Aprendiz de “canibal”

Estamos em crer que, por estes dias, cada português que segue o ciclismo com mais atenção terá encontrado o novo vilão nesta teia cinematográfica e artística que também é o ciclismo.

No Giro, os capítulos sucedem-se aparentemente sem grande história para apurar o vencedor final. Mas, nestas coisas dos filmes, às vezes, há uma reviravolta inesperada. E se há prova capaz de nos proporcionar uma reviravolta dessas é o Giro e a sua última semana. Ou isso, ou então será uma daquelas comédias românticas ligeiras em que o protagonista Egan Bernal leva todas as suas puras intenções a bom porto.

Bem, mas o vilão dos portugueses não é Bernal. É Remco Evenepoel. No fundo, aquele que contraria o nosso actor favorito na trama. Enfim, em tempos foi Valverde, naquele Tour em que Rui Costa teve de esperar pelo espanhol logo numa das primeiras etapas, restando só, pela Movistar, um jovem e desconhecido Nairo Quintana no primeiro grupo. No fim, Nairo foi segundo da geral, e Rui Costa venceu duas etapas…

Mas quem será mesmo o vilão nesta história do Giro? Será difícil sabermos quem quis Evenepoel no Giro. O próprio, a equipa, a organização, ou, todos juntos, serão as hipóteses mais credíveis. O tema será bastante discutido, sobretudo na Bélgica, onde parece já estar aceso.

As questões serão objectivas. Será que a equipa achou que estaria recuperado da grave lesão e pronto para afrontar a dureza do Giro, como potencial vencedor? Terá o próprio Evenepoel achado que era mesmo um super homem? Terá a mística que se criava à volta do belga sido sua frontal inimiga?

O resto do Giro pode trazer alguma luz sobre as questões. Talvez um banho de humildade não faça mal a Evenepoel e, quem sabe, a Patrick Lefevere. Quanto ao primeiro veremos como lida com essa necessária humildade. Uma carreira desportiva longa é feita mais de insucessos do que de sucessos e é sobretudo nos momentos maus que se vê o verdadeiro espírito dos campeões.

Só recentemente, os contratempos de vária espécie que Froome, Contador, Nibali e Valverde já tiveram de ultrapassar são ainda inimagináveis para o jovem belga. Se Evenepoel quiser ser de facto, muito bom, é para eles que tem de olhar. O desportista, o ciclista, é muito mais do que capacidade física. Muito mais, mesmo! Veremos.

Por enquanto o que é certo é que a tal mística à volta do belga está seriamente abalada. O contexto do regresso não é favorável, mas, já se começam a lançar dúvidas até agora impensáveis. Mesmo para os adversários já será diferente olhar para o lado e ver um “imbatível”, ou, ver mais um como eles.

Ninguém nasce Canibal. A alcunha de Eddy Merckx surgiu quando a sua carreira já tinha alguma longevidade e muitas vitórias, nomeadamente em grandes voltas e monumentos. Não é por dizermos que alguém é Canibal, Pistoleiro ou Tubarão que ele o vai ser. É preciso merecer. E, de preferência, com a sua própria alcunha.
Luís Gonçalves