O Ministério Público (MP) da Póvoa de Varzim recorreu para o Tribunal da Relação do Porto da absolvição de Manuel Zeferino e Marcos Maynar, decretada, no dia 2 de Julho, pelo tribunal daquele concelho nortenho. O MP discorda das conclusões do colectivo de juízes que julgou em primeira instância e pede a condenação dos antigos director-desportivo e médico da LA-MSS pelos 16 crimes de dopagem e manipulação de substâncias alimentares e medicinais de que ambos foram absolvidos.
No recurso, citado pelo Diário de Notícias, o procurador do Ministério Público contesta a não valoração da entrega por Marcos Maynar de um saco com centenas de produtos dopantes ao corredor Pedro Cardoso. O MP chega a afirmar que, pelo lógica que presidiu à decisão do tribunal poveiro, qualquer dia pode-se “substituir os julgadores por programas informáticos”, que apenas condenariam havendo testemunhas presenciais ou confissões de determinado crime.
“Um médico de uma equipa de ciclistas, em vez de guardar em sua casa ou no seu local de trabalho os produtos dopantes, viaja de Espanha para Portugal para deliberadamente pedir a um simples ciclista – que, por acaso, até era ciclista da equipa que ele acompanhava – que lhe guarde os produtos na sua residência? Mas alguém poderá conferir verosimilhança a uma tão esfarrapada versão dos factos?”, interroga o MP no recurso remetido à Relação do Porto.
O procurador do Ministério Público defende ainda que os ficheiros informáticos encontrados no computador pessoal de Marcos Maynar, contendo aquilo que o próprio disse em julgamento serem planos de dopagem, têm de ser considerados propriedade intelectual do próprio. O médico afirmou em tribunal que tais ficheiros foram-lhe entregues pelos corredores e que seriam do seu antecessor, que identificou como Jesús Losa. Só que quem precedeu Marcos Maynar no cargo foi o português Benjamim Carvalho e os ficheiros estavam redigidos em castelhano e alguns diziam respeito a ciclistas que apenas entraram na equipa no mesmo ano do que Marcos Maynar.
Já depois de absolvido deste caso, Manuel Zeferino envolveu-se noutro problema relacionado com os regulamentos de dopagem, faltando ao controlo após uma corrida de veteranos, realizada em Famalicão. Este novo caso está sob alçada das instâncias disciplinares desportivas.
Carlos Anjos, conselheiro e antigo presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária (ASFIC/PJ) comentou ontem o desfecho do julgamento de Manuel Zeferino e Marcos Maynar na coluna de opinião que, semanalmente, assina na edição impressa do Correio da Manhã.
Doping no ciclismo
O processo ‘Doping no ciclismo’ terminou com a absolvição dos arguidos. Como explicar que depois de se ter apreendido um grande número de produtos dopantes, de se ter apreendido material tecnológico para esse fim, de os ciclistas terem esses produtos em suas casas, de ao médico se ter apreendido documentos com o plano de tomas desses produtos por parte dos ciclistas e de nesse plano haver a indicação de que os atletas em determinados momentos tinham de se ausentar de casa para não serem alvo de controlos anti-doping de surpresa?
Tudo isto valeu zero. Por vezes fica-nos a sensação que estamos todos à espera que os arguidos confessem os seus eventuais crimes que tenham cometido. Ficámos pois a saber que aquele grupo de ciclistas resolveu de forma individual ou em conjunto recorrer à auto-medicamentação, e que ninguém naquela equipa achou estranho os resultados que passaram a obter. Arrisco-me a afirmar que esta decisão foi um péssimo sinal dado ao desporto em Portugal. Foi um sinal de que tudo vale a pena, um sinal claro de que a batota pode compensar. Ao contrário do que vemos todos os dias acontecer noutros países europeus, onde a justiça é implacável com estas práticas, países onde foram feitas as análises aos produtos apreendidos, em Portugal, parece que nada queremos fazer. É pena.
Fonte: Correio da Manhã (http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/opiniao/doping-no-ciclismo)
Manuel Zeferino e Marcos Maynar foram hoje absolvidos pelo Tribunal da Póvoa de Varzim da acusação de co-autoria de 16 crimes de administração de dopagem e de manipulação de substâncias alimentares e medicinais na extinta equipa LA-MSS, de que o primeiro era director-desportivo e o segundo médico. O tribunal não conseguiu estabelecer ligação entre os produtos e materiais apreendidos e a alegada prática de dopagem organizada. A haver culpabilidade, a responsabilidade terá sido dos corredores que, nesse caso, terão auto-administrado as substâncias e as práticas ilícitas, concluíram os juízes.
O acórdão, lido pela presidente do colectivo e única juíza presente, Elsa Paixão, considera a “acusação improcedente”, uma vez que não foi provado em tribunal que Manuel Zeferino e Marcos Maynar tenham acordado adoptar um plano de preparação e dopagem para cada corredor da equipa, não se provou que algum dos arguidos tenha fornecido substâncias dopantes aos ciclistas nem que o médico tenha prescrito substâncias ilícitas.
