Ao sabor da corrente

Por vezes, já não compreendo muito bem qual é o regime que cabe ao ciclismo, porventura ao desporto no geral, quanto à atuação das autoridades sanitárias.

Em duas corridas distintas, no mesmo fim de semana, numa fazíamos o controlo mais simples (e útil) para entrar na zona zero, noutra, no dia seguinte e com boa parte dos mesmos intervenientes, ou se exibia o certificado digital, ou se teria de fazer testes.

Não tendo nada a ver com as organizações, tudo acontece porque as entidades locais de saúde de uma zona entendem de uma maneira e, as de outra, veem a questão de forma diferente. É bom saber que tudo quanto ainda depende da DGS continua ao sabor da corrente, em evidente prejuízo dos cidadãos, sobretudo quando vivemos numa modalidade de baixo risco em que a testagem nem sequer é obrigatória.

O sabor da corrente, continua também a levar-nos para uma corrente contínua. A corrente dos fundos para o policiamento. Se é certo que não se fazem corridas sem agentes de autoridade, e ainda bem, também é certo que as verbas continuam a ser exageradas. E, em tantos casos, verbas, ou desnecessárias, ou até mal utilizadas. Não são raras as situações em que quem comanda as operações pouco percebe do que é uma corrida de ciclismo, provocando prejuízos e perigos evidentes, sobretudo, aos ciclistas. Porém, no fim, a culpa é invariavelmente das organizações, ou dos ciclistas!
É interessante reparar que em algumas situações, qualquer espetador habitual do ciclismo comandaria melhor uma operação de segurança de uma corrida do que os próprios agentes de autoridade. Não é que seja fácil manter a segurança de uma prova, mas, quando se paga, convém que o serviço seja feito com algum brio e eficácia. E se há grupos que são extraordinários na segurança de corridas, outros nem para aguadeiros servem.

Ainda ao sabor da corrente, o colombiano Miguel Angel Lopez abandonou a Vuelta. Ninguém deve negar a qualidade do ciclista. Mas às vezes alguns ciclistas, como qualquer profissional, esquecem-se que, mal ou bem, têm de cumprir as ordens da equipa. Ou então, terão de ser mesmo muito bons, o que não é o caso e são muito raros os casos de incumprimentos rentáveis.

Nesta Vuelta, mesmo não sendo para ganhar, um abandono destes provoca, logo, uma dificuldade na classificação por equipas. Mais. Nenhum colega do Miguel Angel Lopez, daqueles que durante vinte dias trabalharam (também) para ele e para os sucessos individuais dele, merece um abandono numa etapa em que nem sequer desistiu ninguém para além dele. Enfim, não fazia terceiro, era, imaginemos, quinto. E sendo quinto, só aqui, estão menos 12.500 € para dividir pela equipa, mais o que se terá perdido na classificação coletiva, facilmente chegamos aos 15.000 €. É que, na Movistar, embora se ganhe bem, nem todos terão o salário do Miguel Angel Lopez!
Luís Gonçalves