O Ministério Público (MP) da Póvoa de Varzim recorreu para o Tribunal da Relação do Porto da absolvição de Manuel Zeferino e Marcos Maynar, decretada, no dia 2 de Julho, pelo tribunal daquele concelho nortenho. O MP discorda das conclusões do colectivo de juízes que julgou em primeira instância e pede a condenação dos antigos director-desportivo e médico da LA-MSS pelos 16 crimes de dopagem e manipulação de substâncias alimentares e medicinais de que ambos foram absolvidos.
No recurso, citado pelo Diário de Notícias, o procurador do Ministério Público contesta a não valoração da entrega por Marcos Maynar de um saco com centenas de produtos dopantes ao corredor Pedro Cardoso. O MP chega a afirmar que, pelo lógica que presidiu à decisão do tribunal poveiro, qualquer dia pode-se “substituir os julgadores por programas informáticos”, que apenas condenariam havendo testemunhas presenciais ou confissões de determinado crime.
“Um médico de uma equipa de ciclistas, em vez de guardar em sua casa ou no seu local de trabalho os produtos dopantes, viaja de Espanha para Portugal para deliberadamente pedir a um simples ciclista – que, por acaso, até era ciclista da equipa que ele acompanhava – que lhe guarde os produtos na sua residência? Mas alguém poderá conferir verosimilhança a uma tão esfarrapada versão dos factos?”, interroga o MP no recurso remetido à Relação do Porto.
O procurador do Ministério Público defende ainda que os ficheiros informáticos encontrados no computador pessoal de Marcos Maynar, contendo aquilo que o próprio disse em julgamento serem planos de dopagem, têm de ser considerados propriedade intelectual do próprio. O médico afirmou em tribunal que tais ficheiros foram-lhe entregues pelos corredores e que seriam do seu antecessor, que identificou como Jesús Losa. Só que quem precedeu Marcos Maynar no cargo foi o português Benjamim Carvalho e os ficheiros estavam redigidos em castelhano e alguns diziam respeito a ciclistas que apenas entraram na equipa no mesmo ano do que Marcos Maynar.
Já depois de absolvido deste caso, Manuel Zeferino envolveu-se noutro problema relacionado com os regulamentos de dopagem, faltando ao controlo após uma corrida de veteranos, realizada em Famalicão. Este novo caso está sob alçada das instâncias disciplinares desportivas.
Na gíria jornalística, diz-se que notícia “é quando o homem mordeu o cão”. Ou seja, o inesperado e o surpreendente é que são notícia, não aquilo que é normal e expectável. No mediático “caso LA-MSS” há um momento que se aproxima do homem que mordeu o cão. Não me refiro ao desfecho do processo, pois a absolvição parecia ser um final anunciado, tendo em conta a passividade do Ministério Público e a evidente inépcia da assistente da acusação (representante da Federação Portuguesa de Ciclismo).
Quando o médico Marcos Maynar disse que os ficheiros informáticos encontrados no seu computador com aquilo que o próprio Maynar definiu como planos de dopagem estavam em castelhano, porque haviam sido prescritos pelo antecessor médico na equipa, também ele castelhano, era de esperar que a acusação tentasse verificar se isso correspondia à verdade. O Jornal Ciclismo facilmente descobriu que não. Marcos Maynar substituiu o português Benjamim Carvalho, que, pelo menos oficialmente, era o único médico da equipa antes da entrada de Maynar. O mesmo arguido disse, em defesa da mesma tese, que os ficheiros continham dados com nomes de corredores que já não estavam na equipa. Pista interessante para o Ministério Público procurar averiguar se havia práticas ilícitas que vinham de trás. Nessa averiguação, poderia ser que descobrisse o óbvio: estavam nessas pastas nomes de ciclistas que apenas entraram na equipa no mesmo ano que Marcos Maynar.
Além desta passividade, o Ministério Público ainda se deixou enredar em discussões estéreis sobre as proteases fazerem parte da lista de substâncias proibidas ou não e sobre o posicionamento dos armários dentro do camião da equipa, esquecendo-se de explorar a lista de substâncias apreendidas (ver aqui a totalidade do material) e a sua origem – o tribunal deu como provado que o saco com centenas de dopantes encontrado em casa de Pedro Cardoso foi-lhe entregue por Marcos Maynar. Em nenhuma sessão do julgamento houve uma alma que perguntasse ao médico por que entregou o saco nem para que eram aqueles dopantes (alguns só existentes no mercado negro). Perante isto, “o homem que mordeu o cão” nunca poderia estar na absolvição.
O acórdão do colectivo de juízes absolveu Manuel Zeferino e Marcos Maynar, mas em nenhum momento os definiu como inocentes. Apenas não se conseguiu provar que tivessem cometido qualquer crime, pelo que não poderiam nunca ser condenados. Das palavras lidas pela juíza-presidente, percebeu-se que o tribunal ficou com a suspeita de que algo de errado se passou na equipa, mas que não percebeu muito bem o quê. Vai daí, apontou baterias para o elo mais fraco: os corredores. Se tiver havido recurso à dopagem, os ciclistas serão, em última instância, os responsáveis, concluíram os juízes. Isto porque têm informação suficiente para saber o que tomam e os perigos que isso acarreta para a saúde e até que colocam a vida em risco. Além de que os desportistas são os mais interessados em que não haja doping, pois num desporto limpo é mais fácil os melhores imporem-se. Uma conclusão que também não traz novidade. Ao longo dos momentos mais negros da história do ciclismo, os corredores são sempre a ponta por onde a corda parte, sempre os únicos culpados dos erros cometidos na modalidade.
