Tudo ou quase tudo sobre o Paris-Roubaix

Se as nossas vidas não estivessem atualmente em permanente desassossego, pelas razões que todos conhecemos, neste próximo fim de semana os aficionados estariam a assistir a mais um Paris-Roubaix, uns in loco, outros no conforto do seu sofá. O Inferno do Norte, como é conhecida a prova, cumpriria a sua 118ª edição.

A história desta prova teve início em 1896, tendo como partida a cidade de Paris até aos primórdios de 1967. A partir desse ano, a partida passou a ser efetuada em Compiègne, a umas dezenas de quilómetros da capital francesa, e tem o seu final em Roubaix no norte de França, como sempre. Ao longo dos anos o seu final em Roubaix teve vários palcos, mas estabilizou no Velódromo de Roubaix, inaugurado em 1895. Esta clássica da primavera é considerada como um dos cinco monumentos do ciclismo, devido às suas características ímpares e de onde predominam os famosos pavés (paralelepípedos) tal como acontece com outras provas na Bélgica, a Volta à Flandres ou a Gent-Wevelgem, ou mesmo noutras provas fora da França e da Bélgica. O Paris-Roubaix comporta cerca de 260 kms de prova e tem atualmente cerca de 28 sectores de pavé, com os mais longos a terem cerca de 3,7 kms de extensão.

A manutenção das estradas e da substituição dos pavés é garantida pelos, Les amis de Paris-Roubaix, um grupo alargado de aficionados que se formou em 1983. A prova é organizada pelo grupo Amaury Sport Organisation (ASO) uma fortíssima organização de eventos desportivos de origem francesa que vão desde as principais provas de ciclismo a nível mundial, atualmente organizam 25 provas e são por exemplo os organizadores do Dakar ou da Maratona de Paris e de Regatas a torneios de Golf e ainda são os proprietários do famoso jornal L´Équipe.

Na prova, todos os sectores de pavé foram categorizados pela dificuldade e que vão de uma estrela (terrenos menos difíceis) até às cinco estrelas (pisos com grandes dificuldades). O primeiro sector de pavé ocorre ao quilómetro 98. Se a prova decorrer debaixo de chuva e frio, é fácil imaginar porque é apelidada de Inferno, porque competir em terrenos com lama e pavés molhados é uma lotaria permanente para todos. Os ciclistas belgas e os franceses são os mais bem preparados e os que melhor conhecem a forma de contornar as dificuldades da prova.

O grande sucesso desta competição é comprovado pelas centenas e centenas de pessoas que vibram com o espetáculo ao vivo só superável pelo Tour de France. As caravanas publicitárias que passam cerca de 1:30h antes da passagem da prova, fazem as delícias de novos e velhos que se acotovelam para recolher um qualquer brinde lançados sobre eles. Raro é o espetador que não leva para casa uma recordação da prova. A presença dos tiffosi belgas que ocorrem em massa aos últimos troços é fruto já da proximidade com o seu país.

Perguntar a um belga com cerca de 15 anos qual o seu desporto preferido, responde sem hesitar, futebol. Se o fizermos a uma pessoa com mais de 50 anos, talvez responda que é o ciclismo, porque é um desporto emotivo e é gratuito. A maior parte dos espetadores belgas são oriundos da Flandres, que fazem questão de se identificarem com as suas bandeiras amarelas com um símbolo de um leão negro rompante, colocando-as nas dezenas de roulotes que costumam acompanhar nas provas de ciclismo na Bélgica e no Tour de França, ou empunhando-as freneticamente à passagem dos ciclistas. Os belgas e os franceses têm em comum o gosto por estarem em grupo e desfrutarem dos famoso barbecues acompanhados pelas excelentes cervejas, sobretudo belgas, consideradas as melhores do mundo, existindo atualmente cerca de 450 tipos de cervejas nesse país com cerca de 10 milhões de habitantes.

Em termos desportivos vencer uma prova destas não está ao alcance de qualquer ciclista. Tem que possuir uma serie de características peculiares, que para além das físicas, da cuidada preparação para a prova e do conhecimento do terreno, é sobretudo a grande capacidade mental para gerir todas as fases da corrida que será a chave para um sucesso. O maior numero de vitorias conquistados nesta clássica, quatro, pertencem a dois belgas: Roger de Vlaeminck e Tom Boonen. Com 3 vitórias temos alguns nomes que fizeram história no ciclismo mundial como é o caso do belga Eddy Merckx, do suíço, Fabian Cancellara ou do italiano Francesco Moser. A ultima edição foi ganha pelo belga Philippe Gilbert. Foi a sua primeira vitória em Roubaix e que lhe fez juntar no seu curriculum quatro monumentos. Falta-lhe apenas o Milan-San Remo.

E agora algumas curiosidades sobre a prova: – quem participou mais vezes foi o australiano Mathew Hayman, em 17 edições chegou ao fim em 16 e venceu por uma vez em 2016. O ciclista mais novo a vencer foi o francês Albert Champion em 1899 com 20 anos, e o mais velho, o também francês Duclos-Lassale com 38 anos em 1993 a repetir o triunfo do ano anterior. Por países a Bélgica venceu por 56 vezes, a França por 28 e a Itália por 10 vezes. Em 2001 houve o maior numero de desistências 169 e onde participaram 224 ciclistas.

Jorge Garcia