Rubén Plaza: “Vibrei com a alegria do Orlando e do Justino”

No hall do hotel escuta-se, vindo do restaurante, um grupo de vozes a cantar em inglês o tradicional “Parabéns a Você”. De seguida, cantam também em francês e há-de chegar a vez do basco, do castelhano e do português. A estrela do momento é Rubén Plaza, líder da Volta à Comunidade Valenciana, mas o coro de cantores – musicalmente muito frouxos, há que dizê-lo – não é formado apenas por ciclistas do Benfica, mas também por corredores da Slipstream e da Cofidis. As três equipas estão alojadas no mesmo hotel e depois da cena rendem o seu particular tributo ao camisola amarela, um ciclista que nesse dia cumpria 28 anos e que nesta altura, já se sabe, venceu a corrida da sua região.
O alicantino sai minutos mais tarde do restaurante do hotel para conversar placidamente sobre a Volta à Comunidade Valenciana, mas também sobre outras questões, especialmente sobre como está a correr a sua adaptação ao ciclismo português. A entrevista é acabada já depois do seu triunfo final, em Valência, mas a maior parte das reflexões de Plaza são dadas a conhecer antes de confirmar a vitória.
Como sub-23 e profissional só militaste en duas equipas: Banesto (ou Caisse d’Epargne) e Kelme (ou Comunitat Valenciana). Como te sentes no Benfica?
Não sou dado a ir mudando de equipa. Dos 18 aos 28 anos estive apenas em duas estruturas, a de Unzue e a de Belda. Mas no Benfica sinto-me muito bem desde o primeiro dia. Para mim foi importante o que ocorreu numa das concentrações da equipa.
A que te referes?
O dia de aniversário do manager, Justino Curto. Convidou os ciclistas e os seus amigos para comer. Prepararam um porco assado e viveu-se um dia harmonioso. Então compreendi que no Benfica ia sentir-me bem, porque sou uma pessoa que pode parecer tímida e reservada, mas que agradece esse tratamento humano e familiar.
O que mais te surpreendeu no Benfica?
Somos apenas 16 ciclistas e eu estava habituado a plantéis muito mais amplos, nos quais há corredores com quem coincides poucas vezes por ano. Aqui não sucede isso, mas o que mais me surpreendeu foi o nível que se encontra na estrada. Ao [José] Azevedo e ao [Cândido] Barbosa todos conhecemos, mas há que realçar o grupo humano criado pelo Orlando Rodrigues e pelo Justino Curto: mecânicos, massagistas e todo o pessoal de apoio. Somo 16 ciclistas, mas temos meios técnicos (bicicletas, autocarros…) e, sobretudo, recursos humanos que não devem nada aos do ProTour.
Olhando para a vertente desportiva, esperavas vencer tão cedo?
Se aprendi algo foi a não fazer planos, aproveitar um dia de cada vez e não pensar no amanhã. O melhor exemplo é o que ocorreu esta temporada: contava ter uma grande actuação na Volta ao Algarve, até ganhá-la, mas afinal ganhei a Volta à Comunidade Valenciana, uma corrida que, em princípio, nem sequer sabia se iria correr. Para que serve fazer planos?
Mas o Orlando Rodrigues havia dito que o Rubén Plaza não começaria muito forte. Fez bluff?
(Plaza sorri antes de responder). Não, não… O que se passa é que fui operado a um joelho neste Inverno e, à partida, não conseguiria estar em forma em Fevereiro. No entanto, a recuperação foi muitíssimo melhor do que pensávamos e, além do mais, tenho alguma facilidade de ganhar a forma, pelo que já fomos para o Algarve pensando em disputar o contra-relógio e em ganhar a geral. Teria sido muito bonito, mas não aconteceu. Segui do Algarve para a volta à minha terra sabendo que estava boa forma, porque as minhas sensações eram muito boas, mas achava que sem um contra-relógio seria muito difícil ganhar. Afinal, encontrei-me com a vitória.
