Irá Boonen igualar Vlaeminck?

A alcunha surgiu pouco depois da II Guerra Mundial e nunca mais descolou da clássica Paris – Roubaix. Inicialmente, “Inferno do Norte” referia-se à passagem do pelotão por zonas do Norte de França devastadas pelo conflito bélico. A extrema dureza da prova fez com que “Inferno do Norte” passasse a designar as dificuldades daquela que é A clássica do “pavé” por excelência. A 108ª edição, que se disputa no dia 11 de Abril, conta com 27 sectores de empedrado, num total de 52,9 quilómetros de piso irregular. Entre os participantes estará um português, Rui Costa (Caisse D’Epargne), e dois homens que procuram igualar recordes. Tom Boonen (Quick Step) aspira a emparelhar com Roger de Vlaeminck como o mais vitorioso nesta competição. Servais Knaven (MIlram) parte em busca de ser o segundo ciclista da história a concluir 16 edições do Paris – Roubaix.

José Carlos Gomes

Em Compiègne, local de partida da clássica desde 1977, todos os sonhos são permitidos. A sua concretização está dependente dos 259 quilómetros que levarão os mais resistentes até ao Velódromo de Roubaix. A condição física é essencial para o sucesso, mas sem sorte nada se consegue numa corrida em que as quedas e os furos se sucedem com elevada frequência.

Os troços de empedrado intimidam pela extensão, mas também pelo seu estado de conservação – ou falta dela, para sermos mais exactos. Não há no pelotão quem não estremeça ao pensar nos 2400 metros de “pavé” em pleno bosque de Arenberg, de tal modo que esse pedaço de estrada e Paris – Roubaix são sinónimos. Nem todos saberão é que Arenberg só surgiu no traçado em 1968. Perante a melhoria de grande parte das estradas por onde circulava a clássica, a organização teve de colocar pés ao caminho e encontrar novas dificuldades. Na primeira vez que Arenberg integrou o percurso, o vencedor da corrida foi Eddy Merckx.

De então para cá o estatuto da clássica consolidou-se. De tal modo que, para desgraça da maioria do pelotão, há zonas de empedrado classificadas como património. Foi a forma encontrada de não haver restauro dos caminhos, mantendo a dureza para os ciclistas e o espectáculo, com o seu quê de sádico, para os espectadores.

Quando, no próximo domingo, os corredores chegarem ao temido bosque já terão nas pernas 164 quilómetros e já terão ultrapassado dez dos 27 sectores de empedrado.  Arenberg é, contudo, o primeiro dos três troços classificados como de cinco estrelas, ou seja, de máxima dificuldade. Os outros são Mons-en-Pévèle (km 210,5 – 3000 m) e Le Carrefour de l’Arbre (km 242 – 2100 m), talvez o segundo mais carismático pedaço de empedrado da corrida e aquele que, pela localização, poderá ser palco dos ataques decisivos.

Boonen e Cancellara favoritos
Os desempenhos da semana passada, na Volta a Flandres, mostram que há dois corredores que estão num momento de forma bastante superior ao dos demais. Fabian Cancellara (Saxo Bank) está galvanizado pela vitória no terreno do adversário e não enjeitará a oportunidade de repetir o êxito que alcançou em Roubaix, há quatro anos. O belga Tom Boonen, por seu lado, quer vingar a desfeita da semana transacta e surge motivado pela possibilidade de igualar o compatriota Roger de Vlaeminck, até agora o único com quatro vitórias em Roubaix (1972, 1974, 1975 e 1977). O actual campeão belga recebeu o paralelepípedo da glória em 2005, 2008 e 2009.

Juan Antonio Flecha (Sky), Thor Hushovd (Cervélo), George Hincapie (BMC), Leif Hoste (Omega Pharma-Lotto), Bernhard Eisel (Team HTC-Columbia), Matti Breschel (Saxo Bank), Stijn Devolder (Quick Step) e Lars Boom (Rabobank) são outros homens no topo dos prognósticos.

Além de Boonen e de Cancellara, deverão estar na linha de partida mais três antigos vencedores do Paris-Roubaix, Stuart O’Grady (Saco Bank), Frédéric Guesdon (Française des Jeux) e Servais Knaven (Milram). O holandês da Milram quer fazer um bom resultado, mas o simples facto de chegar ao fim já será uma vitória, pois permitir-lhe-ia igualar o belga Raymond Impanis, até ao momento o único homem a cumprir 16 edições da clássica.

Rui Costa… e seis juniores
À semelhança do sucedido em 2009, Rui Costa será o único luso do pelotão. No ano passado, o poveiro terminou a prova no 58º lugar, a 12m12s do vencedor. De acordo com o estudo apresentado por José Magalhães Castela em “Corredores Portugueses nas Grandes Provas de Ciclismo Internacional”, esta foi a segunda melhor classificação nacional, entre os três lusos que alguma vez chegaram ao fim. Acácio da Silva foi 27º em 1983, mas ficou mais longe – 23m41s – do então vencedor, Hennie Kuiper, do que Costa de Tom Boonen.

O primeiro português a experimentar a dureza do “Inferno do Norte” foi Alves Barbosa, 98º classificado em 1957. “Na minha primeira participação, preparámos cuidadosamente a prova, treinando o percurso em ‘pavé’ na quinta-feira anterior à corrida. Chegámos inclusivamente ao ponto de forrar o guiador com espuma para amortecer as trepidações, e até pensámos em utilizar uma roda de aro de madeira à frente, isto porque a madeira é mais flexível do que o alumínio”, contou Barbosa a José Castela.

