Opinião: A Milram e a contradição do ciclismo

Adriano Baffi, um humanista de bicicleta
Adriano Baffi, um humanista de bicicleta

Há alguns anos – creio que foi em 1995 – fiz uma entrevista a Adriano Baffi que me marcou positivamente. O cotado “sprinter”, que infelizmente ficou mais conhecido por ter provocado uma queda tremenda ao então companheiro de equipa Cipollini numa chegada, estava em final de carreira e veio à Volta a Portugal.

Com a tranquilidade que só os anos dão e respaldado por um palmarés respeitável, Baffi mostrou-me um lado filosófico que vi em muito poucos ciclistas e atrevo-me mesmo a dizer em, muito poucos desportistas profissionais. Talvez à excepção de Pedro Horrillo, mas isso é outra conversa.

Disse-me na altura o italiano, traduzindo em palavras aquilo que certamente muitos pensam mas temem ou não conseguem expressar, que o ciclista é um grande humanista. E porquê? Porque além dos valores ecológicos facilmente associáveis à bicicleta, é alguém com enorme espírito de sacrífício e isso ensina a dar valor às coisas que realmente importam.

Neste ponto é legítimo perguntarem-se se não seria o facto de já ter uma conta bancária bem recheada que lhe permitia ter esta atitude relaxada e contemplativa. Talvez sim, mas prefiro acreditar que há características positivas que nascem e se desenvolvem com as pessoas, independentemente das condições materiais.

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Vem esta recordação do Adriano Baffi a propósito da recente notícia de que a Milram vai usar bidões biodegradáveis de forma a contribuir para a preservação ambiental. Numa perspectiva de golpe publicitário, não podia vir mais a propósito, tendo coincidido praticamente com a badalada cimeira de Copenhaga, onde se discutem emissões de gases em vez de se pensar como encher os estômagos dos milhões que morrem de fome por esse planeta fora…

Caso não se tenha tratado de um mero golpe publicitário, penso que a Milram resolveu aquele que, para mim, sempre foi um dos grandes enigmas do ciclismo e, ao mesmo tempo, provavelmente a sua maior contradição: como pode o ciclismo representar os valores da ecologia e o ciclista ser um profundo humanista, logo amigo do ambiente, se cada temporada de corridas significa deixarem-se centenas, milhares, milhões de bidões de plástico pelas bermas das estradas, por montes e vales, alguns dos quais quase imaculados pela privilegiada localização, em altitude ou em zonas de difícil acesso?

É evidente que há também o aspecto dos gases de escape, de carros de apoio, veículos das caravanas publicitárias ou motas que acompanham as corridas, mas é melhor deixar isso para depois… Para já, parece-me que esta atitude da Milram, além de excelente promoção para a equipa, está a dar razão a Adriano Baffi e às suas palavras sábias de há mais de uma década: o ciclismo e os ciclistas são profundos humanistas.

João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.

4 thoughts on “Opinião: A Milram e a contradição do ciclismo”

  1. na minha opiniao os ciclistas deviam ter mais cuidado para onde atiram os bidons lembrem-se o ano passado na volta a portugal daquela história do danilo hondo que atirou um bidon contra um portugues…

    fizeram muito bem em penaliza-lo com 1.000 euros.

  2. penalizado em minutos???Quantos jovens e homens vao muitas das vezes à estrada à espera de receberem um bidon como recordação???

  3. Outro produto que devia ser biodegradável são as seringas utilizadas 🙂

    Acho que as organizações das grandes voltas em vez de andarem a inventar com o uso (ou não) dos rádios e coisas do género deveriam era criar a regra de que os bidões vazios teriam que ser entregues em mão a alguém, quer fosse no carro de apoio ou a espectadores, não podiam era deitar fora, sendo o “atirador” penalizado em minutos.

    Parabéns pelo artigo, deves ter sido inspirado pelo empeno de domingo 🙂

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