O sonho africano do Rafiki

Escrevendo por duas vezes o seu nome, Julian Alaphilippe deu continuidade a uma longa lista de campeões do mundo, tradicionalmente, europeus, e em disputa em território europeu.
Em 2025, pela primeira vez, teremos uma novidade em mundiais de ciclismo, disputando-se um campeonato do mundo em África, mais concretamente no Ruanda. Neste momento, ainda não sabemos qual a participação portuguesa. Esperamos, todos, contudo, que não se assustem com a distância. Mas não será isso que nos interessa agora.
O campeonato do mundo no Ruanda fez-me lembrar um antigo conhecido da lides velocipédicas. Por simplicidade, vou continuar a tratá-lo por Rafiki.

O Rafiki era mecânico, e ruandês, de uma equipa que há uns anos veio à Volta a Portugal, a Protouch, da África do Sul. Antes da Volta, fizeram algumas corridas em solo português e ficaram umas duas semanas numa sede de um clube português, ligado ao ciclismo de formação, da zona da Feira. É daí que o conheço.

Nesse tempo, dos portugueses, acabei por ser dos que mais falou com ele. Talvez porque ele se expressasse em inglês e eu tivesse facilidade em percebê-lo ou, apenas, porque gosto de falar e ele também.

O Rafiki, que tinha sido ciclista, que tinha feito também o Cape Epic, bebia muito chá e olhava de soslaio para o vinho verde, tinha toda a calma do mundo. Uma calma muito pouco própria de um mecânico de uma equipa de ciclismo profissional. Fazia muita coisa sentado “à chinês”, em estilo quase “zen”. Mas o Rafiki tinha um sonho. Tinha o sonho de formar uma equipa de ciclismo no Ruanda, que pudesse formar jovens como nós fazemos na Europa. Via-o várias vezes a observar o que fazíamos. E, ele, perguntava muito. E, eu, falava sobre o que fazíamos ou como fazíamos, sendo que ninguém tem o segredo de nada. E ele ouvia, comentava, e retratava as dificuldades de África. Aquelas dificuldades que ignoramos porque estamos num continente diferente.

Depois dessa Volta nunca mais vi o Rafiki. Não sei se tem a sua escola de ciclismo. Não sei se os filhos dele, que têm uma idade semelhante à dos meus (outra coincidência) estão bem. Mas sei que o Rafiki deve estar feliz por ter o mundial no Ruanda. Melhor que isso, espero que o Rafiki tenha concretizado o seu sonho.
Luís Gonçalves

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