Se entre a elite apenas Rui Costa vai representar Portugal, o Paris – Roubaix Júnior conta com a Selecção Nacional/Liberty Seguros, servida por seis ciclistas: Leonel Coutinho e Flávio Cipriano (ASC/Vila do Conde), Rafael Reis (Crédito Agrícola/Alcobaça), Gonçalo Rodrigues (ACD MIlharado/Intermarché/Mafra), Ricardo Ferreira (Silva & Vinha/ADRAP) e Samuel Magalhães (Vulcal/Inplenitus/CC Centro). A prova também se disputa no próximo domingo, tendo uma extensão de 122 quilómetros, dos quais 29 serão em empedrado, correspondendo aos 16 últimos sectores a serem ultrapassados pelos profissionais.

Homenagem a Ballerini
O italiano Franco Ballerini, tragicamente falecido em Fevereiro, num acidente enquanto participava num rali automóvel, vai ser recordado pela edição deste ano do Paris – Roubaix, que atribuirá um troféu ao primeiro italiano a cortar a meta, independentemente da sua posição na geral. Como técnico, Ballerini destacou-se enquanto seleccionador italiano, cargo que ocupava na altura em que morreu. Como corredor tem um passado de referência nas clássicas. Venceu duas vezes o Paris – Roubaix (1995 e 1998) e entrou para o anedotário da corrida em 1993. Nesse ano, entrou na frente no Velódromo de Roubaix, mas esqueceu-se que Gilbert Duclos-Lassalle não estava longe. Quando olhou para trás e viu o francês pouco havia a fazer, pois o homem da casa já vinha embalado para o sprint. Ballerini ainda reagiu, em cima da meta, mas o photo-finish deu o triunfo ao adversário.

Sectores de empedrado – 52,9 km
27. Troisvilles (km 97,5 – 2200 m) +++
26. Viesly (km 104 – 1800 m) +++
25. Quievy (km 107 – 3700 m) ++++
24. Saint-Python (km 111,5 – 1500 m) ++
23. Vertain (km 119,5 – 2300 m) +++
22. Capelle-sur-Ecaillon – Le Buat (km 126 – 1700 m) +++
21. Verchain-Maugré – Quérénaing (km 138 – 1600 m) +++
20. Querenaing – Maing (km 141,5 – 2500 m) +++
19. Monchaux-sur-Ecaillon (km 144,5 – 1600 m)  +++
18. Haveluy (km 156 – 2500 m) ++++
17. Trouée d’Arenberg (km 164 – 2400 m) +++++
16. Hornaing – Wandignies (km 176,5 – 3700 m) +++
15. Warlaing – Brillon (km 184 – 2400 m) +++
14. Tilloy – Sars-et-Rosières (187,5 – 2400 m) +++
13. Beuvry-la-Forêt à Orchies (km 193,5 – 1400m) +++
12. Orchies (km 198,5 – 1700 m) +++
11. Auchy-lez-Orchies – Bersée (km 205 – 2600 m) +++
10. Mons-en-Pévèle (km 210,5 – 3000 m) +++++
9. Mérignies – Pont-à-Marcq (km 216,5 – 700 m) ++
8. Pont-Thibaut (km 219,5 – 1400 m) +++
7. Templeuve l’Epinette (km 225 – 200 m) +
Le Moulin de Vertain (km 225,5 – 500 m) ++
6. Cysoing – Bourghelles (km 232 – 1300 m) ++++
Bourghelles – Wannehain (km 234,5 – 1100 m) ++++
5. Camphin-en-Pévèle (km 239 – 1800 m) ++++
4. Le Carrefour de l’Arbre (km 242 – 2100 m) +++++
3. Gruson (km 244 – 1100 m) ++
2. Hem (km 251 – 1400 m) +
1. Roubaix (km 258 – 300 m) +

Fotos: ASO

5 thoughts on “Irá Boonen igualar Vlaeminck?”

  1. Só nao acerto no euromilhoes… Vitória Incontestavél de uma dos melhores ciclistas do mundo.

  2. No ano passado Boonen foi fortemente bafejado pela sorte. Para quem não viu ou não se lembra ele seguia num grupo com Hushovd, Flecha, Pozzato e mais alguns corredores. Em carrefour de l’arbre houve duas quedas separadas por algumas centenas de metros e Bonnen foi quem se safou melhor e benficiou claramente da situação. Este ano estará com Cancellara à perna e este se estiver numa condição semelhante à semana passada como esteve no Tour de Flandres certamente não deixará escapar a vitória em Roubaix.

    Virgem: Esse sprint não vai acontecer. Palpita-me que Cancellara atacará já depois do Gruson mas fora do pavé.

    O espectáculo está quase a começar…

    Creio ser a 1º vez que comento aqui neste espaço apesar de ultimamente vir cá constantemente ver noticias. Se foi o sr. José Carlos Gomes o autor de todo o artigo gostava de lhe dar os parabéns pois está excelente. Senão foi temos pena…

  3. Boonen se não tiver azares não vai deixas escapar esta, vai-se colar ao Cancellara e sprintar no estádio como no ano passado.

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