Sobre os ficheiros encontrados no computador de Marcos Maynar e que este admitiu serem planos de dopagem, que lhe foram entregues pelos corredores e que teriam sido elaborados pelo antecessor do médico na estrutura da equipa, o tribunal não conseguiu provar a origem dos documentos nem o seu teor, uma vez que estavam redigidos em código e em castelhano. Para justificar a língua castelhana, Maynar disse em tribunal que o antecessor na equipa era o espanhol Jesús Losa. No entanto, como apurou o Jornal Ciclismo, Marcos Maynar substituiu o português Benjamim Carvalho.
O tribunal considera que a extensa quantidade de medicamentos e manipulados encontrados em casa de alguns elementos da equipa e que fazem parte da lista de substâncias dopantes, por si só, não estabelece nexo de causalidade com a suposta culpabilidade de Manuel Zeferino e de Marcos Maynar. O tribunal admite que alguns dos produtos em causa pudessem ser usados por outras pessoas do agregado familiar dos corredores. Para aqueles que apenas servem como dopantes, o colectivo de juízes entende que, a terem sido usados, terá sido por “auto-administração” dos corredores. “Não se pode acreditar que os atletas desconheçam os malefícios causados ao organismo humano e o perigo para a vida”, provocados pelo consumo de algumas destas substâncias, observou o tribunal.
A respeito do saco contendo centenas de produtos proibidos e que foi encontrado em casa de Pedro Cardoso, o colectivo de juízes aceitou como boa a justificação dada pelo antigo corredor. Ou seja, que aquele material foi-lhe confiado pelo médico, Marcos Maynar, apenas a título de depósito e sem qualquer indicação para que o “capitão” da LA-MSS consumisse alguns daqueles preparados ou que os distribuísse pelos companheiros de equipa.
Apesar da absolvição, a juíza Elsa Paixão deixou um alerta aos dois arguidos. “Não há ligação entre a vossa conduta e a dos ciclistas. Se calhar, ser submetido uma vez a julgamento já é suficiente. Espero que este julgamento tenha servido para alertá-los de modo a que fiquem longe de algumas coisas e que não tenham de ir a tribunal pelos mesmos motivos”.
A sessão terminou com um abraço de felicidade entre Manuel Zeferino e Marcos Maynar e com manifestações de contentamento entre o público, onde estava grande parte do plantel de 2008 da LA-MSS. Ainda houve ânimo por parte de um corredor para insultar o jornalista do Jornal Ciclismo.
No dia em que Manuel Zeferino e Marcos Maynar foram absolvidos pelo Tribunal da Póvoa de Varzim da acusação de 16 crimes relacionados com a alegada existência de um plano de dopagem organizada na LA-MSS, o Jornal Ciclismo recupera parte da entrevista feita ao director-desportivo em 2007. Na altura, depois do triunfo, com Xavier Tondo, na Volta a Portugal, Manuel Zeferino explicou o funcionamento da equipa e a razão do sucesso desportivo até àquela data.
É muito exigente como director-desportivo?
Gosto de entrar nas provas para ganhar e os meus corredores estão mentalizados para isso. Têm de ganhar para melhorar o contrato. Se não ganham, têm de trabalhar para justificar o que ganham.
Como se incute esse espírito na equipa?
Quem vem para a minha equipa já me conhece um pouco e eu também tenho de conhecer mais ou menos aprofundadamente quem contrato. Corredores com pouca ambição ou que trabalhem pouco não entram na minha equipa. O que faço é um contacto directo com eles, tentando mentalizá-los, procurando que treinem mais. É muito importante ter os corredores mais velhos a apoiar os outros. Falo com os ciclistas quase diariamente, mas os mais velhos também lhes ligam frequentemente. Tenho um círculo montado dentro da equipa, que funciona.
A proximidade é um dos segredos?
A proximidade entre todo o núcleo duro da equipa é essencial. Por vezes, a minha mensagem pode nem passar, mas a do colega de equipa passa. Tenho isso tudo controlado.
Esse controlo não pode ser um tanto abafador?
Quem não aguentar a pressão que se vá embora. Somos uma equipa com muita pressão, mas é saudável e não asfixiante. Há corredores que não se pode pressionar muito, cada um tem a sua forma de estar. Por exemplo, o Tondo e o Pires são diferentes do Pedro e do Cabreira.
Sente que só é possível o sucesso com uma presença mais constante e não no registo do director-desportivo tradicional, mais afastado?
Ser um director-desportivo para dizer aos corredores que daqui a 15 dias vão para uma corrida e que lhes ligo no dia anterior para dizer a que horas devem vir, qualquer pessoa faz isso. É preciso fazer um acompanhamento diário para saber se um corredor vai surgir bem ou não na prova que tem como objectivo. Basta-me conversar cinco minutos ao telefone com um ciclista para saber como está.
Que tipo de perguntas faz?
Basta-me falar normalmente com ele, saber como correu o treino, que sensações teve, com quem treinou, que subida fez.
Numa altura em que temos métodos cada vez mais sofisticados, em que os planos de treinos são feitos por médicos, como é que a sua experiência se enquadra?
Converso diariamente com o médico da equipa. Funcionamos todos como um grupo. A maior parte dos ciclistas segue um treino marcado por mim e pelo médico, mas à parte isso falo com eles e eles com o médico, temos uma simbiose perfeita.
Como se consegue manter esse núcleo-duro de ano para ano?
Não é fácil. Há corredores que se integram bem nesta filosofia. Os grandes profissionais e aqueles que querem trabalhar integram-se perfeitamente.
