A questão essencial

Porque sou um privilegiado, esta semana pude dar-me ao luxo de comprar mais dois computadores cá para casa. Tudo à grande! Esta treta agora de fazer tudo on-line (que eu abomino!), até exercício, assim o obriga. De outra forma, por exemplo, com crianças em casa a tentar ter uma espécie de aulas pela televisão e trabalhos pelo computador, somado a uma espécie de teletrabalho meu e da esposa (o teletrabalho não é isto que agora dizem ser… é das maiores mentiras dos últimos tempos) não conseguiria fazer nada, muito menos, porque consigo, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, ser (a meias) o professor efectivo, sem ordenado, da minha filha mais velha e, auxiliar de educação do mais novo tentando apenas impedir que um dia destes vá parar ao hospital porque foi contra um móvel qualquer com uma esquina mais perigosa.

Ninguém sabe o que é o Covid-19. Por mim, podiam chamar-lhe vinte ou vinte e um e dizer que era curado com panadol. Ou por outra, poucas pessoas no mundo saberão o que é. Talvez os que saibam sejam os menos recomendáveis. Mas a forma como cada um vê este tempo é inevitavelmente marcada, como sempre, pela experiência pessoal de cada um e pela sua sensibilidade, ou até ramo de actividade. Tenho familiares próximos no SNS que têm uma visão frontalmente contrária à minha em relação ao tempo de confinamento. É, normal. Também por isso temos opiniões para todos os gostos sobre este tempo. E, embora as palavras amenas do nosso compincha Marcelo, em tempo de restrições de liberdade brutais, essa variedade não pode deixar de ser boa, cabendo a cada um ler, ouvir e com muita calma, apreciar, contrariar ou concordar, fundamentando.

No ciclismo, porque não é fácil, os calendários têm andado para trás e para a frente sem qualquer tipo de certeza. Entretanto, já veio a organização mundial de saúde, ou organismo político parecido, dizer que a realização do Tour, em qualquer altura deste ano, pode ser um barril de pólvora sanitário. Sabemos todos, ou julgamos saber, isso. Mas também sabemos, e essa é certa, que a não realização do Tour, no mundo em que vivemos actualmente, é um barril de pólvora económico, para o desporto e sobretudo para o ciclismo.

A ponderação é difícil, e transversal, mas o tempo de necessário e proporcional confinamento, para além da óbvia questão sanitária, também deveria servir para os vários governos pensarem em estruturas que obstem ao desenvolvimento, e melhorem o combate futuro desta pandemia, ou de outras que por aí virão. Confinar por confinar, proibir por proibir, é uma solução que qualquer administrador de condomínio, fraco, tomaria.

Direi eu que não é a pensar, neste tempo, pagar menos a um enfermeiro (com contrato temporário…) do que a uma empregada doméstica (sem desprezo por quem faz este trabalho) que caminhamos no sentido da solução que nos leve a um regresso de normalidade ou, quase. Ou é?!

Também estamos todos em lay-off. Verdadeiros ou falsos. E lay-off, significa realisticamente, no imediato, redução drástica de rendimentos e, por tendência, acaba numa série de “dispensas” laborais. Essa sim a verdadeira espada do lay-off. As poucas actividades retomadas a prazo progressivo e com redução de meios, poderão ser já um triste indicador de quem sai e quem fica, sabendo que a relevante maioria do país, dos países, depende do tecido empresarial privado e não dos reformados ou dos salários na função pública (Sem nada contra ninguém: estou no privado, já passei anos na função pública e por este andar nunca serei reformado!).

Voltando ao ciclismo, depende em boa medida do poder local, nomeadamente na formação, mas, é insustentável sem o apoio das empresas privadas. Por tal, todos concordaremos que a redução de custos no ciclismo, a breve prazo, terá de ser uma realidade porque os patrocinadores terão pouca capacidade financeira. Mas convém que existam empresas para patrocinar!
E para as que continuarão a existir também será necessário passar uma mensagem de alguma normalidade. Por isso, como farol orientador do ciclismo, é imprescindível que, mesmo com algumas condicionantes, se faça a Volta a França.

Comecei por dizer que sou um privilegiado. E sou. Não significa isso que não esteja seriamente preocupado com quem não está numa situação idêntica. E serão cada vez mais a passar dificuldades até agora inimagináveis para alguns. Uma infeliz maioria silenciosa. Uma boa parte morrerá da cura.

O nosso ciclismo, como a nossa sociedade, é frágil. E a questão essencial, para nós, ciclismo, será se existirá ciclismo em 2021, ou em que condições ainda menos apelativas para os jovens de que carenciamos, se não existir alguma abertura em 2020. O mundo mudará, é certo, mas para mudar não pode parar. Parado é que não muda.
Luís Gonçalves