As reacções à decisão do tribunal é que se aproximaram da novidade, do tal “homem que mordeu o cão”. Depois de apontados como culpados pela possível existência de dopagem na LA-MSS, os ex-corredores daquela extinta equipa rejubilaram, saindo da sala de audiências visivelmente felizes e aliviados. Ou seja, o tribunal profere considerações que colocam em causa a classe dos corredores profissionais de bicicleta, atirando sobre eles o ónus do cancro que é a dopagem, e os únicos representantes da classe que estavam presentes ficaram felizes e festejaram. Poderíamos dizer: “finalmente, o homem mordeu o cão”. Mas, neste caso concreto, não foi comportamento que surpreendesse. O cão não foi mordido durante este julgamento. Os suspeitos do costume foram mais uma vez enxovalhados. Mas houve festa.
No dia em que Manuel Zeferino e Marcos Maynar foram absolvidos pelo Tribunal da Póvoa de Varzim da acusação de 16 crimes relacionados com a alegada existência de um plano de dopagem organizada na LA-MSS, o Jornal Ciclismo recupera parte da entrevista feita ao director-desportivo em 2007. Na altura, depois do triunfo, com Xavier Tondo, na Volta a Portugal, Manuel Zeferino explicou o funcionamento da equipa e a razão do sucesso desportivo até àquela data.
É muito exigente como director-desportivo?
Gosto de entrar nas provas para ganhar e os meus corredores estão mentalizados para isso. Têm de ganhar para melhorar o contrato. Se não ganham, têm de trabalhar para justificar o que ganham.
Como se incute esse espírito na equipa?
Quem vem para a minha equipa já me conhece um pouco e eu também tenho de conhecer mais ou menos aprofundadamente quem contrato. Corredores com pouca ambição ou que trabalhem pouco não entram na minha equipa. O que faço é um contacto directo com eles, tentando mentalizá-los, procurando que treinem mais. É muito importante ter os corredores mais velhos a apoiar os outros. Falo com os ciclistas quase diariamente, mas os mais velhos também lhes ligam frequentemente. Tenho um círculo montado dentro da equipa, que funciona.
A proximidade é um dos segredos?
A proximidade entre todo o núcleo duro da equipa é essencial. Por vezes, a minha mensagem pode nem passar, mas a do colega de equipa passa. Tenho isso tudo controlado.
Esse controlo não pode ser um tanto abafador?
Quem não aguentar a pressão que se vá embora. Somos uma equipa com muita pressão, mas é saudável e não asfixiante. Há corredores que não se pode pressionar muito, cada um tem a sua forma de estar. Por exemplo, o Tondo e o Pires são diferentes do Pedro e do Cabreira.
Sente que só é possível o sucesso com uma presença mais constante e não no registo do director-desportivo tradicional, mais afastado?
Ser um director-desportivo para dizer aos corredores que daqui a 15 dias vão para uma corrida e que lhes ligo no dia anterior para dizer a que horas devem vir, qualquer pessoa faz isso. É preciso fazer um acompanhamento diário para saber se um corredor vai surgir bem ou não na prova que tem como objectivo. Basta-me conversar cinco minutos ao telefone com um ciclista para saber como está.
Que tipo de perguntas faz?
Basta-me falar normalmente com ele, saber como correu o treino, que sensações teve, com quem treinou, que subida fez.
Numa altura em que temos métodos cada vez mais sofisticados, em que os planos de treinos são feitos por médicos, como é que a sua experiência se enquadra?
Converso diariamente com o médico da equipa. Funcionamos todos como um grupo. A maior parte dos ciclistas segue um treino marcado por mim e pelo médico, mas à parte isso falo com eles e eles com o médico, temos uma simbiose perfeita.
Como se consegue manter esse núcleo-duro de ano para ano?
Não é fácil. Há corredores que se integram bem nesta filosofia. Os grandes profissionais e aqueles que querem trabalhar integram-se perfeitamente.
O presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), Luís Horta, reafirmou hoje os pareceres que havia dado no âmbito a investigação, confirmando que, de acordo com as “peritagens científicas” que realizou, existia um esquema de dopagem no seio da equipa LA-MSS. Luís Horta interveio, depois de o tribunal não ter dado provimento ao requerimento apresentado pela defesa de Marcos Maynar, que defendia que o especialista não deveria poder depor na qualidade de perito, uma vez que não seria isento, por ter participado na fase de acusação.
Luís Horta foi confrontado com as dúvidas levantadas pelas testemunhas arroladas pelo médico Marcos Maynar, que colocavam em causa os procedimentos científicos das análises. O presidente da ADoP desmontou os argumentos então aduzidos, garantindo que as amostras de urina foram conservadas a uma temperatura de acordo com as normas da Agência Mundial Antidopagem (AMA). O perito frisou ainda que só equipas suspeitas de dopagem têm centrifugadoras como a que foi encontrada num veículo da LA-MSS e desmitificou a questão de as proteases fazerem ou não parte da lista de substâncias e métodos proibidos, lembrando que a lista é aberta e que há substâncias e métodos que integram o rol sem estarem nomeados e que era neste caso que se integravam as proteases.
O médico, Marcos Maynar, e o director-desportivo, Manuel Zeferino, estão a ser julgados no Tribunal da Póvoa de Varzim, acusados, em co-autoria, de 16 crimes de corrupção de substâncias alimentares e medicinais e de dopagem na equipa LA-MSS. A audição de Luís Horta estendeu-se por mais de quatro horas, durante as quais o especialista resistiu estoicamente ao cerrado questionário dos advogados de defesa dos arguidos, cuja agressividade levou a juíza-presidente a não aceitar uma das questões do representante de Marcos Maynar.