As alegações finais do julgamento de Manuel Zeferino e Marcos Maynar, cada um acusado de e oito crimes de “administração de doping” e oito crimes de “corrupção de substâncias medicinais e alimentares” foram discorridas esta quarta-feira no Tribunal da Póvoa de Varzim. A leitura da sentença foi agendada para 2 de Julho.
Segundo o procurador do Ministério Público, citado pela Agência Lusa, “conclui-se que só os arguidos poderiam ter distribuído aos ciclistas produtos dopantes e elaborado a sua administração”. Segundo o mesmo responsável “os arguidos são responsáveis pela equipa onde foram apreendidos artigos dopantes em grandes quantidades”.
No contraditório, Marina Albino, advogada de defesa de Zeferino salienou que o facto do MP pedir pena suspensa é “compor um ramalhete de coisas que começaram mal”. Advogada adiantou ainda que espera a “absolvição integral” do seu cliente. Pelo mesmo diapasão alinhou o advogado de Maynar, à altura dos factos médico da LA-MSS. “o processo de investigação teve pouco rigor e foi conduzido de forma tendenciosa”, considerou Caldeira Fernandes.
Foto: Póvoa Online
O presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Luís Horta, reafirmou hoje os pareceres que havia dado no âmbito a investigação, confirmando que, de acordo com as “peritagens científicas” que realizou, existia um esquema de dopagem no seio da equipa LA-MSS. Luís Horta interveio, depois de o tribunal não ter dado provimento ao requerimento apresentado pela defesa de Marcos Maynar, que defendia que o especialista não deveria poder depor na qualidade de perito, uma vez que não seria isento, por ter participado na fase de acusação.
Luís Horta foi confrontado com as dúvidas levantadas pelas testemunhas arroladas pelo médico Marcos Maynar, que colocavam em causa os procedimentos científicos das análises. O presidente da ADoP desmontou os argumentos então aduzidos, garantindo que as amostras de urina foram conservadas a uma temperatura de acordo com as normas da Agência Mundial Antidopagem (AMA). O perito frisou ainda que só equipas suspeitas de dopagem têm centrifugadoras como a que foi encontrada num veículo da LA-MSS e desmitificou a questão de as proteases fazerem ou não parte da lista de substâncias e métodos proibidos, lembrando que a lista é aberta e que há substâncias e métodos que integram o rol sem estarem nomeados e que era neste caso que se integravam as proteases.
O médico, Marcos Maynar, e o director-desportivo, Manuel Zeferino, estão a ser julgados no Tribunal da Póvoa de Varzim, acusados, em co-autoria, de 16 crimes de corrupção de substâncias alimentares e medicinais e de dopagem na equipa LA-MSS. A audição de Luís Horta estendeu-se por mais de quatro horas, durante as quais o especialista resistiu estoicamente ao cerrado questionário dos advogados de defesa dos arguidos, cuja agressividade levou a juíza-presidente a não aceitar uma das questões do representante de Marcos Maynar.
As declarações de Horta fizeram alguma luz sobre o processo, permitindo perceber que a investigação vinha de trás. O presidente da ADoP garantiu que, por obrigação legal das funções que desempenha, se reúne frequentemente com elementos da Polícia Judiciária (PJ), que coloca a par das denúncias e suspeitas que chegam ao organismo de luta contra a dopagem. Em 2007, o então Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) debruçou-se sobre a utilização de EPO. Nesse sentido, Horta forneceu à PJ dados relativos a suspeitas sobre diferentes equipas e modalidades. “Não me recordo se particularizei os senhores Zeferino e Maynar, mas referi a equipa LA-MSS”, revelou o especialista.
O perito fez questão de colocar a sua participação neste caso sempre no nível institucional, procurando desarmar a defesa, que o acusava de parcialidade. Luís Horta explicou que a operação conjunta da PJ e do CNAD foi uma coincidência. “A janela de detecção de algumas substâncias é muito curta. A EPO, tomada em microdoses, é totalmente indetectável ao fim de 24 horas. Alguns desportistas sabem que a probabilidade de serem controlados de surpresa é menor após uma competição, pois são controlados no decurso das provas e é improvável que sejam visitados logo no dia a seguir. Segundo informações que tínhamos, era comum o consumo de EPO após algumas corridas”, declarou o dirigente da luta antidopagem. Suspeitando da LA-MSS, o CNAD previa fazer controlos inopinados no dia a seguir a terminar o GP Paredes Rota dos Móveis de 2008. Quando essa operação já estava pensada, foi contactado pela PJ, que também iria fazer uma acção na mesma data com iguais alvos. Assim, as duas operações ocorreram em paralelo.
A partir daí, os produtos e equipamentos apreendidos pela polícia foram enviados para peritagem. Entre o “arsenal” encontrado nas buscas policiais, havia “materiais de administração endovenosa e uma máquina para medir o hematócrito, que foi possível identificar só por observação. Também eram reconhecidos alguns medicamentos, pois são de venda em farmácia, embora contendo substâncias proibidas. Além disso, existiam produtos rotulados, mas não controlados pelo Infarmed, pois não se vendem em Portugal, e havia produtos sem qualquer identificação”, avançou Horta, explicando que estas substâncias foram enviadas para análises, que detectaram, entre outros produtos, anabolizantes, uma mistura desconhecida de insulina com testosterona, seringas com EPO pronta a ser injectada e proteases. “Em alguns casos, sem qualquer rotulagem, quem fosse utilizar não fazia a mínima ideia do que estaria a ingerir”, salientou o médico, que lembrou que a EPO só pode ser encontrada no mercado negro, já que não se vende em farmácias, sendo apenas dispensada em farmácias hospitalares, habitualmente requisitada por centros de hemodiálise.
