“TUTTO A MILLE” E OUTRAS VOLTAS!

Aproveitando um panfleto , relacionado com a Volta a Portugal de 1960, fui revisitar a “tralha”  acumulada sobre ciclismo.

Nessa tal publicação de antevisão da Volta 1960, editada pela Federação, tive oportunidade de visualizar o mapa da 23ª edição da prova rainha do ciclismo português. Ainda à semelhança da primeira edição, em 1927, quase copiada da antecedente Volta a Portugal a cavalo (e não em bicicleta!), o mapa das etapas estendia-se e dava de facto a volta ao país.

No meio dessa “tralha”, não só de papéis, fui também encontrar uma t-shirt da 62ª Volta a Portugal em bicicleta, ano 2000, quando finalmente venceu o Vitor Gamito. Lembrei-me de um italiano que se deslocava por essa Europa fora, nas provas de ciclismo, vendendo produtos alusivos à competição onde estava, vindo durante alguns anos a Portugal.

Com a caravana publicitária, ainda com alguma dimensão, o engodo era anunciar “camisolas, óculos, meias, bonés” (começando-se a juntar gente à volta da carrinha) até que finalmente rematava “Tutto a mille, Tutto a mille…”! Mil escudos, obviamente, fazendo com que de uma pequena multidão sequiosa de um brinde grátis, ficassem apenas alguns bons compradores.

Nessa t-shirt, está o mapa da Volta 2000. Ainda bastante completo e a percorrer a maior parte do país, mas já com alguns cortes de percurso. A primeira etapa começou e acabou em Loulé, mas a segunda já se iniciou, após penosa ligação, em Palmela, localidade que, depois de Loulé, seria a mais a Sul, embora uma das etapas acabasse em Évora.

Se olharmos para o percurso de 1960, é quase incomparável com o que temos hoje. Mas em 2000, já começamos a vislumbrar, as últimas Voltas a Portugal.

Os factores, para gradualmente chegarmos ao que temos hoje, são diversos e dariam uma lista crescente. As últimas edições da Volta, têm-nos dado o que o país permite, tanto economicamente, como até em termos de estruturas rodoviárias que permitem ligações entre etapas impensáveis há vinte anos, muito menos há sessenta.

Se o Norte tem sido bafejado pela sorte, não deixam contudo de deixar alguma saudade outras Voltas a Portugal, num contexto internacional diferente, com outras equipas e com uma festa popular muito maior, potenciada por grande parte das etapas coincidirem na chegada e na partida do dia seguinte.

Mudou muita coisa. Até as equipas, as grandes equipas, que agora só têm vindo ao Algarve, têm estruturas muito mais cinzentas. Tudo controlado com Watts. Não estou a ver ninguém do staff da Sky (ou outra dessas…) a dar boleia a dois desgraçados algures no meio do Alentejo!

Pois na Volta de 1998, mais jovens, desconhecendo que a estação de comboios de Portalegre, onde desembarcámos, ficava, como fica, a doze quilómetros da cidade (como aliás é normal no Alentejo), eu e um primo, iniciando o percurso a pé, onde passaria a etapa (que terminavam, mais cedo) fomos pedindo boleia. A alma caridosa foi o autocarro da… Festina (que se deslocava, como de costume, com bastante tempo de avanço sobre o pelotão, para a zona de meta)! Em francês nos entendemos, e saímos no centro de Portalegre, do autocarro da Festina. Inesquecível. Até para os adeptos, eram mesmo outras Voltas! Foi há pouco tempo…
Luís Gonçalves