalves

One thought on “Período de reflexão, ou como repensar o futuro”

  1. Na verdade, o modelo de transmissão televisiva é demasiado previsível e até cansativo.Há intervenientes que têm todas as atenções, outros são completamente ignorados.
    Como amante do ciclismo estou cansado de ouvir o Sr. Marco Chagas , as entrevistas ao Sr. Venceslau Fernandes e as referências ao clã Paulinhos.

    Jaime Lopes

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