Os saloios

No ciclismo, as provas vão-se sucedendo a bom ritmo. Depois de um ano em que as bicicletas andaram pouco, em 2021 parecemos ter retornado à normalidade, embora seja ainda uma normalidade estranha.

Por cá, têm-se sucedido corridas tradicionais do calendário português. Normalmente, com outro formato, algumas vezes com menos dias, mas vão acontecendo. E isso é o mais importante, embora, estes tempos continuem a servir para moldar regulamentos, nomeadamente financeiros.

Mas voltando a um regresso estranho à normalidade, no passado Domingo, acompanhei em Águeda a chegada da segunda etapa do GP Abimota. Como já não fazia há bastante tempo, e como há muitos anos faço, tive, desta feita, oportunidade de ir em família.

Estou em crer que, desde que temos as famosas zonas zero, terá sido a primeira vez em que fiquei de fora dessa zona. O que tem sido normal, para mim, é ter acesso a essas zonas, ora nas competições profissionais, ora, essencialmente, nas competições dos escalões de formação. Das zonas zero, já em tempos falei. Continuam a ser uma seca.

Os membros da organização do Abimota, a maioria em regime de voluntariado, esforçava-se pelo cumprimento das regras e pela imposição desse cumprimento. Eram chatos, mas não faziam mais do que o que lhes tinham dito para fazer.

Porém, sobretudo nalgumas zonas próximas da meta, o contacto entre espectadores e membros com pulseira de acesso à zona zero, neste tipo de corridas, é inevitável. Quem pensar o contrário só pode pensar que vive num estado policial.

O ciclismo tem os seus procedimentos. Raízes de anos e situações que não podem ser feitas de outra maneira. Seria fastidioso descrever aqui o essencial de procedimentos das zonas de chegada, designadamente para comissários, ciclistas e membros do staff das equipas.

O que se sabe é que uma esmagadora maioria do que se deve fazer nessa situação é várias vezes incompatível com os princípios mais obscuros da zona zero. Ou então, teremos mesmo de desejar o tal estado policial.

O mais estranho de tudo, para quem é puro espectador, é não ter acesso ao parque de equipas, fortemente guardado por fitas plásticas da protecção civil. Perde-se, assim, uma característica com mais de um século no ciclismo: a proximidade com os ciclistas e com o remanescente da corrida. Essencial no ciclismo, aliás, no desporto em geral. Faz parte da sua sustentabilidade.

Depois, por vezes, as zonas parecem condicionadas de forma cega, o que tantas vezes obriga o espectador comum a dar uma inusitada volta para chegar onde quer. Com crianças pequenas é quase uma aventura. Para os mais reticentes, devo desde já dizer que as crianças mantém o direito de sair à rua, pela mão, com máscara, querendo, e tentando manter o distanciamento anti-social que agora é pretendido.

Não são as organizações as “idiotas” do sistema. Já estou em crer que são as vítimas do sistema. Começam a existir condicionamentos que não fazem qualquer sentido, para além de ideias desinteressantes do ponto de vista democrático. E daqui a uns anos ainda vamos todos reconhecer a desnecessidade de algumas medidas, sobretudo as que têm sido pouco, ou nada, ponderadas com outros direitos e interesses, iguais aos de saúde.

A questão não é só do ciclismo. Foi lamentável reparar que a Federação Portuguesa de Rugby não conseguiu colocar quinhentos adeptos, com testes, no Jamor, na final do campeonato. Num estádio, como se sabe, bem arejado, capaz de suportar 37.500 adeptos… Em semana de final da Champions, no Porto!

Voltando ao ciclismo, e seremos tão “saloios” como a malta do rugby, há medidas que já estão fora do meu alcance compreensivo.

Mesmo, mesmo, o mais interessante de tudo é ver as autoridades locais e nacionais de saúde, a apontarem tudo o que consideram falhas nos seus zelosos bloquinhos sanitários, a exigirem cumprimento escrupuloso das regras e serem eles, os primeiros, por vários lapsos próprios, e do Estado, a atropelarem violentamente o Direito. Se há coisa que a Direcção Geral que devia de ser apenas da Saúde, e o que lhe está dependente, não tem cumprido, são alguns dos direitos mais básicos dos cidadãos. Não têm os médicos que saber direito, nem os juristas medicina, mas, no meio, já há o padrão do homem médio e o bom senso.

Como bem disse o presidente da Federação Portuguesa de Rugby, não sendo ingleses, somos mesmo todos uns saloios. E já que me lembro de estrangeiros, e saloios, há pouco tempo na Volta a Loulé para Juniores, quem fosse, há altura, dos concelhos de risco de Portugal, para competir, tinha de apresentar teste covid negativo. Porém, as cinco ou seis equipas espanholas presentes, como a fronteira abriu, nada. Ou seja, não tendo nada contra os espanhóis, então, de Arganil para Loulé, dentro de Portugal, penso eu, a fronteira sanitária estava fechada, mas da Espanha para Portugal, dois países diferentes, julgo, a fronteira sanitária estava aberta. Foi a organização que se lembrou disso? Obviamente que não.

Se calhar, somos mesmo uns saloios que precisamos de ser permanentemente conduzidos pelo Estado, e por alguns organismos do Estado, a quem já só interessa que continuemos a ser saloios.
Luís Gonçalves