A Volta ao Algarve vista pelos directores-desportivos portugueses

Estrelas internacionais pôem pelotão luso em sentido
Estrelas internacionais pôem pelotão luso em sentido

O percurso da 35ª Volta ao Algarve, na estrada de 18 a 22 de Fevereiro, agrada à generalidade dos directores-desportivos portugueses. Os técnicos reconhecem que a introdução da chegada de montanha, no Alto de Malhão, traz mais animação à corrida, fazendo com que a prova fique mais aberta e diversificada. Os responsáveis pelas equipas nacionais, ouvidos pelo Jornal Ciclismo, salientam a qualidade do pelotão, prevendo que será complicado aos corredores dos blocos lusos alcançarem a vitória.

Só o director-desportivo da Liberty Seguros, Américo Silva, assume que estará na luta pela vitória. “Temos a noção do valor das equipas que estarão presentes e total respeito pelos adversários, que são muitos e de qualidade. Mas isso não nos inibe de nos candidatarmos à vitória. Já no ano passado a participação estrangeira foi muito boa e nós demos luta. Com o plantel com que nos apresentaremos, somos ambiciosos”, diz Américo Silva, que acrescenta “dividir a responsabilidade” de chefe-de-fila entre dois ciclistas, Héctor Guerra e Rubén Plaza.

O director-desportivo da Madeinox-Boavista, José Santos, não assume a conquista do primeiro lugar como objectivo declarado, mas dá a entender que a equipa está num bom momento e pronta para ocupar os lugares cimeiros. “Ficámos satisfeitos com a prestação na Prova de Abertura, pois permitiu-nos testar o momento de forma. Contamos com o Tiago Machado para um lugar entre os primeiros, sabemos que o Danail Petrov pode conseguir um bom resultado no Malhão e temos ainda o Santi Pérez que é um corredor completo. Vamos discutir a corrida, mas quando digo discutir a corrida, penso que um lugar entre os dez primeiros já é um excelente resultado, uma vez que estaremos a competir com o pelotão internacional e não com o pelotão português”, avalia o responsável boavisteiro.

O algarvio Vidal Fitas, da Palmeiras Resort-Prio-Tavira, reconhece que a equipa tem a vantagem de já ter adquirido quilómetros no Tour de San Luis, na Argentina, mas teme a concorrência internacional. “Vão estar cá equipas que já correram a Volta ao Qatar, o Tour Down Under e o Challenge de Maiorca”, recorda. “Esperamos poder colocar alguém no top-10, o que seria muito bom. Vencer uma etapa, com a concorrência que se espera, seria excelente”, acrescenta. Outro algarvio, Jorge Piedade, lamenta a perda, por doença, daquele que seria o chefe-de-fila do CC Loulé-Louletano-Aquashow, Pedro Romero. “Este será, provavelmente, o melhor pelotão do ano em Portugal. Perante isso não é fácil ter grandes objectivos. Mas não baixaremos os braços e lutaremos por um lugar entre os dez primeiros e por uma camisola secundária. A nossa aposta seria o Pedro Romero, mas ele adoeceu e agora o nosso homem mais bem colocado é o João Cabreira”, revela Piedade.

O técnico da Fercase-Paredes Rota dos Móveis, Mário Rocha, também coloca o acento tónico na qualidade dos forasteiros. “Os adeptos de ciclismo podem esperar uma Fercase-Paredes Rota dos Móveis bastante competitiva, ainda que consciente das dificuldades que nos serão criadas pela grande qualidade do pelotão. Vamos tentar ganhar uma etapa e uma classificação secundária”, promete Rocha. A ausência de Hugo Sabido, por opção técnica – “nossa e do corredor”, explicar o director-desportivo – faz de Constantino Zaballa a grande arma para a geral individual.

A Barbot-Siper vai estar condicionada, uma vez que alinhará apenas com sete corredores, depois de uma luxação no ombro direito ter colocado Vidal Celis fora de combate. “O Bruno Pires é o nosso corredor em melhores condições e é a nossa aposta para tentarmos um lugar entre os melhores”, anuncia o director-desportivo, Carlos Pereira.

