Os dois minutos de Ivan Basso

Ivan Basso photo gallery by BikeRaceInfo

Entre as grandes provas por etapas, talvez o Giro sempre tenha sido a mais imprevisível de todas. As montanhas, o clima, as estradas tortuosas, o próprio estilo italiano de fazer as coisas, tornam esta corrida verdadeiramente diferente. Não há a pressão do Tour, sobretudo mediática, nem a forma de correr o Tour, muito mais metódica, até porque, normalmente, o perfil do Giro coaduna-se pouco com grandes conjecturas tácticas. Não quer isto dizer que não exista táctica. Existe, mas é diferente.

Mas uma coisa nós sabemos ser de alguma previsibilidade. Olhando para a lista de vencedores, vemos que 69 vitórias são italianas. No Tour, vitórias francesas, são 36, e se juntarmos Anquetil, Hinault e Bobet ficamos logo com 13 dessas vitórias. Na Vuelta, competição mais jovem, os sucessos espanhóis são 32.

Digo com isto que vai ganhar um italiano em 2021? Aparentemente, não. Mas, vem isto a propósito do tempo perdido por Ivan Basso, na etapa do sterrato em 2010, idêntica à que tivemos recentemente, ano, o de 2010, em que acabou por ganhar o Giro. As comparações com Evanepoel têm sido muitas, essencialmente à conta dos cerca de dois minutos que, cada um a seu tempo, perderam.

Em 2010, Ivan Basso, não tinha estado um ano sem competir e isso será fundamental. Mas Ivan Basso tinha mais do que isso. Era, e é, italiano, estava numa equipa italiana, rodeado de italianos, conhecedores do Giro e do que tem sido a sua essência há mais de cem anos. Isto não é pouco importante para enfrentar as agruras das estradas italianas.

Para além disso, Ivan Basso, em 2010, já tinha vencido um Giro, feito pódio no Tour, tinha milhares de quilómetros nas pernas, muitos dias bons e maus (de certeza, mais maus do que bons o que é o mais natural), e, mais de trinta anos. E tinha como fiel escudeiro um jovem italiano chamado Vincenzo Nibali.

Evenepoel até será um prodígio, mas às vezes ainda parece que está a competir com os Juniores. Em pequenos pormenores, tem a falta de calma e o anseio de resolver as coisas rápido, e sozinho, que os Juniores por vezes têm. Mas este nível, que é o máximo, não se coaduna de forma alguma com esses ímpetos. E quando a equipa também não está talhada para estes momentos a coisa complica-se. Basta olhar para toda a constituição da Ineos, para ver que tipo de apoio podem dar a Bernal num dia mau.

Voltando à estatística, ter italianos, não é garantia de sucesso, mas, às tantas, ajuda. Os ciclistas italianos da Ineos estão quase todos neste Giro. Só ficou um de fora, Leonardo Basso. Depois ainda têm o Mateo Tossatto e o Dario Cioni no comando da equipa.

Mais do que de italianos o Giro precisa de experiência. Já era o que Ivan Basso tinha em 2010. No fundo, apesar de ainda jovem, já é o que Bernal tem em boa dose, guardado por uma boa equipa. Tirar auricular, colocar auricular, num tipo que já se recusava a sentar no banco da selecção belga de futebol, enfim, pode ser significativo. Às vezes, até os maiores campeões têm de passar ocasionalmente pelo banco. Também por isso são campeões.

Neste contexto, da experiência, olharia sempre para Simon Yates de lado. Parece mal, mas pode estar apenas a prever a última semana do Giro. Foi assim que Froome o dizimou.
Luís Gonçalves