“Qualquer atleta ou qualquer elemento de apoio de uma equipa não dispõe de conhecimentos para fazer os manipulados, que não têm, de forma alguma, qualquer aplicação terapêutica. Foram concebidos apenas com um propósito: estratégias de dopagem”, precisou o perito. Depois analisar as substâncias apreendidas, a PJ solicitou a Luís Horta que se detivesse nos ficheiros informáticos encontrados no computador pessoal de Marcos Maynar. “Foi-me pedido pela PJ que verificasse se havia correlação entre os produtos apreendidos e o conteúdo dos documentos. A quase totalidade dos documentos tinha algo a ver com as substâncias encontradas”, esclarece o presidente da ADoP. Apesar de a maior parte dos documentos estar escrita em código, surgiam nos textos nomes de dois produtos que integram a lista de substâncias proibidas. Aliás, colocado perante estes mesmos ficheiros, Marcos Maynar admitiu perante o tribunal, na primeira sessão do julgamento, que eram planos de dopagem. Na altura disse que teriam sido prescritos pelo compatriota Jesus Losa, apontando-o como antecessor no cargo de médico das equipas de Manuel Zeferino, justificando, assim, o facto de os planos de dopagem estarem redigidos em castelhano. Acontece que, como o Jornal Ciclismo apurou, Maynar não substituiu Losa na LA-MSS, mas o português Benjamim Carvalho, que assegura nada saber de planos de infracção às regras. Num desses documentos haveria uma inscrição potencialmente incriminatória para Manuel Zeferino, já que o corredor a quem se destinaria o plano de dopagem era instruído para solicitar ao director-desportivo “aquilo das três semanas”.
Após explicar o processo, Luís Horta foi confrontado com as acusações, feitas por testemunhas indicadas por Marcos Maynar na sessão anterior do julgamento, segundo as quais o processo não teria cumprido os requisitos científicos. “A AMA deu aval a todo o processo”, lembrou amiúde o perito, que frisou terem sido cumpridos todas as normas dos protocolos da AMA. Sobre a temperatura de conservação das amostras de urina, Luís Horta esclareceu que “as normas internacionais não exigem a refrigeração”, podendo as colheitas ser mantidas à temperatura ambiente. No entanto, anuiu, é comum refrigerar-se a urina, pois trata-se de uma recomendação da federação internacional de atletismo, que é uma das pioneiras na luta contra o doping. Com o recurso a esta norma, o especialista português deitou por terra a obrigatoriedade de congelamento da urina, alegada por um dos especialistas espanhóis que testemunharam por iniciativa de Marcos Maynar.
Muitas das testemunhas arrolada pela defesa dos dois arguidos, sobretudo corredores no activo e antigos ciclistas, disseram ao tribunal que é normal as equipas usarem centrifugadoras. “É normal haver esse aparelho nas equipas que usam estratégias de dopagem”, acusou Luís Horta, concretizando a sua afirmação com um dado: “O estado de saúde de um atleta não é controlado pelo hematócrito, mas por hemograma. O equipamento que nos chegou não faz análises”, apenas mede o hematócrito. Como um dos produtos apreendidos é uma substância usada para diluir o sangue, permitindo baixar a concentração de glóbulos vermelhos para menos de 50 por cento, Horta acredita que a LA-MSS usava a centrifugadora para ver se, apesar de se doparem, os ciclistas se mantinham dentro dos limites legais. Para corroborar a tese de que estas máquinas colocam sob suspeita as equipas que as tenham, o especialista revelou: “Chegam-me informações de equipas que têm centrifugadoras. A partir desse momento ficam sob suspeita”, o que significa controlos mais apertados. Aliás, num momento da sessão de hoje, em resposta a uma pergunta da advogada de Manuel Zeferino, que também é a defensora do corredor Nuno Ribeiro no processo disciplinar por ter acusado CERA, Luís Horta revelou que o controlo que apanhou Ribeiro, Héctor Guerra e Isidro Nozal não foi obra do acaso, tendo acontecido nos moldes e na data em que sucedeu por algum motivo, que se escusou a explicar, a menos que o tribunal a isso o obrigasse.
Uma das testemunhas de Maynar colocara em causa a capacidade do método do Laboratório de Colónia para a detecção de proteases, afirmando que o método do laboratório alemão ainda seria recente, carecendo de confrontação científica por outros laboratórios e de mais experiência para poder ser tido como um método fiável. Luís Horta recordou, mais uma vez, que os métodos foram avalizados pela AMA, de tal maneira que foi aquela agência que recorreu no caso de João Cabreira para o Tribunal Arbitral do Desporto, que acabaria por também dar como válidos os métodos, quando condenou o corredor por recurso a proteases para destruição da amostra antidopagem. Por outro lado, Luís Horta lembrou que o método de detecção de proteases já não é novo, o que é inovador é recorrer a ele para efeitos de luta contra a dopagem.
