As rotundas de Jean Marie Leblanc

Jean-Marie Leblanc ha insinuado que el ciclista estadounidense se dopó y  engañó a las autoridades de la carrera y al mundo deportivo.
Jean Marie Leblanc, aqui em conversa Armstrong, foi um poliglota do ciclismo. Antigo ciclista profissional( 1966 a 91971), foi jornalista desportivo e diretor da sociedade do Tour de France de 1989 a 2005 sucedendo a Xavier Louy . Quando atingiu a idade da reforma o seu lugar foi para Christian Prudhomme. O período em que esteve à frente da ASO foi um dos mais conturbados da história do Tour, com o caso Festina e os problemas associados a este caso.

Há já alguns anos, o histórico director da Volta a França, Jean Marie Leblanc, esteve por Portugal, num congresso em Anadia, onde também esteve, por exemplo, o então presidente da UCI Pat McQuaid.

Sobre a intervenção de Jean Marie Leblanc, que segui com atenção, lembro-me bem de reter uma das suas declarações. A questão era, no fundo, saber para onde ia o ciclismo e tentar saber o que poderia parar essa máquina crescente. Isto sem nunca imaginar-mos os tempos que vivemos atualmente.

De uma forma linear, recorrendo ao exemplo do Tour, Leblanc, via o circo mediático e logístico da prova cada vez maior. Era esse um dos pontos que apontava de possível saturação. Ou seja, para ele, a determinada altura, a estrutura crescente teria de parar de crescer sob pena de quase ser impossível organizar o Tour, quer na forma logística quer na forma económica.

Depois, há cerca de dez anos, apontava uma dificuldade crescente para os organizadores que já tinha então sério impacto, e que no futuro, quanto a ele, seria mais ainda. O ciclismo é um desporto de rua, mas uma rua que sobretudo nas partidas e chegadas precisa de aglomerados urbanos, esses que trazem mais público e que completam toda a sustentabilidade do ciclismo.

E nesses aglomerados urbanos, para uma maior proximidade com o público, é necessário recorrer ao centro das localidades. Muitas corridas, já então, começavam tendencialmente a afastar-se do centros das localidades. Todavia continua a ser no centro que se cria maior proximidade com o público e com outros interesses económicos, para além de ser no centro que muitos autarcas querem a chegada, doa a quem doer. E são os autarcas que pagam!
E essa necessidade de centralidade que é inevitável no ciclismo, trazia e traz outro problema cada vez maior. Passadeiras de gesso, separadores centrais, lombas de redução de velocidade e rotundas, tudo elementos que vieram organizar o trânsito automóvel, mas incompatíveis com as loucuras das chegadas ao sprint.

Há muitos anos que a questão está identificada pelos organizadores e as medidas de segurança até têm sido crescentes. Mas não deixa de ser uma questão cada vez mais difícil de contornar. O ciclismo, para ser sustentável, não pode abandonar de vez os centros urbanos. É preciso ter essa consciência porque ninguém tem muita vontade de custear uma chegada em pelotão no meio do nada, sem quase ninguém, a não ser que exista um interesse local nisso (normalmente turístico). Por outro lado, os centros urbanos, são cada vez mais perigosos, sobretudo, para chegadas massivas ao sprint.

Não é por acaso que a regra dos últimos quilómetros foi sendo alterada (actualmente nos 3km), proporcionando cada vez mais conforto na resolução de problemas. Mas não tem chegado. Às vezes, quando o grau de perigosidade é considerado muito elevado, tiram-se tempos antes e deixam-se os sprinters na sua vida. Mas, também aqui os perímetros urbanos, com rotundas e afins, são cada vez maiores, portanto estabelecer uma medida universal também poderia ser complicado e até injusto, dadas as características geográficas de cada cidade onde possa chegar uma prova. E, nas etapas propícias ao sprint que normalmente chegam ao centro das localidades, a generalidade do público ainda não compreende muito bem uma chegada que não seja em pelotão massivo com tempos tirados no risco de meta, esse elemento verdadeiramente simbólico do desporto, a meta. A alguns ainda faz confusão a primeira passagem na meta no decurso de uma etapa!

Jean Marie Leblanc não identificava a questão como uma das que pudesse parar a máquina do ciclismo. Mas sim como uma questão que iria trazer cada vez mais dificuldades organizativas ao ciclismo. Elas aí estão, crescentes, e devem ser estudadas por todos os intervenientes. Não só pelos organizadores.
Luís Gonçalves