O trabalho essencial

Já distantes vão os tempos em que conseguíamos saber de cabeça os nomes dos medalhados portugueses no ciclismo. Ainda assim, alguns nomes não saltavam tanto à vista. As primeiras medalhas internacionais são de um campeonato do mundo de ciclismo artístico, por Ivone e Carmo Carvalho. Também não seria tão fácil recordar Micael César e as suas conquistas mundiais e europeias no BMX, creditadas na nossa Federação, apesar de, julgo, ter realizado a maior parte da sua actividade na Suiça.

De resto, até 2013, o inolvidável ano do título mundial de Rui Costa, seria relativamente fácil contar os sucessos portugueses na modalidade. Não é assim, felizmente, hoje em dia.

Vem isto a propósito da reportagem publicitária publicada no site da UVP/FPC, sobre os trabalhos da selecção de pista, pretendendo acompanhar outros no futuro, que começa com a referência às 38 medalhas nesta vertente. Ninguém de bom senso terá coragem de dizer que as selecções não têm feito um bom trabalho. Mas quem ler a reportagem publicitária poderá ficar com a ideia errada de que, só, a Federação tem feito um bom trabalho. Também se sabe, é uma estratégia de comunicação, e cada um deve estar preocupado com a sua. Porém, por diversos factores, as armas são desiguais.
Já aqui, e noutros locais, o tenho dito várias vezes que quem potenciou este desenvolvimento de resultados federativos foi a direcção de Artur Lopes, quando teve a boa iniciativa (não pode ser tudo mau!) de dotar a estrutura da federação de meios humanos, e sobretudo logísticos (do qual o velódromo é o mais visível exemplo), que ela não tinha. A geração seguinte, de dirigentes, e atletas, soube potenciar esse upgrade.

Se tomarmos por referência os atletas, não existirão grandes dúvidas que em outros tempos, com esta estrutura actual ou uma idealizada mais cedo, já teríamos tido atletas medalhados e, em vez de 38, estaríamos a contar muitas mais.

Na reportagem publicitária, o trabalho apresenta-se intenso. Ora, direi que mais não podia ser esperado por quem tem meios para isso e faz desta a sua actividade exclusiva. É o que se espera de qualquer trabalhador zeloso! O tipo de trabalho é útil e, como venho dizendo há anos, até me parece que podia ser bastante alargado o espectro de praticantes alvo, para além de ser necessária uma sequência mais uniforme e constante com todo esse espectro. Já se vê que há meios, e tempo, para isso.

Mas falando de trabalho convém realçar, até porque o tal espectro é curto, a qualidade do que é feito no seio das equipas, por gente, que não é, nem quer ser, especialista de nada, “apenas”, ajudar a construir a modalidade. Há elementos técnicos das selecções que conhecem essas dificuldades na base da pirâmide. Já por lá passaram. Outros, apenas fazem uso da imaginação para tentar perceber essas dificuldades e isso nota-se evidentemente no tipo de discurso que têm.

Num exemplo muito simples (e da moda) se não fora o nosso camarada José Pedro Fernandes (e os pais do ciclista, naturalmente), com o seu olho clínico a nu de ciência de máquinas, o João Almeida podia não andar pelo ciclismo. Se não era o Célio Apolinário (no clube José Maria Nicolau – já lá vamos aos clubes…) o João Almeida podia não ser o que é hoje. Só depois destes intervenientes essenciais, é que o João chegou às selecções nacionais.

No fundo, o mais difícil e essencial, e isso começa cada vez mais tarde porque as entradas na modalidade também têm começado mais tarde em idade, é tentar ensiná-los a andar de bicicleta nos clubes. Depois disso, para além do talento natural de cada um, é uma questão de mais teste menos teste científico. De outra forma, todos os elementos iniciais da então “escola de pista”, teriam obtido relevante sucesso.

Mas esse sucesso mais relevante vem inicialmente e de forma mais fulgurante com o talento natural dos gémeos Oliveira que bem antes de chegarem à pista, ou até já na pista, tinham os seus treinadores e os seus clubes. Claro, em bom rigor, esse talento, depois, também foi potenciado no seio federativo com eles e com outros que vão naturalmente aparecendo.

Tal como prometido momentos antes, os clubes. E porquê? Porque são os mais esquecidos nestas andanças de comunicação de trabalhos intensos. Veja-se o que aconteceu ao clube inicial do Rui Costa, ao clube onde começaram os gémeos Oliveira, ao clube de inscrição inicial do Pedro Andrade (que está na Axeon), ao clube José Maria Nicolau, onde passou, de forma decisiva, o João Almeida. A Federação não tem de assumir o papel de mãe dos clubes. Mas quando clubes que têm dezenas de anos de inscrição, e dezenas de atletas formados, e terminam ou suspendem a sua actividade, provavelmente, mereciam uma palavra de consideração. Dos que conheço, nem uma palavra de conforto, no momento da não inscrição. E, infelizmente, isso é significativo da forma como a Federação tem visto os clubes e as suas gentes. Já sei que houve por aí homenagens há uns tempos, mas isso são apenas placas.
Luís Gonçalves

2 thoughts on “O trabalho essencial”

  1. Não fosse o megalomaníaco do José Sócrates que nos levou à “banca rota” com a sua necessidade de arranjar obras meganomalas para os corregelionarios e não havia os CAR (Centro de Alto Rendimento) onde no da Anadia está inserida a Pista.
    Sobre o texto faltou uma referência às associações regionais de Ciclismo que estão com os clubes na verdadeira base do Ciclismo.

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