Em vias de extinção

Tour de France: Vincenzo Nibali wins stage 13 to extend lead - BBC Sport

A classificação de Vincenzo Nibali no Giro não seria de desprezar por nenhum ciclista. No fundo, consideramos todos que um lugar entre os vinte primeiros de uma grande volta é sempre um bom cartão de apresentação. Porém, quando se fala de Nibali, ficamos desanimados.

O italiano ainda pertence à geração que foi formada sem estes mais recentes tratados tecnológicos e científicos. Quando começou, provavelmente em meados da década de noventa do século passado, o acesso a estas mais modernas ferramentas de treino ainda era quase inexistente, no limite, demasiadamente restrito. Agora, até à distância, sem uma observação directa e próxima, se trabalha.

Mas para um homem nascido na Sicília no princípio da década de oitenta, a internet ainda era uma pura ilusão. Bem, quanto a isto, não era preciso ser da Sicília! Por isso, enquanto mais jovem, fazia deslocações constantes ao continente para competir, atravessando de barco o estreito de Messina, que separa a Itália continental da Sicília, águas movimentadas por tubarões! Não é só da frieza que vem a sua alcunha.

Contudo, aos dezasseis anos, com a exigência de treinos e corridas a aumentar, tornou-se evidente que a permanência no continente teria de ser mais constante. Passou então a morar uma boa parte do ano na casa do seu director desportivo de então. Na verdade, um pormenor pelo qual vários desportistas destas gerações passaram.

Os bons resultados nos escalões de formação, com lugares de destaque em campeonatos do mundo de CRI, mas sobretudo a sua capacidade de abnegação e sacrifício pela modalidade começaram a chamar a atenção de algumas equipas. Surge, em 2005, o profissionalismo pela mão da Fassa Bortolo. O resto é história.

Vincenzo Nibali aims for a third success in the Giro: “My condition is  improving” | Web24 News


Não vamos, também, fazer aqui o percurso de Froome ou Valverde. Com as suas nuances, acabaria por ser idêntico. O mesmo para Cavendish ou para Greipel. Numa realidade diferente, que não a europeia, até Egan Bernal, apesar de mais novo, teve a sua quota de inventividade.

Um dia destes, via os dados de treino de um jovem Junior português. Incluíam repetidas passagens na mesma subida, feitas, religiosamente, à mesma velocidade, provavelmente sempre controladas pelo mesmo gasto metódico de esforço, o que só se consegue a olhar permanentemente para a parafernália de dados tecnológicos que as bicicletas já suportam. É um mau treino? Não. De todo. Mas tira margem de decisão e compreensão ao atleta? Tira. E o problema surgirá quando ele precisar de compreender essa margem de decisão. Em competição, ao mais alto nível, isso será, mais tarde ou mais cedo, inevitável.

Bahrain-Merida mulls over possible return for Nibali to the Vuelta a Espana  in 2017 | Cyclingnews


Nibali diz muitas vezes que um dos melhores treinos que pode fazer é ainda o treino de sensações. Algo que compreende bem, porque o seu treino inicial deveria ser essencialmente baseado nessas sensações que, com tempo, aprendeu a perceber. E tantas vezes é necessário inventar a meio do treino. E é tantas vezes dessas invenções que surgem as maiores diversões e aprendizagens

Também há pouco tempo, um jovem ciclista, tinha um treino de xis tempo. Por engano de percurso, viu que ultrapassaria em cerca de quinze/vinte minutos o tempo máximo estabelecido. Que fez? utilizou a tecnologia, ligou ao pai, e o amável senhor foi buscá-lo ao local onde estava. Parece mentira, mas é verdade! Quem elabora o treino também deve ter boa interferência nisto. Um plano de treinos não deve ser o regresso à escravatura. Mas, tem existido uma leitura demasiadamente cega do que é o treino, vinda de todos os lados da barricada. Não é incomum ver um miúdo interessadíssimo em Watts, e não saber apanhar corretamente uma garrafa de água ou circular em pelotão, estas sim, características essenciais de aprendizagem.

Melhor ou pior, com mais ou menos evidência, Nibali e companhia continuam por aí. Também usam agora as valências tecnológicas. É impossível não usar. Mas as suas bases foram outras, talvez bem mais sólidas, menos plásticas e mais naturais. Pode ser esse um dos segredos da longevidade.

Na geração mais recente, especializada mais cedo, e talvez por isso apareçam na alta roda cada vez mais novos, essa longevidade ainda está por provar. Até podem vir a ser carreiras mais longas, não sabemos, mas, por enquanto, não é o que parece. O exemplo dos novos sprinters tem sido revelador.

Pior do que isso, para quem vê a modalidade de uma determinada maneira, será irmos perdendo sucessivamente ciclistas capazes de empolgar pela reação pura aos momentos de corrida. O que vai valendo é que quando os ciclistas estão ao mesmo nível, não há leitura de Watts que valha. Os fatores decisivos serão sempre: leitura tática, instinto e sacrifício, muito sacrifício, dentro e fora das corridas. Alguns acreditam que sim, mas isto não aparece nos visores.
A tendência é natural. As gerações revezam-se. Mas juntando o antigo e o moderno, com conta peso e medida, serão Nibali e companhia uma espécie em vias de extinção? Esperamos que não.
Luís Gonçalves