Hugo Sabido: “Optarei pela equipa que me der melhores condições”

Hugo Sabido é um dos actuais três emigrantes do ciclismo português. Ao começar a terceira temporada no estrangeiro ao serviço da Barloworld, Sabido confessa ao Jornal Ciclismo que sente falta de uma vitória – desde 2005 que não conhece o prazer de erguer os braços na meta – e revela estar bem encaminhada a hipótese de participar na Volta a França. Sobre o futuro, o ciclista admite o regresso a Portugal, desde que isso lhe seja financeiramente vantajoso. Sobre o doping e o clima vivido no pelotão internacional, Hugo Sabido defende a teoria de que a estratificação salarial provocada pelo advento do ProTour pressiona os profissionais menos bem pagos a recorrer à dopagem tentando obter resultados que os leve a ter remunerações mais elevadas.
À entrada para a terceira época na Barloworld, que balanço faz da sua integração no pelotão internacional?
Acima de tudo, adquiri muita experiência. A equipa é fantástica e todos os elementos ajudaram-me imenso. O balanço é muito positivo.
Valeu a pena arriscar o salto para o estrangeiro?
Sem dúvida. Não me arrependo de nada. Aliás, mesmo as opções que fiz quando escolhi as equipas em Portugal sempre estiveram de acordo com o rumo que defini para a minha carreira.
Ao integrar-se na Barloworld acabou por abdicar de ser um corredor mais vitorioso. Se tivesse continuado no nosso País poderia ter um palmarés mais preenchido de triunfos.
De ano para ano, quando estive em Portugal, evoluí. No meu último ano em Portugal optei pelo Paredes, quando poderia ter escolhido uma formação de outro nível. No entanto, foi uma escolha que me permitiu ter resultados e dar o salto para o estrangeiro.
Quais os principais objectivos para esta temporada?
Essencialmente quero conseguir alcançar uma vitória, que já me está a faltar há dois anos. É para isso que vou lutar, não esquecendo que também irei ajudar a equipa no que for necessário.
A nível de calendário, quais as corridas que já tem agendadas?
Depois da Volta ao Algarve vou correr o Giro del Capo, regresso a Portugal para a Volta ao Distrito de Santarém. Parto para a Bélgica, onde vou estar na Fleche Brabançone e no Tour de Flandres. Segue-se a Volta ao Alentejo. Irei competir nas clássicas ProTour: Amstel Gold Race, Fleche Wallone e Liège-Bastogne-Liège. Ainda participo na Subida a Naranco e na Volta às Astúrias, seguindo-se uma paragem, dado que não estou na equipa para o Giro de Itália.
Tem garantia de que participará na Volta a França?
Penso que estarei no Tour, porque na equipa está definido que os corredores que participam no Giro não vão ao Tour. É claro que tudo depende do momento de forma. Espero estar bem para, finalmente, poder ir à Volta a França.
O futuro passa por manter-se como um dos emigrantes do ciclismo português?
Os contratos que fiz com a Barloworld sempre foram anuais, por isso, no fim de 2008 acaba o meu presente contrato. Daí para a frente, tudo dependerá das condições que me forem oferecidas. Com a idade que tenho, 28 anos, começo a pensar também na parte monetária, algo que não sucedia há três anos. É claro que o calendário que me seja proporcionado é importante, mas já há em Portugal equipas com calendários apelativos.
Está, portanto, entreaberta a porta para o regresso do Hugo Sabido ao pelotão português?
A partir deste momento, há sempre essa possibilidade. Optarei pela equipa que me der melhores condições.
Houve algo que o surpreendesse na experiência internacional?
Já esperava um ritmo elevado, um excelente nível competitivo e todas as dificuldades desportivas, porque, desde júnior, integro a selecção nacional. Já fazia competições de grande nível desde as camadas jovens.
Os desenvolvimentos mais recentes em torno de polémicas com a dopagem mudaram alguma coisa no ambiente dentro do pelotão mundial?
A grande mudança dos últimos anos reside nas condições oferecidas aos atletas, porque os salários baixaram substancialmente. Tudo começou quando acabaram com as divisões e criaram o ProTour. Isso deu uma evolução negativa ao ciclismo. Actualmente, a única solução é voltar ao passado. Também em termos de doping, a situação anterior era mais controlada, embora se diga que agora há mais controlos. Os ciclistas antes não tinham necessidade de recorrer a isso, porque eram pagos pelo seu próprio valor. Actualmente é diferente.
Está a dizer que os corredores são pressionados para recorrer ao doping para valorizar os contratos, tendo em conta que os valores praticados baixaram muito?
Sim. É isso que acontece.

Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 7 de Março de 2008