O azar de Rui Costa e o cinismo da Ineos

João Rodrigues bem sprintou mas foi segundo. os portugueses, de Portugal, mostraram hoje, que também andam.

O título pode parecer ofensivo, mas não é. Por vezes, no desporto é necessário um pouco de cinismo. A vitória de Ethan Hayter, e da Ineos, na Fóia, teve muito disso. Ou então não, porque, quem estivesse estado atento ao decorrer da etapa de hoje, e da de ontem, desconfiaria que isto poderia suceder.

Seria, agora, fácil dizer que o resultado até seria relativamente previsível. O interesse da Ineos na colocação no final da etapa de ontem e a colaboração ocasional com a Emirates, hoje, podia ser um indicador. Evidentemente que Hayter estaria apenas à espera de se defender na Fóia, pensando no contrarrelógio, mas acabou por correr bem melhor do que isso.

A etapa começou cedo a ser animada com um grupo de fugitivos a ser conduzido pelas estradas algarvias pelo guia local Samuel Caldeira. O grupo, alcançou rapidamente larga vantagem, que chegou quase a oito minutos, porém, à medida que a dureza do percurso ia aumentado, foi perdendo unidades, sobretudo, com a chegada das últimas contagens de montanha do dia.

Antes da subida da Pomba, na estreita e sinuosa descida, o momento do dia, com a infeliz queda de Rui Costa, que deitou por terra o trabalho que vinha sendo desenvolvido pela sua equipa e, sobretudo, as suas fortes aspirações pessoais nesta Volta ao Algarve. Foi um momento infeliz e de azar, mas, o ciclismo também é feito destes momentos.

Uma descida que acabou por provocar já muitas diferenças, as quais se acentuaram já no decurso da subida da Pomba. Uma subida curta e dura que Kasper Asgreen, isolado da sua equipa, tentou levar com o seu ritmo.

Depois, o W52-FCPorto assume o grupo da frente, num assumir partilhado à entrada da Fóia com a equipa da RP-Boavista, as duas equipas portuguesas que acabaram por recolher mais dividendos desta etapa, colocando três ciclistas nos dez primeiros classificados, João Rodrigues e Amaro Antunes pelo FCPorto e Luís Fernandes pelo Boavista.

Uma subida que começou rápida, mas que se tornou mais cautelosa, até, sobretudo, ao ataque do ciclista da Arkea que acabou por mexer no vespereiro da Ineos, num primeiro momento com dois elementos e um pouco mais tarde permitindo-se, ainda, a saída de Hayter do grupo de trás.

Na frente, num grupo de cinco, três homens da equipa inglesa e uma condução confortável para Hayter que a poucos metros da meta assumiu a dianteira cortando o risco de meta na frente, apesar da boa réplica de João Rodrigues, segundo na etapa.

Nos últimos anos a Fóia tem-nos dado o vencedor final da Volta ao Algarve. O jovem Hayter (mais um) e a Ineos parecem estar em vantagem. Mas, ainda faltam três etapas.

A etapa de hoje foi interessante, mas ver a Fóia, onde mesmo nos dias mais cinzentos costuma estar sempre muita gente, despida de público, é desanimador. E que público teria o João Rodrigues a puxar por ele! Enfim, dantes, pela saúde, enviavam-se os cidadãos para o ar puro das montanhas. Hoje, parece que até as montanhas fazem mal à saúde. É a democracia.
Luís Gonçalves