O que esperar da CM TV ?

Há quase cinco anos, aqui, no Jornal Ciclismo, escrevi um artigo, amplamente divulgado a nível nacional, em que era deveras cáustico com uma atitude da CM TV, durante uma transmissão em directo da Volta a Suiça, em que estava o Rui Costa.

Sumariamente, num momento decisivo da etapa, quando o Rui, envergando a camisola de campeão nacional disputava a vitória da mesma, a transmissão, à boa maneira de um “alerta cm” foi interrompida, apenas, para ouvirmos falar o Fernando Santos sobre um dos primeiros jogos do Europeu de 2016. Fui, então, também cáustico com o futebol. Este, o único ponto que talvez hoje mudasse porque o futebol, apesar de cada vez menos parecer, não deixa de ser um desporto. E eu sou um desportista. De resto, mantenho tudo o que disse.

Não invalida isto que desta feita espere o melhor da CM TV. Não deixa de ser a associação entre o desporto mais próximo das populações, com o órgão de comunicação (somando a imprensa), também, goste-se ou não, mais próximo das massas populares. Todas. Mesmo algumas massas que dizem que fecham os olhos para não verem a CM TV.

Por tal, espero que desta feita não haja interrupções em momentos decisivos de uma etapa, nem partilhas de ecrã. Conhecendo o paradigma do canal, não sei se será fácil isso acontecer. Transmitir noventa minutos de ciclismo, sem ter a tentação de, ao mesmo tempo, cobrir um assalto a uma papelaria em Valadares, talvez seja pedir de mais à linha editorial.

Mesmo assim, há hipóteses de redenção. A CM TV anuncia reportagens nos locais de partida e chegada. Reportagens que podem ser aproveitadas para divulgar a modalidade. Este modelo, das reportagens e comentários à corrida ao longo do dia, é comum em países desenvolvidos em termos desportivos, já teve algum impacto na nossa Volta a Portugal (na RTP…), porém, nos últimos anos perdeu-se por completo. Sabe-se que alguns programas “pagam” a corrida, e também são necessários, mas, talvez, se abuse em demasia disso. Não estão assim tão longe os tempos em que se comentava a etapa e a corrida, o que nunca deixou de ser um foco de interesse para muita gente.

Ninguém esconde que a transmissão da CM TV deixa algumas dúvidas aos mais indefectíveis adeptos da modalidade. É verdade. Mas também é verdade que se não fosse este canal, ainda que sem sinal aberto, a Volta ao Algarve não seria transmitida por nenhum canal nacional. E também é verdade que a CM TV tem audiências, e isso só pode ser bom para a modalidade e para quem nela investe. E também em boa verdade, à falta de serviço público, só podemos considerar bom existir uma transmissão televisiva.

Por este dias, pela via informativa, anunciam-se “os melhores ciclistas em directo na CM TV” e apresenta-se a Volta ao Algarve, com algum pormenor, ao grande público. Começa bem. Veremos as transmissões. E a forma como quem as fizer, e comentar, transmite o que é o ciclismo.
Luís Gonçalves