As declarações de Horta fizeram alguma luz sobre o processo, permitindo perceber que a investigação vinha de trás. O presidente da ADoP garantiu que, por obrigação legal das funções que desempenha, se reúne frequentemente com elementos da Polícia Judiciária (PJ), que coloca a par das denúncias e suspeitas que chegam ao organismo de luta contra a dopagem. Em 2007, o então Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) debruçou-se sobre a utilização de EPO. Nesse sentido, Horta forneceu à PJ dados relativos a suspeitas sobre diferentes equipas e modalidades. “Não me recordo se particularizei os senhores Zeferino e Maynar, mas referi a equipa LA-MSS”, revelou o especialista.
O perito fez questão de colocar a sua participação neste caso sempre no nível institucional, procurando desarmar a defesa, que o acusava de parcialidade. Luís Horta explicou que a operação conjunta da PJ e do CNAD foi uma coincidência. “A janela de detecção de algumas substâncias é muito curta. A EPO, tomada em microdoses, é totalmente indetectável ao fim de 24 horas. Alguns desportistas sabem que a probabilidade de serem controlados de surpresa é menor após uma competição, pois são controlados no decurso das provas e é improvável que sejam visitados logo no dia a seguir. Segundo informações que tínhamos, era comum o consumo de EPO após algumas corridas”, declarou o dirigente da luta antidopagem. Suspeitando da LA-MSS, o CNAD previa fazer controlos inopinados no dia a seguir a terminar o GP Paredes Rota dos Móveis de 2008. Quando essa operação já estava pensada, foi contactado pela PJ, que também iria fazer uma acção na mesma data com iguais alvos. Assim, as duas operações ocorreram em paralelo.
A partir daí, os produtos e equipamentos apreendidos pela polícia foram enviados para peritagem. Entre o “arsenal” encontrado nas buscas policiais, havia “materiais de administração endovenosa e uma máquina para medir o hematócrito, que foi possível identificar só por observação. Também eram reconhecidos alguns medicamentos, pois são de venda em farmácia, embora contendo substâncias proibidas. Além disso, existiam produtos rotulados, mas não controlados pelo Infarmed, pois não se vendem em Portugal, e havia produtos sem qualquer identificação”, avançou Horta, explicando que estas substâncias foram enviadas para análises, que detectaram, entre outros produtos, anabolizantes, uma mistura desconhecida de insulina com testosterona, seringas com EPO pronta a ser injectada e proteases. “Em alguns casos, sem qualquer rotulagem, quem fosse utilizar não fazia a mínima ideia do que estaria a ingerir”, salientou o médico, que lembrou que a EPO só pode ser encontrada no mercado negro, já que não se vende em farmácias, sendo apenas dispensada em farmácias hospitalares, habitualmente requisitada por centros de hemodiálise.
“Qualquer atleta ou qualquer elemento de apoio de uma equipa não dispõe de conhecimentos para fazer os manipulados, que não têm, de forma alguma, qualquer aplicação terapêutica. Foram concebidos apenas com um propósito: estratégias de dopagem”, precisou o perito. Depois analisar as substâncias apreendidas, a PJ solicitou a Luís Horta que se detivesse nos ficheiros informáticos encontrados no computador pessoal de Marcos Maynar. “Foi-me pedido pela PJ que verificasse se havia correlação entre os produtos apreendidos e o conteúdo dos documentos. A quase totalidade dos documentos tinha algo a ver com as substâncias encontradas”, esclarece o presidente da ADoP. Apesar de a maior parte dos documentos estar escrita em código, surgiam nos textos nomes de dois produtos que integram a lista de substâncias proibidas. Aliás, colocado perante estes mesmos ficheiros, Marcos Maynar admitiu perante o tribunal, na primeira sessão do julgamento, que eram planos de dopagem. Na altura disse que teriam sido prescritos pelo compatriota Jesus Losa, apontando-o como antecessor no cargo de médico das equipas de Manuel Zeferino, justificando, assim, o facto de os planos de dopagem estarem redigidos em castelhano. Acontece que, como o Jornal Ciclismo apurou, Maynar não substituiu Losa na LA-MSS, mas o português Benjamim Carvalho, que assegura nada saber de planos de infracção às regras. Num desses documentos haveria uma inscrição potencialmente incriminatória para Manuel Zeferino, já que o corredor a quem se destinaria o plano de dopagem era instruído para solicitar ao director-desportivo “aquilo das três semanas”.
Após explicar o processo, Luís Horta foi confrontado com as acusações, feitas por testemunhas indicadas por Marcos Maynar na sessão anterior do julgamento, segundo as quais o processo não teria cumprido os requisitos científicos. “A AMA deu aval a todo o processo”, lembrou amiúde o perito, que frisou terem sido cumpridos todas as normas dos protocolos da AMA. Sobre a temperatura de conservação das amostras de urina, Luís Horta esclareceu que “as normas internacionais não exigem a refrigeração”, podendo as colheitas ser mantidas à temperatura ambiente. No entanto, anuiu, é comum refrigerar-se a urina, pois trata-se de uma recomendação da federação internacional de atletismo, que é uma das pioneiras na luta contra o doping. Com o recurso a esta norma, o especialista português deitou por terra a obrigatoriedade de congelamento da urina, alegada por um dos especialistas espanhóis que testemunharam por iniciativa de Marcos Maynar.
