O que esperar das três grandes voltas em 2009

O início de um novo ano é a altura ideal para perspectivar aquilo que a nova época velocipédica tem para nos oferecer. Nesse aspecto, nada melhor do que olharmos para o traçado das três grandes voltas – Giro, Tour e Vuelta -, comparando as opções de cada uma das entidades organizadoras e prevendo os potenciais efeitos que essas escolhas poderão ter no desenrolar das competições. É esse o exercício que o Jornal Ciclismo lhe apresenta para que possa ir sonhando com os grandes duelos de que as estradas europeias serão testemunhas a partir de 9 de Maio, data de arranque da Volta a Itália, aquela que, de acordo com a nossa análise, se apresenta como a mais opulenta das três principais corridas por etapas do globo.

No ano em que comemora os 100 anos desde a fundação, embora a edição a disputar seja apenas a 92ª, devido às interrupções por motivos bélicos, a Volta a itália apresenta-se sob o signo do faustoso. Os nomes de participantes anunciados – Lance Armstrong, Carlos Sastre, Ivan Basso, Denis Menchov, Damiano Cunego, Danilo di Luca, Thor Hushovd, Alessandro Petacchi e Mark Cavendish – apontam para um dos melhores pelotões de sempre. O trabalho de imagem e divulgação está ao nível dos eventos mais mediatizados do mundo, através da junção da marca Giro a outras marcas de prestígio, como é o caso da Dolce & Gabbana (criadores da camisola rosa do centenário) e da Cervélo (desenhou a bicicleta do Giro do centenário). Com todo este envolvimento flamejante de mediatismo, só falta mesmo que a corrida seja grandiosa. O percurso para isso aponta.

Numa comparação de vários itens entre as três grandes corridas internacionais, constata-se que a Volta a Itália 2009 ganha em todos esses aspectos. Será a volta com mais chegadas em alto – embora em igualdade com a Vuelta, ambas com 5 -, vai ser a corrida com o maior contra-relógio individual (61,7 km), aquela em que mais quilómetros se somarão de luta em solitário e também em equipa contra o tempo, é ainda a prova com maior quilometragem total e a volta com mais etapas a contabilizarem 200 ou mais quilómetros. Se tudo isto será suficiente para transformar o Giro de 2009 na melhor das três competições primordiais do ciclismo só a estrada o dirá, até porque interessa ver em que condição se apresentarão alguns dos grandes ciclistas que alinharão à partida. Se é certo que os italianos irão correr para ganhar, não é líquido que as estrelas internacionais não estejam apenas a pensar na soma de quilómetros com vista ao grande objectivo que o calendário coloca a seguir… a Volta a França.

O estatuto de maior corrida do mundo está em posse do Tour e nem os sucessivos escândalos de dopagem têm conseguido abalar esse título informal a que ninguém fica indiferente. Muitas vezes acusada de potenciar o recurso a métodos fraudulentos, devido à excessiva dureza das etapas, a organização da Volta a França de 2009, na estrada de 4 a 26 de Julho, resolveu inovar nesse aspecto. Assim, as chegadas em alto serão apenas três e as etapas com 200 ou mais quilómetros resumem-se a quatro (metade do Giro). Mas esta alteração corre o risco de ser apenas cosmética, dado que as características essenciais da corrida irão manter-se. Mesmo com apenas três chegadas em altitude, somar-se-ão outras tiradas repletas de dureza. Se as ligações que atingem os 200 quilómetros são só quatro, devemos acrescentar-lhes seis cuja quilometragem se situa entre os 190 e os 200. Ou seja, há montanha e há etapas longas e desgastantes no cardápio. E que mais haverá?

Desde logo importa destacar uma grande inovação que diz respeito aos contra-relógios. Tradicionalmente o Tour decidia-se na luta do homem contra o tempo, num “crono” colocado na penúltima etapa. Em 2009 isso não irá suceder. O último contra-relógio, de 40 quilómetros, disputa-se a três etapas do final. O que decidirá o vencedor será a chegada ao Mont Ventoux, na véspera da consagração nos Campos Elíseos. No fundo, a organização inova na forma, tentando mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Merece ainda realce o regresso do prólogo, em 2009 mais extenso do que é hábito (15 quilómetros), e do contra-relógio por equipas, 38 quilómetros ao quarto dia de prova.

Se o Tour tem sabido preservar a aura de melhor corrida do mundo, mesmo fustigado pelas mais variadas vicissitudes, a Volta a Espanha tem vindo a perder peso externo e interno, sendo claramente, das três grandes, aquela que menos entusiasmo gera nos adeptos, provocando tantas vezes a desolação de quem vê os corredores a acercarem-se da meta perante ruas desertas de público. A 64ª edição da corrida espanhola, agendada para o período de 29 de Agosto a 20 de Setembro, quer mudar o clima de desinteresse e, para isso, aposta na inovação.

Para ganhar “mercado” exterior, a Vuelta parte de fora de Espanha pela segunda vez na história da corrida, pois a primeira foi em 1997, quando arrancou de Lisboa, numa etapa com final no autódromo do Estoril. Em 2009 será também numa pista de altas velocidades que a prova começa, desta feita no circuito de motociclismo de Assen, Holanda, onde se disputará um curto contra-relógio de 4,5 quilómetros. Seguem-se mais três tiradas fora da Península Ibérica. Serão três dias propícios para um tipo de corredores que, cada vez mais, marca presença nas semanas iniciais da Volta a Espanha: os ciclistas que visam a preparação dos mundiais.

A primeira jornada de descanso surge ao quinto dia e, a partir de então, é altura de seduzir o público interno. Sabendo que o traçado de uma prova de ciclismo funciona como o guião de uma telenovela, sendo a base para que toda a trama se desenrole, captando a atenção do público. Por isso, nada melhor do que criar um guião novo para eliminar os potenciais focos de rotina, causadores de cansaço dos adeptos e, por arrasto, das audiências e dos patrocinadores. E é assim que a organização da Vuelta conseguiu criar um percurso bem durinho sem recorrer às subidas mil vezes vistas dos Pirenéus e das Astúrias. As chegadas em alto serão cinco, o que prova a imensa versatilidade do território espanhol para a promoção do ciclismo. Não haverá contra-relógio colectivo e os individuais, incluindo o prólogo, somam 60,5 quilómetros, menos do que um simples “crono” do Giro. Acresce que as etapas com 200 ou mais quilómetros são apenas três, pelo que se trata de uma edição mesmo ao jeito dos trepadores mais puros.

Ficha Técnica

Giro
Data: 9 a 31 de Maio
Edição: 92ª
Quilometragem total: 3495,5 km
Chegadas em alto: 5
Contra-relógios individuais: 61,7 km + 15,3 km
Contra-relógio colectivo: 20,5 km
Etapas com 200 ou mais quilómetros: 8 (44% das etapas em linha)

Tour
Data: 4 a 26 de Julho
Edição: 96ª
Quilometragem total: 3445 km
Chegadas em alto: 3
Contra-relógios individuais: 15 km + 40 km
Contra-relógio colectivo: 38 km
Etapas com 200 ou mais quilómetros: 4 (22% das etapas em linha)

Vuelta
Data: 29 de Agosto a 20 de Setembro
Edição: 64ª
Quilometragem total: 3266,5 km
Chegadas em alto: 5
Contra-relógios individuais: 4,5 km + 30 km + 15,3 km
Contra-relógio colectivo: 0
Etapas com 200 ou mais quilómetros: 3 (17% das etapas em linha)

Fotos: Unipublic