Ciclismo às cegas

A prova feminina dos Jogos Olímpicos de Tóquio foi marcada por algo insólito e que já há algum tempo não víamos numa prova de ciclismo ao mais alto nível. A segunda classificada, a holandesa Annemiek van Vleuten, festejou como se tivesse ganho e só mais tarde percebeu junto do staff da equipa, que a austríaca Anna Kiesenhofer é que tinha sido a vencedora

Como é que tal é possível? É que ao contrário das provas disputadas ao longo do ano e que normalmente vimos nas transmissões televisivas – UCI World Tour, UCI ProSeries e Eventos de Class 1 – nos Jogos Olímpicos, assim como nos campeonatos continentais e no Campeonato do Mundo, não são autorizados os rádios de equipa, para comunicação entre os diretores desportivos e os ciclistas. Para além disso a conhecida moto-ardosia, que vai fornecendo os tempos entre os grupos não foi vista durante os momentos críticos do final da prova. Assim sendo as ciclistas correram às cegas sem ter a correta noção de quem estava ainda na frente e qual o tempo que as separava.

Não querendo entrar na sempre polémica discussão do ciclismo controlado por rádio ou mais livre sem rádio, parece-me que fazer toda uma temporada, incluindo as provas mais importantes como por exemplo as clássicas de um dia ou as grandes voltas, com um sistema e fazer 2 ou 3 provas por ano, consoante haja Jogos ou não, com outro, não é a aceitável. E menos aceitável é apreciar que um ciclista corra sem ter noção do que se passa na corrida. Imaginem um combate de Judo com os judocas vedados…

São os ciclistas que perdem, as equipas-seleções que perdem, os jogos olímpicos que perdem, mas é essencialmente o ciclismo que perde.

Paulo Coelho Vaz