A defesa foi usando, ao longo de anteriores sessões do julgamento, o argumento de que as proteases não faziam parte da lista de substâncias proibidas. Ainda ninguém contradissera essa tese. Até ao depoimento de hoje de Luís Horta. “Há secções da lista de métodos e substâncias proibidos que são abertas. As proteases faziam parte das substâncias não descritas, mas englobadas em todas aquelas que permitem atingir determinado fim”, disse o presidente da ADoP. Ou seja, as proteases integravam-se no secção dos métodos químicos e físicos de destruição de amostras antidopagem cuja designação particular não estava especificada. “Fruto da experiência com este caso, a AMA achou por bem mencionar especificamente estas substâncias na lista em vigor desde 1 de Janeiro de 2010″, sublinhou o rosto da luta contra o doping em Portugal.
Devido ao tempo gasto na diligência desta tarde, as alegações finais, que estavam marcadas para hoje, ficaram adiadas para as 14h00 de dia 16 de Junho. Será então conhecida a pena que o Ministério Público irá pedir para os arguidos, esperando-se que as defesas dos dois acusados recorra aos argumentos pelos quais entendem que Zeferino e Maynar devem ser absolvidos.
Zeferino em silêncio, Maynar ao ataque
Manuel Zeferino optou pelo silêncio desde o início do julgamento e ainda não mudou de estratégia. Já Marcos Maynar tem vindo a revelar-se muito impulsivo. Hoje pediu mais uma vez para intervir para contraditar Luís Horta. Como os arguidos não podem interpelar as testemunhas e os peritos, Horta saiu e Maynar teve de contra-atacar na ausência do especialista português.
O médico espanhol afirmou duvidar da existência da mistura de testosterona com insulina referida por Luís Horta, alegando que aquelas duas substâncias são “como a água e o azeite”, não se misturando. Maynar usou este argumento para questionar os métodos usados na determinação da substâncias apreendidas. “Que metodologias foram usadas? Ponho em dúvida, porque nunca foram apresentadas. Este senhor não apresenta relatórios técnicos, só palavras. Não sei quais foram as técnicas, não posso defender-me. Isto é atirar a pedra e esconder a mão”, disse.
“Para ele tudo é dopagem. Não duvido da honestidade de Luís Horta, mas ele não pode duvidar da honestidade dos outros”, concluiu Marcos Maynar.
A qualidade científica dos Laboratórios de Madrid e de Colónia e a imparcialidade do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, Luís Horta, foram hoje questionadas pela defesa do médico Marcos Maynar, na terceira sessão do julgamento em que o clínico espanhol e o director-desportivo português Manuel Zeferino são acusados da co-autoria de 16 crimes de corrupção de substâncias alimentares e medicinais e de administração de dopantes na extinta equipa LA-MSS. Parte dos argumentos hoje usados foram já rejeitados pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), na decisão que condenou o corredor João Cabreira pela manipulação de amostra antidopagem com recurso a protease.
Os ataques aos peritos alemães, espanhóis e português estiveram a cargo de dois professores universitários espanhóis, colegas de Maynar na Universidade da Extremadura e indicados pelo médico como testemunhas. Argimiro Rodríguez e Guillermo Olcina dizem que as amostras de urina de João Cabreira e Rogério Batista não foram armazenadas nas condições ideais e apontam a alegada discrepância entre os resultados obtidos em Madrid e em Colónia relativamente à amostra de Batista.
Argimiro Rodríguez distingue entre a capacidade “analítica e a científica”, sublinhando que os resultados apresentados pelos resultados de Madrid e de Colónia que levaram à detecção de protease não são cientificamente válidos, pois não fazem uma completa identificação das enzimas em causa, podendo tratar-se de enzimas da mesma espécie, mas não serem a protease exacta descrita pelos laboratórios. Com esta tese, o especialista espanhol tentou desmontar a acusação no ponto em que esta identifica a protease detectada nas urinas de Cabreira e de Batista como sendo igual a uma das proteases apreendidas nas casas de outros corredores da equipa, assim como na habitação do médico. Ou seja, segundo o parecer de Argimiro Rodríguez, a protease contida nas urinas dos dois corredores pode não ser exactamente a mesma que outros elementos da equipa tinham em sua posse.
Guillermo Olcina colocou em causa a conservação das amostras antidopagem, considerando que as urinas foram sujeitas a temperaturas demasiado elevadas – deveriam ter sido congeladas, segundo o professor universitário -, o que poderá ter adulterado os resultados. Olcina foi o perito indicado por João Cabreira no processo que decorreu no TAD, no qual o corredor era defendido pela advogada Marina Albino, defensora de Manuel Zeferino no julgamento que decorre na Póvoa de Varzim. As teses de Olcina não foram acolhidas pelos restantes peritos chamados a pronunciar-se perante o TAD, mas o espanhol tem uma justificação para não ter conseguido fazer valer as suas ideias. “Quando fui ouvido estava na Austrália, a bordo de um comboio, depois de assistir à final do Open da Austrália em ténis. Fui ouvido por telefone, nunca pude confrontar argumentos directamente com os peritos alemães”, alegou Guillermo Olcina.