Na etapa de Ibi, a tua terra, houve uma confusão com o grupo do líder. Os fugitivos foram pela estrada correcta e os perseguidores por uma via paralela. Foi determinante?
Nesse dia passaram-se muitas coisas antes e depois desse cruzamento e não gostava que fossem esquecidas. Antes houve uma montanha de dez quilómetros em que havia bonificações. Ataquei duas vezes e acabei vendo-me isolado e bonificado. Passámos com pouco mais de seis segundos sobre o pelotão e no momento da confusão no cruzamento tínhamo 20. Além disso, nós e eles percorremos a mesma distância, mas nós tivemos de subir duas encostas muito duras que não existiam na auto-estrada. Por outro lado, cortámos a meta com 21 segundos de avanço quando o mais lógico era terem-nos alcançado e até ultrapassado. Por tudo isto não gostaria que só se falasse no engano de caminho. Eles podem pensar que nos apanhariam com facilidade e eu penso o contrário. O que me fica é a sensação de ganhar na minha terra ante a minha gente. Foi um dia inesquecível, daqueles com que sempre sonhei. O resto já esqueci.
E o que pensas que representa esta vitória para o Benfica?
Essa é outra diferença entre estar no Benfica ou numa equipa ProToir. Na Caisse d’Epargne, que ganhou o Tour mais de meia dezena de vezes, vences a Volta à Comunidade Valenciana e há alegria mas nunca euforia. É normal e compreensível. No Benfica vive-se de outra maneira. Vibrei com a alegria do Orlando e do Justino. Vês a importância que eles dão à vitória e isso faz-me mais feliz a mim. Além do mais, há 29 anos que um valenciano não ganhava esta volta.
E este ano tiveram de pedir autorização para havia excesso de equipas ProTour que podiam convidar. Participaram 10 ProTour e sete não ProTour.
Sim, o nível era altíssimo. Portanto, foi uma maneira de mostrar-me a mim mas também para mostrar a qualidade da equipa do Benfica. Na geral colectiva, ficámos em terceiro. E a minha vitória não foi um triunfo individual: os companheiros ajudaram-me de princípio ao fim. Deixámos um grande cartão de visita internacionalmente, espero que nos sirva para que nos convidem para a Volta a Espanha.
Quais os teus próximos objectivos?
Não sei. Tenho várias opções: Santarém, Castela e Leão e Alentejo. Em todas há contra-relógio e suponho que nos próximos dias falarei com o Orlando Rodrigues e decidiremos. Ele dá-me total liberdade de decidir o calendário, mas faz valer as suas ideias. E fá-lo tão racionalmente que não há discussão possível. Assim, irei onde disser o Orlando Rodrigues.
E qual o objectivo para 2008?
Tinha dois. O primeiro era ganhar uma volta no princípio da temporada. E, do meu ponto de vista, vencemos a melhor de todas: a da minha terra. O outro objectivo, logicamente, tem de ser a Volta a Portugal.
E a Volta a Espanha?
Quando assinei pelo Benfica fi-lo com todas as consequências e assumindo que para a equipa a Volta a Portugal é prioritária até sobre a Volta a Espanha. Outra coisa é que adoraria correr a Volta a Espanha, mas assumo que o objectivo é a Volta a Portugal.
Nessa corrida coincides com Cândido Barbosa e com José Azevedo. Três líderes são de mais?
Não haverá problemas. Nas equipas nunca se discute por excesso de qualidade. Discute-se por falta de inteligência. Podes ter três bons ciclistas ou até nove corredores muito bons que podem ganhar a mesma prova. É igual. O importante, quando as coisas correrem bem ou quando surgir algum problema não é que sejam bons ou maus, mas que sejam inteligentes ou tontos, generosos ou egoístas. Com Azevedo e com Barbosa de certeza não haverá problemas. Azevedo é um cavalheiro do ciclismo e a Barbosa conheço desde a Banesto e sempre fomos amigos, pelo que não haverá atrito entre nós.

Trabalho de Jorge Quintana, publicado em 7 de Março de 2008