Muitas das testemunhas arrolada pela defesa dos dois arguidos, sobretudo corredores no activo e antigos ciclistas, disseram ao tribunal que é normal as equipas usarem centrifugadoras. “É normal haver esse aparelho nas equipas que usam estratégias de dopagem”, acusou Luís Horta, concretizando a sua afirmação com um dado: “O estado de saúde de um atleta não é controlado pelo hematócrito, mas por hemograma. O equipamento que nos chegou não faz análises”, apenas mede o hematócrito. Como um dos produtos apreendidos é uma substância usada para diluir o sangue, permitindo baixar a concentração de glóbulos vermelhos para menos de 50 por cento, Horta acredita que a LA-MSS usava a centrifugadora para ver se, apesar de se doparem, os ciclistas se mantinham dentro dos limites legais. Para corroborar a tese de que estas máquinas colocam sob suspeita as equipas que as tenham, o especialista revelou: “Chegam-me informações de equipas que têm centrifugadoras. A partir desse momento ficam sob suspeita”, o que significa controlos mais apertados. Aliás, num momento da sessão de hoje, em resposta a uma pergunta da advogada de Manuel Zeferino, que também é a defensora do corredor Nuno Ribeiro no processo disciplinar por ter acusado CERA, Luís Horta revelou que o controlo que apanhou Ribeiro, Héctor Guerra e Isidro Nozal não foi obra do acaso, tendo acontecido nos moldes e na data em que sucedeu por algum motivo, que se escusou a explicar, a menos que o tribunal a isso o obrigasse.
Uma das testemunhas de Maynar colocara em causa a capacidade do método do Laboratório de Colónia para a detecção de proteases, afirmando que o método do laboratório alemão ainda seria recente, carecendo de confrontação científica por outros laboratórios e de mais experiência para poder ser tido como um método fiável. Luís Horta recordou, mais uma vez, que os métodos foram avalizados pela AMA, de tal maneira que foi aquela agência que recorreu no caso de João Cabreira para o Tribunal Arbitral do Desporto, que acabaria por também dar como válidos os métodos, quando condenou o corredor por recurso a proteases para destruição da amostra antidopagem. Por outro lado, Luís Horta lembrou que o método de detecção de proteases já não é novo, o que é inovador é recorrer a ele para efeitos de luta contra a dopagem.
A defesa foi usando, ao longo de anteriores sessões do julgamento, o argumento de que as proteases não faziam parte da lista de substâncias proibidas. Ainda ninguém contradissera essa tese. Até ao depoimento de hoje de Luís Horta. “Há secções da lista de métodos e substâncias proibidos que são abertas. As proteases faziam parte das substâncias não descritas, mas englobadas em todas aquelas que permitem atingir determinado fim”, disse o presidente da ADoP. Ou seja, as proteases integravam-se no secção dos métodos químicos e físicos de destruição de amostras antidopagem cuja designação particular não estava especificada. “Fruto da experiência com este caso, a AMA achou por bem mencionar especificamente estas substâncias na lista em vigor desde 1 de Janeiro de 2010″, sublinhou o rosto da luta contra o doping em Portugal.
Devido ao tempo gasto na diligência desta tarde, as alegações finais, que estavam marcadas para hoje, ficaram adiadas para as 14h00 de dia 16 de Junho. Será então conhecida a pena que o Ministério Público irá pedir para os arguidos, esperando-se que as defesas dos dois acusados recorra aos argumentos pelos quais entendem que Zeferino e Maynar devem ser absolvidos.
Zeferino em silêncio, Maynar ao ataque
Manuel Zeferino optou pelo silêncio desde o início do julgamento e ainda não mudou de estratégia. Já Marcos Maynar tem vindo a revelar-se muito impulsivo. Hoje pediu mais uma vez para intervir para contraditar Luís Horta. Como os arguidos não podem interpelar as testemunhas e os peritos, Horta saiu e Maynar teve de contra-atacar na ausência do especialista português.
O médico espanhol afirmou duvidar da existência da mistura de testosterona com insulina referida por Luís Horta, alegando que aquelas duas substâncias são “como a água e o azeite”, não se misturando. Maynar usou este argumento para questionar os métodos usados na determinação da substâncias apreendidas. “Que metodologias foram usadas? Ponho em dúvida, porque nunca foram apresentadas. Este senhor não apresenta relatórios técnicos, só palavras. Não sei quais foram as técnicas, não posso defender-me. Isto é atirar a pedra e esconder a mão”, disse.
“Para ele tudo é dopagem. Não duvido da honestidade de Luís Horta, mas ele não pode duvidar da honestidade dos outros”, concluiu Marcos Maynar.
O Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) confirmou hoje as sanções aplicadas pelo Conselho Disciplinar ao corredor Rogério Batista e ao médico Marcos Maynar, ainda no âmbito do caso de alegada dopagem organizada no seio da extinta LA-MSS. O órgão de apelo da FPC, indeferiu os recursos, mantendo a inibição de actividade durante 10 anos ao clínico espanhol e a suspensão de dois anos a Rogério Batista.
A decisão relativamente ao corredor esperou pela sentença do Tribunal Arbitral do Desporto sobre o caso de João Cabreira, já que em causa estava também a presença de proteases na urina. Depois de ter ilibado Cabreira, o Conselho Jurisdicional emenda a mão e admite implicitamente que errou nesse caso, pois agora castiga Rogério Batista pelo recurso a proteases como método de destruição de amostras antidopagem, na senda do que fez o TAD em relação a João Cabreira. O ciclista esteve suspenso preventivamente durante um ano e está afastado desde o começo da presente época, pelo que poderá voltar a competir em 2011.
Antes de dar provimento às decisões do Conselho Disciplinar relativamente a Maynar e a Batista, o órgão de apelo da FPC já tinha reiterado as decisões de primeira instância que puniram os corredores Afonso Azevedo, Cláudio Faria e Pedro Cardoso por posse de substâncias dopantes. Também o director-desportivo, Manuel Zeferino, já vira a sua pena de multa de 2800 euros, por violação do dever de diligência, confirmada.