Quase toda a sessão de hoje se deteve na análise de alegadas incongruências e erros técnicos nas análises. Tanto Rodríguez como Olcina foram peremptórios ao considerarem que não é possível o laboratório de Madrid encontrar EPO na amostra de Rogério Batista e o de Colónia detectar protease, pois, à partida, a presença da protease deveria ser suficiente para eliminar a EPO, tornando-a indetectável. O esclarecimento destas e de outras matérias técnico-científicas está dependente do depoimento perante o tribunal de um perito independente. Previa-se a presença de luís Horta nessa qualidade, mas a defesa dos arguidos, especialmente a de Marcos Maynar, tem pendente um requerimento para impedir o depoimento do presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, alegando que Horta não é isento.
Em defesa da sua ideia de que Luís Horta tem um comportamento parcial, o advogado de Marcos Maynar pediu a junção aos autos de um artigo subscrito por Luís Horta e pelos responsáveis pelos laboratórios de Madrid e de Colónia, no qual se faz a divulgação da descoberta de protease como método de manipulação de amostras antidopagem. “Neste seu artigo, para além de aspectos verdadeiramente polémicos, discutíveis e até sem valor científico, assume a defesa de princípios que, em certa medida, antecipam o seu julgamento pessoal da questão que se discute nestes autos”, leu Caldeira Fernandes no pedido de junção do artigo em causa ao processo.
Garrido acusa a FPC por “intuição”
Entre as testemunhas indicadas por Marcos Maynar que hoje foram ouvidas pelo tribunal estiveram dois dos corredores espanhóis da LA-MSS, José Antonio Garrido e Pedro Romero. Garrido acusou a Federação Portuguesa de Ciclismo de prejudicar a LA-MSS. “Não gostava que ganhássemos corridas e fizéssemos também o segundo e o terceiro lugares”, disse o ex-corredor sobre a FPC. Instado a esclarecer a acusação, José Antonio Garrido não apresentou dados concretos, referindo que a sua ideia tinha base na “intuição”. Questionado sobre se isso se deveria ao facto de a FPC ser dirigida por pessoas afectas a outras equipas, Garrido arguiu: “Não tenho a certeza, mas pelos dados disponíveis acho que sim”. Perante a pressão da presidente do colectivo de juízes para que concretizasse as suspeitas, o basco admitiu não ter provas, frisando, no entanto, estar convencido de que a Liberty Seguros e o Benfica seriam protegidos pela FPC.
Pedro Romero disse que o trabalho de Marcos Maynar na equipa passava por prevenir a dopagem, submetendo os corredores a testes de hematócrito, de modo a avaliar se haveria “algum ciclista que não tivesse cabeça”, que “poderia pôr em causa a equipa toda”. O ciclismo “está a morrer por causa de erros que são cometidos por alguns ciclistas”, acrescentou o antigo corredor, desvalorizando as suspeitas de dopagem organizada.
Afonso Azevedo voltou ao tribunal, depois de ter testemunhado na primeira sessão do julgamento. Confrontado com um saco preto apreendido na sua residência, Azevedo disse que o objecto lhe pertencia, assim como todos os produtos que pudessem estar dentro do mesmo aquando das buscas da Polícia Judiciária. Com esta declaração aclarou o primeiro depoimento, no qual afirmara que os medicamentos apreendidos poderiam ser da irmã ou do pai. Desta vez garantiu que o conteúdo do saco não seria de nenhum familiar.
A próxima sessão do julgamento está marcada para dia 1 de Junho, às 13h30. Neste dia serão feitas as alegações finais por parte da defesa e da acusação. Poderá ainda ser ouvido Luís Horta, caso o tribunal não dê provimento ao requerimento apresentado pela defesa de Marcos Maynar para impedir o especialista de depor enquanto perito.
Os factos apurados pelo Jornal Ciclismo contrariam a tese usada em tribunal pelo médico espanhol Marcos Maynar, acusado, em co-autoria com o director-desportivo Manuel Zeferino, de 16 crimes de administração de substâncias dopantes e de manipulação de substâncias alimentares e medicinais. Tentando refutar a responsabilidade pelas pastas com nomes de corredores contendo ficheiros com planos de dopagem e de treino, encontradas no seu computador pessoal, Maynar disse que eram ficheiros enviados pelos próprios ciclistas e que tinham sido concebidos pelo antecessor no cargo de médico das estruturas dirigidas por Manuel Zeferino. Para justificar o facto de os documentos estarem redigidos em castelhano, Marcos Maynar nomeou como antecessor o espanhol Jesús Losa.
Acontece que Marcos Maynar entrou na LA-MSS em 2007. O antecessor de Marcos Maynar na LA-MSS foi o clínico que representou a Maia Milaneza em 2006, ou seja, o português Benjamim Carvalho e não Jesús Losa. É o próprio Benjamim Carvalho que o confirma, em declarações ao Jornal Ciclismo: “Na realidade, entrei na Maia nessa época e de nada me apercebi.Contudo, diziam-me que era voz corrente dizer-se que para termos este médico era melhor não ter nenhum”.