Percurso (quase) consensual
A inexistência de dificuldades montanhosas foi motivo para algumas críticas à organização nas anteriores edições da Volta ao Algarve. A introdução da chegada ao Malhão em 2009 acabou por agradar a quase todos. “A chegada em alto é boa para o Bruno Pires”, congratula-se Carlos Pereira, que, todavia, aponta o favoritismo para outro lado: “A Liberty e o Tavira são as equipas portuguesas com mais hipóteses, mas, à semelhança de outros anos, os estrangeiros são os grandes candidatos”. Para reforço da primazia teórica dada aos forasteiros, o dirigente do bloco gaiense aponta a elevada extensão do contra-relógio, que “penaliza a Barbot-Siper e as outras equipas portugueses, por ter demasiados quilómetros [33,7 km] para esta altura da temporada”.

Jorge Piedade afirma que “as etapas estão muito bem escolhidas, havendo equilíbrio e coerência no traçado escolhido”. Mário Rocha afina pelo mesmo diapasão, destacando “o percurso mais equilibrado dos últimos anos”.

“A prova muda um bocado de figurino em 2009. Não é só a introdução da chegada em alto, mas também a sua colocação na corrida que deve ser pesada. A etapa do Malhão é dura e surge antes do contra-relógio. Se surgisse depois do ‘crono’, os contra-relogistas teriam vantagem, pois bastava-lhes gerir a vantagem. Como acontece o inverso, os voltistas são privilegiados”, analisa Vidal Fitas. O algarvio admite que o seu chefe-de-fila, David Blanco, “está bem, mas mesmo assim será difícil ganhar. Mesmo não sabendo o estado de forma de todos os participantes, Alberto Contador, Andreas Klöden, Stijn Devolder, Héctor Guerra e Rubén Plaza são homens sempre a ter em conta.

Américo Silva analisa a o percurso da corrida sob o prisma da preparação efectuada pela Liberty Seguros. “As informações disponíveis até Dezembro não indicavam a existência de uma chegada de montanha. Por isso, fizemos uma preparação estrita para o contra-relógio, partindo do princípio de que seria a única etapa decisiva. Só há duas semanas ou menos é que se teve a certeza de que, afinal, haveria uma tirada a terminar no Malhão”, lamenta. Apesar disso, a dureza do exercício individual é de molde a satisfazer a Liberty Seguros, cujos responsáveis contestaram abertamente a alteração do percurso, em 2008, por ter suavizado o contra-relógio. Com o percurso mais ondulado deste ano, Américo Silva aponta com facilidade um favorito: Sylvain Chavanel.

O director-desportivo da Madeinox-Boavista não poupa elogios ao percurso, considerando-o “bom, pois tem etapas para sprinters, tem o Malhão onde os corredores mais rápidos perdem tempo e tem um contra-relógio. Com esta configuração, o vencedor terá de ser obrigatoriamente alguém num excelente momento, porque quem não estiver bem pode brilhar na montanha e claudicar no contra-relógio.

Os escolhidos de cada equipa
Barbot-Siper: Bruno Pires, David Bernabéu, Hélder Oliveira, Carlos Pinho, Bruno Castanheira, António Amorim e Samuel Coelho

CC Loulé-Louletano-Aquashow: João Cabreira. Eladio Jiménez, Pedro Soeiro, Pedro Lopes, Hugo Vítor, César Quitério, Nuno Marta e Pablo de Pedro

Fercase-Paredes Rota dos Móveis: Constantino Zaballa, Vergílio Santos, Joaquim Andrade, Celestino Pinho, Bruno Barbosa, David Vaz, Miguel Ángel Candil e Rubén Calvo

Liberty Seguros: Héctor Guerra, Rubén Plaza, Manuel Cardoso, Filipe Cardoso, Isidro Nozal, Carlos Nozal, Rui Sousa e Hernâni Broco

Madeinox-Boavista:
Tiago Machado, Santiago Pérez, Danail Petrov, Joaquim Sampaio, Bruno Lima, Sérgio Sousa, Nelson Rocha e João Benta

Palmeiras Resort-Prio-Tavira: David Blanco, Cândido Barbosa, Martín Garrido, Nelson Vitorino, Krasimir Vasilev, Alejandro Marque, Samuel Caldeira e Luís Silva