O processo desportivo em Portugal fica, assim, completamente fechado, embora as decisões ainda sejam passíveis de recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto. O caso continua, contudo, na justiça civil. Manuel Zeferino e Marcos Maynar estão a ser julgados pelo Tribunal Judicial da Póvoa de Varzim, acusados de um total de 16 crimes de administração de substâncias dopantes e de manipulação de substâncias alimentares e medicinais. A próxima sessão do julgamento, durante a qual serão ouvidas as testemunhas indicadas por Marcos Maynar, realiza-se a partir das 13h30 de dia 19 de Maio.
“O senhor tem é de tomar qualquer coisa para o cérebro, para a memória”. As palavras foram dirigidas a Afonso Azevedo pela presidente do colectivo de juízes que julga Manuel Zeferino e Marcos Maynar, Elsa Paixão. Depois de o ex-corredor, chamado a depor como testemunha, se ter enredado em contradições e de não responder de forma concreta às perguntas do tribunal, a juíza fez um ponto de ordem. Antes de Afonso Azevedo fora Pedro Cardoso a contradizer-se e a contradizer o médico Marcos Maynar.
Os dois ex-corredores foram incapazes de justificar o motivo por que tinham em casa várias doses de substâncias dopantes, entre as quais uns comprimidos laranja embrulhados em papel de prata, que foram apreendidos na casa de três corredores da extinta LA-MSS., e que as análises laboratoriais vieram a provar serem um agente anabolizante. “Não moro sozinho em casa. O meu pai é amante de desporto e a minha irmã é praticante não federada”, defendeu-se Afonso Azevedo, admitindo que pudesse ser algum daqueles dois familiares a utilizar os referidos medicamentos, que não existem à venda em farmácias e que serão fabricados no “mercado negro”.
Sem justificação ficou a presença, numa bolsa propriedade de Afonso Azevedo, de um medicamento que pode ser usado como substituto plasmático, permitindo diluir o sangue e mascarar utilização de substâncias e métodos dopantes contendo testosterona. Do mesmo modo, posto perante um documento que o Ministério Público entende que é um plano de dopagem individual, o antigo corredor e actual estudante universitário declarou achar que se trataria de um programa de ingestão de vitaminas, cuja origem Azevedo disse não se recordar. Durante a manhã, Marcos Maynar frisara que os ditos documentos ter-lhe-iam sido entregues pelos próprios ciclistas e que, aparentemente, configuravam um plano de dopagem provavelmente gizado pelo médico anterior, que Maynar disse ter sido Jesus Losa, mas com o qual as testemunhas afirmaram não se lembrarem de terem trabalhado.
O primeiro dos antigos corredores a ser inquirido foi o “capitão de equipa”, Pedro Cardoso. O minhoto deu uma curiosa justificação para ter na garagem de casa um saco com centenas de produtos dopantes: “O saco foi-me entregue, num almoço de Natal, pelo médico , que não me disse o que era. Apenas pediu para guardar”. E Pedro Cardoso guardou. Até que a Polícia Judiciária encontrou a encomenda, que Cardoso diz não saber a quem pertencia – “foi o médico que me entregou, não sei de quem era”, afirmou – e a quem se destinava. Pedro Cardoso, questionado pela advogada de Manuel Zeferino, asseverou que nunca foi “controlado positivamente”por dopagem. No entanto, a verade é que lhe foi retirada a vitória no GP Paredes Rota dos Móveis, conquistada na véspera da operação policial. Apesar de, em sede de recurso, ter visto a pena inicial reduzida, Cardoso foi castigado por usar um glucocosticoróide sem que o CNAD tenha recibo a necessária autorização terapêutica, que o ciclista sempre garantiu ter remetido por faxe.
Também João Cabreira e Rogério Batista rejeitaram terem alguma vez violado os regulamentos antidopagem, apesar de Batista estar, de momento, castigado por dois anos por manipulação de amostra antidopagem – o ciclista recorreu da suspensão – e de Cabreira estar a braços com um processo no Tribunal Arbitral do Desporto pelo mesmo motivo. “A primeira vez que ouvi falar em proteases foi quando a Polícia Judiciária me chamou e comunicou que essa substância foi encontrada na minha urina”, argumentou Cabreira. O actual corredor do CC Loulé acrescentou que o transporte da sua amostra de urina para Colónia fez-se “em condições lamentáveis”, que poderão ter potenciado o aparecimento da substância que elimina a EPO da urina. Já Rogério Batista, a quem foram detectados traços de EPO na urina, na qual também foi encontrada a mesma protease, foi lacónico: “Não sei como isso apareceu”, talvez por razões endógenas ou por má conservação da urina, argumentou.
Se em Cabreira e Batista as proteases apareceram na urina, outros intervenientes no processo tinham-nas em casa. Foi o que sucedeu com Cláudio Faria, Afonso Azevedo e o médico Marcos Maynar. O clínico não sabe como é que o pó lhe apareceu na residência, mas aventa a possibilidade de algum desportista a ter deixado lá para analisar. Afonso Azevedo contou ter comprado a protease em Espanha, porque lhe tinham dito que ajudava na digestão. Cláudio Faria faltou ao julgamento. A advogada de Manuel Zeferino referiu que o corredor estaria emigrado. Talvez tenha regressado ao estrangeiro após ter passado a Páscoa em Portugal, pois no sábado esteve na Maia, onde decorreu a Volta ao Concelho da Maia.