O actual médico do Palmeiras Resort-Prio-Tavira não descarta, todavia, a possibilidade de haver planos de treino e dopagem, relativos a essa época, elaborados por um outro clínico. “É prática, dentro das equipas, diversos ciclistas serem seguidos por médicos que não os da equipa e até por curiosos, ao que se fala. Portanto é provável tal ser verdade . Como nunca aceitei haver nas minhas equipas ciclistas seguidos por outros, é possível que tivesse facilitado a máxima de que ‘o corno é o ultimo a saber’”, afirma ironicamente Benjamim Carvalho.
Perante as declarações do médico português, afigura-se plausível que houvesse planos de treino e dopagem anteriores à entrada de Marcos Maynar. No entanto, durante o julgamento que decorre na Póvoa de Varzim, todos os corredores inquiridos sobre o nome de Jesús Losa revelaram desconhecer este profissional. Por outro lado, entre os sete corredores com planos de dopagem delineados e guardados no computador de Marcos Maynar, três só chegaram à LA-MSS em 2007, ano de entrada do clínico espanhol, estando noutras equipas em 2006. Os planos destes ciclistas não podiam, portanto, ser da lavra do antecessor de Maynar.
Confrontado com o teor da documentação encontrada no seu computador, Maynar disse ao tribunal que aquilo eram planos de treino que lhe foram enviados, a seu pedido, pelos corredores. Seriam, na versão de Marcos Maynar, referentes à época anterior, 2006, e teriam sido elaborados pelo seu antecessor no cargo, o espanhol Jesús Losa. Isso justificaria o facto de estarem escritos em castelhano. Maynar assegurou que deu ordens aos ciclistas para deixarem de seguir aquela preparação, pois era ilegal.
O Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) confirmou hoje as sanções aplicadas pelo Conselho Disciplinar ao corredor Rogério Batista e ao médico Marcos Maynar, ainda no âmbito do caso de alegada dopagem organizada no seio da extinta LA-MSS. O órgão de apelo da FPC, indeferiu os recursos, mantendo a inibição de actividade durante 10 anos ao clínico espanhol e a suspensão de dois anos a Rogério Batista.
A decisão relativamente ao corredor esperou pela sentença do Tribunal Arbitral do Desporto sobre o caso de João Cabreira, já que em causa estava também a presença de proteases na urina. Depois de ter ilibado Cabreira, o Conselho Jurisdicional emenda a mão e admite implicitamente que errou nesse caso, pois agora castiga Rogério Batista pelo recurso a proteases como método de destruição de amostras antidopagem, na senda do que fez o TAD em relação a João Cabreira. O ciclista esteve suspenso preventivamente durante um ano e está afastado desde o começo da presente época, pelo que poderá voltar a competir em 2011.
Antes de dar provimento às decisões do Conselho Disciplinar relativamente a Maynar e a Batista, o órgão de apelo da FPC já tinha reiterado as decisões de primeira instância que puniram os corredores Afonso Azevedo, Cláudio Faria e Pedro Cardoso por posse de substâncias dopantes. Também o director-desportivo, Manuel Zeferino, já vira a sua pena de multa de 2800 euros, por violação do dever de diligência, confirmada.
O processo desportivo em Portugal fica, assim, completamente fechado, embora as decisões ainda sejam passíveis de recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto. O caso continua, contudo, na justiça civil. Manuel Zeferino e Marcos Maynar estão a ser julgados pelo Tribunal Judicial da Póvoa de Varzim, acusados de um total de 16 crimes de administração de substâncias dopantes e de manipulação de substâncias alimentares e medicinais. A próxima sessão do julgamento, durante a qual serão ouvidas as testemunhas indicadas por Marcos Maynar, realiza-se a partir das 13h30 de dia 19 de Maio.
João Cabreira e Luís Horta foram, nesta manhã, os ausentes mais presentes na segunda sessão do julgamento em que Manuel Zeferino e Marcos Maynar são arguidos, acusados de 16 crimes de dopagem e de manipulação e corrupção de substâncias alimentares e medicamentosas no seio da extinta equipa LA-MSS. O corredor foi chamado à colação devido à condenação de que foi alvo pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), ao passo que o médico foi insistentemente referido pelos advogados de defesa, cuja estratégia passa por conseguir que tribunal não ouça o perito, alegando que Horta teve um papel determinante na investigação e na acusação.
Os advogados foram confrontados com a junção ao processo, por parte do Ministério Público, de uma cópia da decisão do TAD que condenou João Cabreira por manipulação de amostra antidopagem com recurso a protease. A defesa dos dois arguidos pediu que o referido documento não fosse aceite neste processo até que se cumprissem duas condições: que estivesse traduzido e não na língua original (francês) e que houvesse indicação clara de qual a proveniência do documento. Perante os requerimentos, o colectivo de juízes tomou uma decisão que satisfará todas as partes. Decidiu que a sentença do TAD é importante para o processo e decidiu pedir uma certidão da mesma ao TAD, solicitando que a indique se a condenação de João Cabreira é ou não passível de recurso.
As questões colocadas às testemunhas pelas defesas dos dois arguidos, nomeadamente ao chefe de brigada da Polícia Judiciária (PJ) que investigou o caso e um dos inspectores da PJ, foram no sentido de perceber o papel de Luís Horta no desenrolar das investigações. Várias perguntas, sobretudo feitas pelo advogado de Marcos Maynar, coloram ao presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal o rótulo de “investigador”, dando, assim, força à tese desenvolvida na sessão anterior, através de requerimento, que pretende que o tribunal não aceite o depoimento de Luís Horta enquanto perito, por considerá-lo parte da acusação.
