Ciclismo: desporto do século XXI ?

Os campeonatos do mundo de ciclismo estão, cada vez mais, como os regulamentos da UCI, ou até os internos, com alterações sucessivas, por vezes invenções pouco profícuas e exageradamente desajustadas da realidade actual, como esta, do modelo dos CR mistos.

A ideia já vem do XC, com o team relay, que já se faz há algum tempo, mas também aqui com pouca competitividade. Uma prova no plano teórico interessante, mas no plano prático, ainda desajustada. Mas, olhando para uma prova como o campeonato do mundo, que premiará os melhores de todo o mundo conhecido, podemos pensar no que será a competitividade vista a essa escala, à escala mundial.

O ciclismo, como uma boa parte dos desportos mais populares no mundo, tem uma raiz intensamente europeia e centralmente europeia. Olhando para os primeiros campeonatos do mundo de ciclismo (provas de fundo de Elites) vemos um domínio europeu. Aliás, nem sequer será preciso, olhar só para os primeiros campeonatos do mundo que, de forma oficial, tiveram início em 1927, em Nurburgring, Alemanha, com a vitória do italiano Alfredo Binda.

Num plano abrangente, das quase noventa edições do campeonato do mundo, assistimos a três, apenas três vitórias de não europeus. Greg Lemond em 1983, Lance Armstrong em 1993 e Cadel Evans em 2009.
Consultando a lista de cidades/países organizadores foram oito os campeonatos do mundo disputados fora de território europeu, curiosamente, ou não, todos com vencedores europeus. Da Venezuela em 1977, onde triunfou o italiano Francesco Moser, ao Qatar em 2016, onde Sagan se impôs, passando pela Colômbia, Canadá, Austrália, Japão e duas vezes pelos EUA. Note-se, no entanto que, recentemente a UCI organizou dois campeonatos seguidos fora de território europeu e em continentes diferentes (2015 nos EUA, e em 2016 no Qatar).

Se o campeonato do mundo teve três vencedores não europeus, podemos pensar que a multinacionalidade cada vez maior das grandes voltas nos dá mais diversidade. Puro engano. Os dados são idênticos. Se contarmos com Armstrong, este ano, com Bernal, tivemos o quarto vencedor não europeu no Tour. No Giro, Carapaz foi o terceiro e na Vuelta são quatro.

Mais semelhante é reparar que, sem contar com a vitória do colombiano Luís Herrera na Vuelta de 1987, são os americanos que furam este bloqueio continental. Andrew Hampsten no Giro e Greg Lemond no Tour e nos mundiais são os pioneiros. O panorama feminino é idêntico. São as americanas que com frequência dão mais luta e chegam à vitória.
A UCI bem tem feito por isso e, diz-se, que avançamos para um novo paradigma no ciclismo mundial. Um paradigma em que o acesso aos grandes resultados será mais democrático, logo, mais rentável para a UCI. Talvez seja assim e, definitivamente, não vem mal ao mundo por isso.
Mas como em tudo na vida, e na História, as grandes mudanças operam-se lentamente, necessitando de um lume brando de sustentabilidade.

No ciclismo, as mudanças são visíveis. Discute-se já o primeiro campeonato do mundo africano e o primeiro vencedor do Tour desse continente. O mundo está mais próximo, mais rápido, e por isso mesmo muda-se depressa mas sem planos de durabilidade.

Porém, como sempre, o que tiver de permanecer como bom e duradouro, sucederá. Para isso, não valerá a pena impor medidas de força e à força sendo razoável que a UCI se apercebesse disso. A direcção de Lappartient tem imposto reformas e medidas a mais em pouco tempo e tanto anda para a frente como anda para trás (algo que se “pega” às Federações nacionais quando idealizam os seus regulamentos próprios). Isto gera confusão e pouca certeza no que se faz e naquilo a que podemos ter acesso. Será um paradoxo, mas pensar prudentemente o futuro tem mais a ver com o passado do que com o presente, sobretudo com o presente imediato. No fundo, ninguém se deve deslumbrar.

A UCI diz que quer que o ciclismo seja o desporto do século XXI, e bem. Mas, para isso, também convém que chegue ao fim do século XXI. Há toda uma nova visão do que pode vir a ser o ciclismo. Situações impensáveis há cinquenta anos, e que agora já veremos como uma normalidade no futuro. Mas nada, de verdadeiro sucesso, vive e sobrevive sem aquelas que são as suas ideias iniciais e fundamentais.

Como modelo, o palmarés dos sucessos vai sendo alterado, sobretudo desde os anos oitenta. Com tempo, nos últimos trinta ou quarenta anos. Algo que nos permitiu chegar a 2019, e ver com naturalidade a vitória de Egan Bernal no Tour e não achar estranha a vitória de Carapaz no Giro. Tudo, sem ser preciso impor nada de especial às corridas colombianas, muito menos às equatorianas. Até será interessante reparar que os colombianos têm sido das nações que mais tábua rasa têm feito de alguns regulamentos UCI.
Luís Gonçalves