Numa coisa, os ex-corredores ouvidos estiveram de acordo. Todos, sem excepção, garantiram que Manuel Zeferino era o melhor director-desportivo nacional, nunca tendo incitado nenhum deles a dopar-se e que era um treinador que se preocupava com a saúde dos corredores. A defesa de Manuel Zeferino, a cargo da advogada Marina Albino, habitual defensora de corredores em processos disciplinares, insistiu na tese de que o seu cliente não se intrometia nas competências dos outros profissionais da equipa – massagistas, mecânico. A respostas de alguns dos ciclistas levaram mesmo a concluir que o director-desportivo não era responsável pelos planos de treinos, já que seriam os corredores, com base na experiência adquirida com os anos de carreira a planificarem a preparação, embora sendo seguidos com interesse pelo técnico, que lhes telefonaria, regularmente, para saber como estariam a evoluir os treinos e as sensações.
De acordo com as palavras dos antigos corredores, o médico também não intervinha na definição dos planos de treino. Aliás, interrogados sobre se seriam submetidos a testes de hematócrito por parte de Marcos Maynar, Afonso Azevedo e Pedro Cardoso declararam que se isso aconteceu foi esporadicamente. Estes depoimentos contradisseram o médico, que, nesta manhã, garantira que a sua principal função passaria por medir os valores sanguíneos dos ciclistas, de modo a ver se algum deles estaria fora dos limites. Segundo o clínico, só um ciclista ficou de fora de uma prova por esse motivo. Aconteceu no GP de Paredes de 2007, mas não foi nomeado pelo arguido.
As contradições nos depoimentos de Pedro Cardoso e Afonso Azevedo foram tais, que são as únicas testemunhas que hoje depuseram que serão de novo ouvidas, por iniciativa do colectivo de juízes.
Hoje foram ouvidas onze testemunhas, faltando ainda recolher o testemunho de 19 outras pessoas. As próximas sessões estão marcadas para os dias 6 e 17 de Maio. A defesa de Marcos Maynar, a cargo do advogado Caldeira Fernandes, requereu o impedimento de Luís Horta ser chamado a depor como perito. O clínico espanhol quer afastar do julgamento o maior especialista nacional na luta antidopagem. O argumento é o de que o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal já interveio no inquérito que resultou na acusação, que indicia Manuel Zeferino e Marcos Maynar de 16 crimes de administração de dopagem e manipulação de alimentos e substâncias medicamentosas.
Enquanto Marcos Maynar optou por falar no início do julgamento, sendo desmentido, em vários aspectos pelos corredores, Manuel Zeferino entrou mudo saiu calado.
O médico Marcos Maynar rejeita ter qualquer ligação ao alegado esquema de dopagem na extinta LA-MSS. Na primeira sessão do julgamento em que é arguido, a par com o director-desportivo, Manuel Zeferino, o médico espanhol endossou todas as responsabilidades para terceiros. Os corredores tinham produtos proibidos em casa? “O mundo do ciclismo, tal como o de outros desportos, tem doping. Os desportistas usam substâncias, muitas vezes, pelo que ouvem de outros”, afirmou, sublinhando que o seu papel na equipa poveira era o de evitar que os corredores tomassem doping – “a função dos médicos das equipas é controlar os corredores”.
A polícia apreendeu em casa de Marcos Maynar três proteases, substâncias usadas para destruir a presença de EPO e de outras proteínas na urina. “Em minha casa encontraram uma substância num papel de prata. Eu nem sabia o que era. Mas como trabalho academicamente nesta área, por vezes sou procurado por desportistas que me pedem que analise algumas substâncias para saber se são ou não legais. Podem ter lá deixado por esse motivo, mas não analisei proteases”, assegurou o clínico.
Ainda na casa de Maynar, a polícia encontrou no computador pessoal pastas com nomes de corredores. Em cada uma delas existia um plano de treinos associado a um plano de dopagem. Marcos Maynar garante que os ficheiros datam de 2006 e que foram-lhe enviados pelos próprios corredores, a pedido do médico, que queria saber o historial de cada um. Na opinião de Maynar, os conselhos de dopagem nele contidos, escritos em castelhano, terão, provavelmente, sido prescritos pelo seu antecessor na equipa, Jesus Losa, o médico acusado por David Millar de lhe ter vendido EPO em 2004.
O médico declara que, ao ver que nos documentos, alegadamente redigidos pelo antecessor, estava a prescrição de substâncias proibidas, terá alertado os corredores para não seguirem o procedimento. “Esqueçam”, conta Maynar sobre o que disse aos ciclistas.
Em casa de Manuel Zeferino foi encontrado um documento que o Ministério Público entende ser um plano de dopagem para Danail Petrov. Apesar de não estar na equipa na altura, Marcos Maynar aceitou comentar o caso. “Deve ter sido um faxe enviado pelo Petrov – que não conheço pessoalmente – a perguntar se podia tomar a substância em causa. Estou seguro que o Manuel Zeferino disse que não”, adiantou o médico, numa das poucas respostas em que manifestou crer na inocência de alguém.
Manuel Zeferino optou por manter-se em silêncio durante a sessão matinal. Em sua defesa esteve presente Angel Edo, corredor que correu pela UC Maia entre 200 e 2004. “O Manuel Zeferino foi o melhor treinador que alguma vez tive. É um compêndio. Ligava-nos muitas vezes durante a semana para saber se estava tudo bem. Voltou a fazer-me sentir ciclista. Vim à procura de uma equipa e encontrei uma família”, testemunho o sprinter catalão que terminou a carreira no Vitória-ASC, em 2007.
O julgamento prossegue durante a tarde.
A primeira sessão do julgamento em que são arguidos Manuel Zeferino e Marcos Maynar ficou marcada pelo depoimento de Fonseca Esteves, Director do Centro Nacional de Medicina Desportiva. O médico afirmou que continuam por apurar as causas da morte de Bruno Neves. “Tudo o que aqui está é inconclusivo”, frisou, referindo-se aos resultados das análises toxicológicas que não encontraram qualquer substância proibida.