O defensor do médico Marcos Maynar, ainda na fase em que se discutia a junção ao processo da cópia da sentença do TAD, acusou Luís Hora de perseguição. “O arguido Marcos Maynar não esconde nem nunca escondeu a firme convicção de que a actuação do IDP/CNAD/Doutor Luís Horta que desencadeou o presente procedimento, tal como outros já arquivados, constitui uma actuação persecutória ao arguido, talvez por o ciclismo português querer impressionar um responsável político no âmbito do desporto nacional e por aquela instituição/pessoa não apreciar o ciclismo português”, frisou Caldeira Fernandes.
A este respeito, os investigadores policiais esclareceram que o papel de Luís Horta foi central, por ausência de alternativa. Enquanto responsável máximo pelo combate ao doping em Portugal teria de ser consultado em casos destes. Sobre o facto de a investigação ter radicado numa denúncia apresentada por Luís Horta, o chefe de brigada, Sacramento Monteiro, foi taxativo: “Faz parte das suas funções, se não denunciasse cometia um crime”. Ficou-se ainda a saber hoje que as autoridades portuguesas de luta contra a dopagem receberam uma denúncia anónima, redigida em castelhano por alguém que se disse corredor espanhol a exercer a profissão em Portugal, que lamentava aquilo que considerava ser a dopagem generalizada na LA-MSS.
A ideia da dopagem “generalizada, sistemática e integrada no treino” foi a conclusão a que chegaram os investigadores da Polícia Judiciária, frisou o chefe da brigada. O inspector revelou ter concluído dessa forma pela conjugação das diversas provas recolhidas. Pela tese da acusação, Marcos Maynar estabeleceu os planos de treino e dopagem, passando-os a Manuel Zeferino, que deveria comunicá-los aos corredores, para que estes os pusessem em prática. Para defender esta ideia, o investigador refere a existência no computador do médico de planos individuais de treino e dopagem, semelhantes a um que foi encontrado na pasta pessoal do director-desportivo. As drogas apreendidas na casa de alguns corredores corresponderiam ao plano elaborado e a centrifugadora que estava no camião da equipa serviria para medir e ajustar os níveis.
“A combinação encontrada no camião – centrifugadora e substâncias mascarantes – permite ir medindo os valores do sangue e corrigindo com os mascarantes se os níveis ultrapassarem os legais”, explicou Sacramento Monteiro. Na sessão anterior, Maynar disse que os planos de dopagem que tinha no computador tinham-lhe sido enviados pelos corredores e haviam sido prescritos pelo médico anterior, que Maynar identificou como Jesús Losa, clínico ligado a escândalos de dopagem na Europa mas que os ciclistas interrogados afirmaram desconhecer.
Outra testemunha foi o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), Artur Lopes. O dirigente federativo não soube responder às perguntas concretas da advogada de Manuel Zeferino. Marina Albino pretendia que Artur Lopes especificasse quais os corredores da LA-MSS que acusaram doping em competição. A questão surgiu porque consta do processo um ofício da FPC que indica ter havido duas infracções ao regulamento antidopagem, em competição, no seio da extinta equipa poveira. Como não soube esclarecer os casos concretos, Artur Lopes, ficou de enviar por escrito um relatório completo, no prazo de cinco dias.
Testemunhas abonatórias
A sessão da tarde foi quase toda preenchida com a audição de testemunhas abonatórias de Manuel Zeferino, que foram unânimes no reconhecimento das qualidades humanas e profissionais do técnico, frisando nunca terem ouvido dizer que o director-desportivo dopasse ou incentivasse os seus corredores à dopagem. Depuseram o agente de corredores Juan Campos, o adjunto de Zeferino na Maia e na Póvoa, Casimiro Antunes, o mecânico da equipa, Manuel Neves, o ex-presidente da União Ciclista da Maia, Aires Azevedo, o dirigente do ciclismo do Boavista Tavares Rijo e o antigo corredor e actual comentador televisivo Marco Chagas. Vítor Zeferino, filho do arguido, depôs para dizer que lhe pertenciam os medicamentos encontrados em casa do pai, aquando da busca.
Três testemunhas arroladas pela defesa de Manuel Zeferino puseram em xeque o depoimento prestado na sessão anterior por Luís Almeida, patrocinador principal da equipa e presidente do clube. Manuel Neves e Casimiro Antunes garantiram que Manuel Zeferino nada tinha a ver com a negociação dos contratos e com os pagamentos das despesas e dos ordenados, cabendo essa função a Luís Almeida. Este assegurara que apenas financiava o projecto e que toda a gestão era da conta do director-desportivo. Aires Azevedo, que presidia a União Ciclista da Maia quando Zeferino treinava a equipa, declarou que também nesse projecto os pagamentos cabiam ao presidente e não ao técnico.
Pedro Cardoso foi chamado de novo a tribunal para identificar o saco onde armazenava, na garagem, grandes quantidades de substâncias dopantes. O ex-corredor insistiu na versão de que o saco lhe fora entregue pelo médico Marcos Maynar e que não lhe mexeu durante os quase seis meses que o teve em casa. Cardoso testemunhou que os inspectores da PJ abriram o saco na sua presença.