Sejamos realistas

Não queria ser mais um vidente a juntar-me às centenas que, de todos os quadrantes da sociedade, têm uma opinião sábia do que vai acontecer a esta pandemia nestes próximos tempos. Devemos estar todos de acordo de que ninguém sabe absolutamente nada sobre o assunto, porque, pura e simplesmente, uma pandemia com esta grandeza e características, nunca tinha acontecido no mundo.

E isto vem a propósito do que se vai lendo e ouvindo sobre o futuro do ciclismo. Sobretudo sobre a prova mais mediática, onde se investem milhões, muitos milhões. Estou-me a referir, naturalmente, ao Tour de France.

A organizadora da maior parte das melhores provas de ciclismo de alta competição no mundo, a ASO, é uma estrutura muito pesada, com muitos meios ao dispor, se calhar grande parte da logística usada nas provas já está amortizada contabilisticamente. A maior parte dos meios humanos podem perfeitamente ir para uma chômage technique, aqui em Portugal conhecida por lay-off. Esta é uma medida que por razões excecionais, como as que estamos a viver com esta pandemia, as empresas são obrigadas a reduzir ou mesmo suspender totalmente a sua atividade durante um período de tempo, sendo apoiadas pelo Estado assim como os seus trabalhadores, mediante certas condições. Portanto, os colaboradores da ASO, terão assegurado uma parte dos seus rendimentos sem fazerem praticamente nada. Salvo melhor opinião, a ASO pode não faturar os milhões que faturam todos os anos, mas não é, nem mais, nem menos, do que uma entre milhões de empresas que têm de esperar melhores dias. Claro que para nós, amantes do ciclismo, este ano é para esquecer.

Esta é a mais uma guerra que a humanidade teve de enfrentar ao longo dos anos. Esta é a guerra da nossa geração. A ultima guerra, demorou 6 anos a passar e felizmente só nasci 15 anos depois e por isso nada sofri. Esta, chamada de Covid-19, não sabemos quanto tempo demorará. Na 2ª grande guerra mundial os militares e os civis que foram obrigados a combatê-la com armas, com fome, com medo. As consequências foram devastadoras, mas quem nasceu uns anos depois, já só assistiu a um progresso galopante. Se calhar depois desta pandemia passar, e após milhares de vitimas, o mundo será diferente, não sei se melhor ou pior. As armas outrora usadas são trocadas por mascaras e luvas e em vez de nos escondermos em bunkers e em caves, teremos que adotar comportamentos sociais diferentes. Não creio que deixaremos de nos abraçar e de convivermos como sempre o fizemos, mas de uma coisa eu tenho a certeza, estaremos mais bem preparados para outras pandemias e sou obrigado agora a dizer, com toda a sorte que me tem acompanhado e aos meus, que se calhar, há males que vêm por bem.

E depois deste extenso relambório que apenas servirá para memória futura e para sensibilizar alguns, para tudo aquilo que se está a passar e os obrigar a refletir. Afinal o ciclismo também nos levou a refletir. Quem diria?

Sobre as últimas noticias sobre o Tour de France, a ASO apresentou à UCI, uma data para a possível realização da prova e apontou a data de 29 de Agosto e 20 de Setembro. Até à hora que escrevo estas linhas a UCI ainda não tinha tomado qualquer decisão até porque esta mudança colide com os Mundiais de Estrada e com outras provas como a Vuelta.

O governo francês estendeu até 11 de Maio o período de confinamento. E fê-lo bem, porque os números de infetados e de mortos em França, não dá qualquer margem para grandes mudanças em termos de voltar tudo à normalidade, nem pouco mais ou menos.

Não sendo economista, mas usando a sensibilidade e o bom senso, penso que o regresso à normalidade de toda a sociedade vai ser feito por fases, as empresas e os serviços devem começar por usar uma pequena parte dos seus efetivos e mão de obra e esperar para ver o que acontece aos números de propagações. Isto permite que os meios hospitalares nunca colapsem, como para já acontece em Portugal. O mesmo não se pode dizer de Itália, França e sobretudo Espanha, países mais industrializados do que o nosso e de onde provém a maior parte do seu PIB. Vamos ter que esperar por Maio para sabermos se fizemos bem o que estamos agora a fazer, adotando o confinamento que é altamente tóxico para qualquer economia. Tenho esperança que o nosso melhor bem, o turismo, vai ser a terapia para muitos milhares de pessoas em todo o mundo que a primeira coisa que farão mal estejam autorizados a fazer é viajar e Portugal é um destino de eleição.

E agora a minha pergunta que faço a todos os leitores do Jornal Ciclismo: para que servem as equipas gastarem milhões se não haverá condições para que as marcas de bicicletas vendam mais, se os supermercados Jumbo não vão recuperar números perdidos. Que a Ineos está a perder milhões, a Bora não vende mais fogões, a QuickStep não vai vender mais soalhos porque ninguém está a comprar casas em madeira, a Movistar não se vai expandir para novos mercados de telecomunicações e a Astana com o seu império de tudo o que reluz? Etc, etc, etc…

Jorge Garcia