O especialista afirmou que os cortes efectuados aos tecidos do falecido corredor não foram feitos de modo adequado. “Os cortes aos órgãos não eram os ideais e não permitiram resultados conclusivos”, sublinhou. Estes testes eram relacionados com as eventuais deficiências orgânicas que poderiam determinar a arritmia cardíaca que levou ao óbito. Sem poder concluir cientificamente, Fonseca Esteves baseia-se na sua experiência para aventar como causa mais provável uma miocardite. Questionado pela acusação, a cargo do Ministério Público, sobre se a miocardite e a hipertrofia dos órgãos poderia ser causada pela ingestão de substâncias dopantes, o médico respondeu afirmativamente, salientando que, neste caso específico, não se sabe se isso sucedeu ou não, pois todos os testes serão inconclusivos.
Fonseca Esteves defende que haja um protocolo mundial de procedimento uniformizado para autópsias a desportistas de alta competição, de modo que a deixem de haver as deficiências e a falta de conclusões verificadas neste como noutros casos.
Ainda antes do testemunho de Fonseca Esteves, ficou-se a saber que Bruno Neves padeceria de um sopro no coração. Quem o disse foi Marcos Maynar, referindo ter detectado esse problema num teste físico antes da pré-temporada. O arguido garante ter aconselhado o corredor a fazer um ecocardiograma para despiste do problema, ao que Bruno Neves terá respondido que iria pedir à Federação Portuguesa de Ciclismo para fazer esse exame, já que estaria convocado para a selecção.
Na primeira sessão, Manuel Zeferino optou pelo silêncio, enquanto Marcos Maynar fez uma longa exposição em sua defesa. Os dois são acusados de 16 crimes de administração de dopantes e de manipulação de substâncias alimentares e medicamentosas.
O Jornal Ciclismo consultou a acusação do Ministério Público contra o director-desportivo Manuel Zeferino e contra o médico Marcos Maynar e revela quais as sustâncias, utensílios e documentos apreendidos pela Polícia Judiciária nas buscas efectuadas no dia 19 de Maio de 2008. Entre os produtos encontrados encontram-se centenas de comprimidos ou cápsulas de anabolizantes, seringas com insulina pronta a ser injectada, medicamentos da família da EPO, substâncias mascarantes e destruidoras de amostras recolhidas para análises antidopagem. Grande parte dos produtos com que se depararam os investigadores não são sequer fabricados pela indústria do medicamento, aumentando ainda mais os riscos de danos graves para a saúde dos utilizadores.
Pedro Cardoso foi o corredor em cuja residência estavam armazenadas mais substâncias dopantes. Nas habitações de Tiago Silva e de Rogério Batista não foram encontrados nenhuns medicamentos proibidos, mas na urina de Rogério Batista foi detectada, pelo Laboratório de Colónia, uma protease – a mesma encontrada na urina de João Cabreira – capaz de fazer desaparecer as moléculas de EPO da amostra enviada para análise.
O médico Marcos Maynar guardava em casa três tipos diferentes de proteases e tinha documentos comprometedores no computador. Escritos em código, estes documentos, de acordo com a acusação do Ministério Público, eram os planos de dopagem individual de cada corredor. O Ministério Público indica que no computador do médico havia uma pasta com o nome de cada um dos corredores da equipa. A acusação apenas refere os corredores portugueses alvo de buscas, não especificando se o médico não tinha qualquer referência aos espanhóis da LA-MSS e a Bruno Pires, ciclistas que não foram visitados pelas brigadas de investigação.
Manuel Zeferino e Marcos Maynar começam hoje a ser julgados. Cada um é acusado de 16 crimes de manipulação de substâncias alimentares e de administração de dopagem. A moldura penal para estes crimes, à data dos factos, varia entre um e oito anos de prisão.
Documentos e produtos apreendidos a Manuel Zeferino:
- Documento redigido em castelhano e em código, que o Ministério Público, após consulta a peritos, entende ser um plano detalhado de dopagem
- Documento com plano de doping de Danail Petrov, relativo a 2006, no qual se indicava a toma de um comprimido anabolizante por dia
- 6 comprimidos de substância glucocorticosteróide
- 1 embalagem com dois frascos, um com água bacterioestática para injecção e outro com um medicamento contendo o glucocorticosteróide metilpredenisolona
- 2 seringas embaladas, uma de 20 ml e outra de 10 ml
- 3 agulhas para injecções intramusculares, embaladas individualmente
- 8 borboletas embaladas individualmente, agulhas para administração endovenosa de substâncias ou infusões
Documentos e substâncias apreendidos a Marcos Maynar:
- Ficheiros informáticos com plano de treinos individual dos corredores seguido daquilo que o Ministério Público identifica como o plano de dopagem individual de cada corredor
- Ficheiro informático, dentro de uma pasta designada por “farmácias”, em que o médico indica endereços electrónicos onde é possível encontrar à venda um produto que aumenta o volume globular. À cautela, porque não conhece a composição exacta do produto, o médico aconselha os corredores a deixarem de tomar uma semana antes da competição, para não correrem riscos de um positivo por uma substância ilegal não referida na composição deste produto, alegadamente feito com ervas medicinais
Substâncias e equipamentos apreendidos à equipa
No veículo com matrícula 10-FD-78 foram encontrados:
- 90 cápsulas brancas de um glucorticosteróide sem designação comercial e, por isso, sem controlo sanitário
- 3 Fracos de um substituto do plasma, usado para diluir o sangue
- 1 saco de seringas, contendo um dispositivo para suporte temporário de agulhas, após a respectiva utilização
- 10 prolongadores para infusão intravenosas com gravidade (método proibido)
- 12 sistemas para infusão com gravidade
