A imagem da modalidade e a falta de juízo

Enquanto em semanas anteriores andámos todos a aprender a lavar as mãos, durante esta semana a comunicação social tem andado entretida a ensinar-nos a usar máscara, como comprar a máscara mais bonita (e somos tentados por vários sectores comerciais) ou Workshops para fazer-mos a nossa própria máscara, por tendência hipster, chique ou, simplesmente e infelizmente porque, para cada vez mais, é preferível reservar o dinheiro para comprar pão e leite, que são, ainda assim, comprovadamente, bens mais essenciais.

No contexto, há dias, vi um veículo estacionado, com um terço e uma máscara (claramente em uso!) pendurada no espelho retrovisor. Pensará o cidadão que maior protecção não existe. Ou não vê televisão, ou as mensagens da comunicação social e de outros com mais responsabilidade são tão contraditórias, dispersas, comerciais, banais, que se tornam, obviamente, inócuas e inúteis. Bem, também foi no Norte, onde claramente só existe gente bárbara e mal educada.

Mas, obviamente, não é isso que nos traz aqui. O que nos costuma trazer aqui, embora seja cada vez mais complicado é o ciclismo e, no caso de hoje, a forma como será visto o ciclismo num futuro bem próximo.

Ninguém tem dúvidas de que toda a actividade desportiva será seriamente afectada no que será um obrigatório regresso a uma espécie de normalidade no pós vírus, no entre vírus, no com o vírus ou o que quer que seja e que ninguém sabe. Mas se o futebol, o basquetebol, o andebol vivem de estádios e pavilhões, com um reduzido número de desportistas e em localizações precisas, talvez aquela que sempre foi a mais valia do ciclismo, a proximidade itinerante, se torne agora no seu maior problema.

De facto, numa modalidade que usa a via pública, tendencialmente em distâncias longas, ligando localidades, com elevado número de desportistas e todo o circo que os rodeia não é fácil de controlar. Se quem vê habitualmente ciclismo, contornará tudo isso, porque quer é ver ciclismo (desesperadamente), mais difícil é contornar o que pensará o cidadão que vê ocasionalmente, ou que nem sequer tem grande predilecção pela modalidade.

Em tempos em que todos desconfiam de todos, e quanto mais se aumenta a clausura mais se aumente a desconfiança no regresso, talvez seja este, no imediato, um dos maiores desafios dos agentes da modalidade: sensibilizar os outros de que é possível e que não somos bandidos (sem direito a perdão de pena!).

Até porque, o regresso a uma vida desportiva perto da normalidade, é inevitável num sector que gera milhões e que dá emprego a muita gente, mas, à margem dos grandes feitos, é tendencialmente desprezado pelos políticos, nomeadamente em Portugal. O lobby na cultura, que não a cultura desportiva é bem maior. E, se já somos um país de cultura duvidosa, ninguém tem dúvidas que a cultura desportiva anda pelas ruas da amargura. E, se não fossem os clubes e as associações desprovidas de interesses financeiros e carregados de puros voluntários com função social, tudo seria pior.

Voltando ao ciclismo, à escala global, o trabalho sobre a imagem da modalidade terá de ser melhor que nunca. E, quanto a isso, também cada um de nós pode dar o seu pequeno contributo. Ou seja, para que possamos voltar a ter o pelotão (os vários pelotões) na estrada devemos agora dar uma imagem de prudência.

Em qualquer estado de emergência, embora preferencialmente em casa, nunca serei contra o exercício na rua, conforme legalmente previsto por períodos curtos e, em prática isolada. Exacto, em prática isolada. Mas, ainda recentemente (e mais do que uma vez), passamos por um grupo onde vimos vários “ciclistas” do escalão master. Numa zona onde temos uma vasta amostra, temos visto profissionais e escalões de formação em esforço por cumprir as normas. Talvez porque sejam os que realmente têm mais a perder. É pena que, mais uma vez, sejam os veteranos (os escalões mais residuais em termos de significado desportivo) a dar uma má imagem da modalidade. Tenham juízo.
Luís Gonçalves