reino do Algarve

Pedro Andrade passa da Vito-Feirense para a americana Hagens Berman Axeon
Pedro Andrade e a saga da família na Volta ao Algarve.

Apesar de parecer estranho, muitos portugueses nunca foram ao Algarve. Conheço gente, jovem, que já esteve em metade dos países da Europa e não conhece o Algarve, que, para todos os efeitos, faz parte de Portugal.

Talvez a tendência venha de longe. Foi a última região conquistada e, a esse tempo, ainda lhe chamaram reino do Algarve. O país era composto do reino de Portugal e do Algarve, claro, este último, sem autonomia de qualquer espécie. Um título honorífico.

Tirando o período de férias que, nos anos 80 do século passado, começou a levar milhares de portugueses para o Algarve, durante a madrugada, para atravessar o Alentejo pela fresquinha, muitos, carregados de tachos e merendas, prontos para a grande viagem e as famosas filas de automóveis (onde até consta que se arranjaram casamentos!), o Algarve, e os algarvios, são olhados com alguma desconfiança, enfim, porventura, aquela desconfiança de terem sido os últimos a chegar à nação. A mim, só me faz confusão ver a placa que diz Lisboa, apontada para Norte.

Porém, os algarvios, conseguiram dar ao país aquela que é por ora a mais mediática prova de ciclismo, considerando o panorama internacional. Não é a Volta a Portugal, essa tem uma ligação umbilical com o povo português e continuará a ser a rainha das provas pelo que consegue alcançar internamente. Mas a nível internacional a Volta ao Algarve impõe-se.

E os algarvios, porque o esforço inicial, até o da internacionalização, tem suor algarvio, conseguem dar-nos uma corrida diferente.

Uma corrida com vencedores de catorze nacionalidades diferentes, que abarcam quatro continentes diferentes. Uma corrida com seis vencedores, que também ganharam grandes voltas. Uma anormal corrida eclética, onde, ao longo dos tempos, já venceram trepadores, contrarrelogistas, sprinters e puncheurs. Uma corrida, como poucas no mundo desta dimensão (ou nenhuma, talvez) onde o pai Joaquim Andrade, em 1978, e o filho, também Joaquim Andrade, em 1991, se sagraram vencedores. Curioso, curioso, seria o Pedro Andrade, que estará no Algarve este ano, (filho e neto dos Joaquins mencionados) também vencer a corrida. Não é fácil de acontecer, mas por certo não teria igual no mundo velocipédico, o que tornaria a Volta ao Algarve ainda mais diferente.

A Volta ao Algarve foi em grande e esmagadora medida construída por algarvios, numa região onde o ciclismo tem implantação histórica. Contudo, nunca teve um vencedor algarvio, apesar dos bons ciclistas que o Algarve deu ao país.

O espanhol Mauri deu a única vitória ao Benfica na prova em 1999, um ano antes da vitória do célebre Alex Zulle. Mais célebre terá sido a passagem, em 2004, de Lance Armstrong e da sua US Postal, no impulso definitivo da internacionalização da prova. A partir daí, apesar das vitórias nacionais de Hugo Sabido e João Cabreira, o rol internacional de vencedores é quase inesgotável. E inesgotável, com vencedores de nomeada.

Continua a ser a única prova onde temos acesso às imponentes estruturas do Worldtour e onde vimos um português, com a camisola de campeão do mundo de estrada vestida a competir em solo nacional. O ano passado, quem gostasse, ficaria mesmo indeciso sobre a quem tirar a fotografia da praxe. Nibali, Thomas, Evenepoel e por aí adiante.

Pode-se dizer que a Volta ao Algarve já não é o ciclismo no seu estado puro. Mas, felizmente, mantém ainda muitas dessas características. No fundo, quem for ao Algarve ver a Volta ao Algarve, nunca dará o seu tempo por perdido. Pode até nem reconhecer os ciclistas, mas fica a conhecer o Algarve, do litoral ao interior, do mar à serra, do Sotavento ao Barlavento. E tem sempre a oportunidade de comer muita coisa com alfarroba, com uma rega de aguardente de medronho.
Luís Gonçalves