Ricardo Martins: “Aprendi mais em alguns meses em Itália do que em anos em Portugal”

O azar bateu à porta de Ricardo Martins no início da sua aventura internacional. Uma tendinite em ambas as pernas deitou a perder todo o trabalho de pré-temporada e atrasou a boa forma do campeão nacional de contra-relógio. Nada que desamine o natural de Cascais, perfeitamente integrado na nova equipa e entusiasmado com a possibilidade de estar a dar as primeiras pedaladas numa carreira que o leve às melhores corridas do Mundo, como a Volta a França e a Volta a Itália, metas de futuro do ciclista português.
Como está a decorrer a adaptação ao ciclismo internacional?
Estive parado um mês por causa de uma tendinite nas duas pernas. Comecei a treinar há quatro ou cinco semanas [a entrevista decorreu em meados de Março]. A Volta ao Distrito de Santarém é o primeiro prémio que faço este ano, servindo de preparação para corridas que farei em Espanha, como a Bicicleta Basca e a Volta às Astúrias.
Essa lesão veio em má altura. A Volta a Santarém encaixava nas suas características.
É verdade. Era uma competição que estava nos meus planos. Infelizmente, o mês parado arruinou a preparação. O trabalho de Inverno foi todo perdido, tive de voltar atrás. Cheguei a Santarém sem ritmo.
Terá outras oportunidades para se mostrar em Portugal este ano?
Venho ao GP CTT e à Volta a Portugal. Pelo meio vou fazer muitas clássicas em França. Irei à Volta à Suíça, à Semana Lombarda… Tenho um calendário bastante extenso.
Que objectivos tem para 2008?
Gostava de ir ao Campeonato do Mundo no meu melhor. No ano passado estive no mundial, mas em condições deficitárias. Estava com uma costela deslocada devido à queda na pista da Malveira. Um objectivo para 2008 é chegar bem ao Campeonato do Mundo de Contra-relógio. Também quero estar em boas condições na Volta a Portugal. Em Itália tenho em mente fazer dois prémios em bom nível. Há lá algumas corridas com contra-relógio e poderei jogar as minhas armas aí.
Como tem sido a adaptação à nova equipa?
Foi facílima. O ambiente é extraordinário, porque as pessoas também o são.
Já fala italiano?
Que remédio! Alguns falam espanhol, mas se não falarmos italiano torna-se tudo muito complicado.
Encontrou muitas diferenças entre o ciclismo português e o italiano?
Sim. Já aprendi mais em poucos meses em Itália do que em vários anos no nosso País.
Como é a sua rotina de treinos. Continua a viver e a treinar em Portugal?
Ando cá e lá. Se tiver prémios com três dias de diferença não venho a casa, fico lá. Tenho um apartamento em Itália, fornecido pela equipa, pelo que estou tranquilo.
Esta experiência no estrangeiro é uma porta de entrada para uma carreira internacional?
É esse o meu objectivo. O meu sonho é chegar a uma equipa que me permita ir ao Giro e ao Tour.
No seio desta equipa qual a ambição, tendo em conta que a Ceramica Flaminia-Bossini Docce não foi convidada para a Volta a Itália?
Isso foi um retrocesso grande. Estava tudo coordenado para ir à Volta a Itália, ao Tirreno-Adriático e ao Milão-Sanremo. Mas em Itália a política conta muito. Aqui temos equipas e os conjuntos nacionais têm a garantia de que participam nas principais corridas. Em Itália é diferente, há muito dinheiro envolvido. Foram convidadas para o Giro três equipas com nível muito inferior ao nosso.
Como se justifica a existência de um projecto que não consegue ir à principal corrida do seu país?
Dentro do nosso grupo de trabalho estamos tranquilos. O patrocinador teve uma reunião connosco e garantiu-nos que não teríamos nada a temer, porque as coisas não mudariam apesar deste revés.

Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 4 de Abril de 2008