- 5 seringas de 20 ml para administração endovenosa
- 79 seringas de 1 ml, desitnadas à administração de substâncias em volumes muito reduzidos, com agulhas de baixos calibre e dimensão (raramente usadas na prática quotidiana da medicina desportiva)
- 8 sistemas de infusão tipo “butterfly” para administração endovenosa
- 1 centrifugadora de sangue que permite medir os valores de hematócrito e centrifugação do sangue em microtubos
Substâncias e equipamentos encontrados na residência de Pedro Cardoso:
- 2 frascos com 251 cápsulas vermelhas contendo dehidroepiandrosterona (DHEA) – agente anabolizante. Tratavam-se de um manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 1 frasco com 4 cápsulas de cor laranja contendo oxandrolona – agente anabolizante – e 26 cápsulas vermelhas contendo dehidroepiandrosterona (DHEA) e androstenediona – agentes anabolizantes. As cápsulas constituem manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 1 frasco com 68 cápsulas de cor laranja contendo oxandrolona e dehidroepiandrosterona (DHEA) – agentes anabolisantes. As cápsulas constituem manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 7 frascos com a mesma rotulagem, cinco fechados e dois abertos. Nos abertos (87 + 16 cápsulas brancas e verdes), após análise laboratorial verificou-se que o preparado não condizia com a rotulagem, que anunciava o anabolizante Acetato de Metenolona, 25 mg. Mais uma vez era manipulado, sem designação comercial e controlo das autoridades públicas
- 3 frascos com a designação “60 cápsulas – Andriol 40 mg/Undecanoato de testosterona”. Dois estavam fechados. O aberto continha 62 cápsulas cor de tijolo compostas pelos agentes anabolizantes undecanoato de testosterona e de testosterona
- 9 ampolas de dehidroepiandrosterona (DHEA)
- 40 comprimidos, em lamelas, de metandienona e de metiltestosterona – agentes anabolizantes.
- 1 frasco com 58 comprimidos amarelos compostos por Oxymetholona e mestanclona – agentes anabolizantes. A cápsulas constituem manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 1 frasco de vidro com pó branco: protease do Bacillus amyloliquefaciens, substância usada na manipulação de amostras antidopagem.
- 13 comprimidos de efedrina, substância que pode ser utilizada até ao limite de 10 microgramas por mililitro
- 1 frasco com pó branco composto por metiltestosterona e oximesterona, esteróides anabolizantes
- 1 frasco com 120 comprimidos de pregnenolona, glucocorticosteróide.
- 1 frasco com dehidroepiandrosterona (DHEA) líquida. O produto constitui manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 14 cápsulas laranja embrulhadas em papel de prata. Tratava-se do anabolizante oxandrolona. As cápsulas constituem manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 5 ampolas do medicamento Dinistenil, cujo princípio activo é o anabolizante dehidroepiandrosterona (DHEA)
- 77 agulhas tipo butterfly para administração endovenosa de substâncias ou infusões
- 9 tubos de ensaio
- 10 conjuntos de administração de sangue para sacos de sangue: dispositivos para transfusões sanguíneas
- 30 seringas para para administração de volumes muito reduzidos, com agulhas de baixo calibre e dimensão (raras vezes necessário na prática de medicina desportiva)
- 1 seringa de elevado volume, normalmente utilizada para administração de infusões por via endovenosa ou para a realização de drenagens
- 1 frasco de soro fisiológico, que é normalmente usado para recuperar de desidratações ou de casos de diminuição de volume sanguíneo, mas que serve para diluição de substâncias para administração intravenosa
- 1 saqueta de gel com testosterona e 4-hidroxitestosterona. Esta via de administração de testosterona está referenciada na literatura científica corno uma forma de administração da referida hormona originando pequenas alterações no perfil endógeno de esferóides e urna excreção rápida da substância dificultando, desse modo, a detecção da substância proibida pelos laboratórios antidopagem
- 2 sistemas de infusão com agulhas tipo butterfly
- 1 agulha estéril para injecções intramusculares
- 223 cáspulas de cafeína (substância de utilização livre)
Substâncias e equipamentos encontrados na residência de Cláudio Faria:
- 7 ampolas contendo hormonas proibidas FSH e LH
- 2 comprimidos cor de tijolo contendo efedrina. Comprimido de origem desconhecida
- 14 cápsulas laranja embrulhadas em papel de prata contendo o anabolizante oxandrolona. Trata-se de um manipulado, não submetido a qualquer controlo por autoridades em matéria de medicamento, com todos os perigos inerentes para a saúde daí resultantes
- 1 Seringa guardada numa caixa de gelado. A seringa continha insulina
- 1 frasco acondicionado numa caixa de flores. Dentro do frasco um líquido contendo testosterona e insulina. Desconhece-se a origem da substância. A associação de insulina com testosterona não é produzida no mercado legal do medicamento
- 1 frasco com um líquido amarelado contendo dihidrotestosterona, anabolizante. Trata-se de um manipulado, não submetido a qualquer controlo por autoridades em matéria de medicamento, com todos os perigos inerentes para a saúde daí resultantes
- 1 bolsa com uma unidade de sangue. Realizada análise a uma amostra de 3 ml do sangue contido na bolsa, verificou-se um ligeiro aumento da GOT, da CPK e da sideremia. Estão descritos aumentos da GOT em utilizadores de esteróides anabolisantes, por alterações do metaboloismo do fígado. Estão descritos aumentos da siderémia (ferro sérico) em utilizadores de eritropoeítina, em virtude da administração de elevadas doses de ferro, necessário para a síntese dos novos glóbulos vermelhos estimulada por aquela substância
- 6 seringas contendo um líquido com a designação “NeoRecormon 10000″, produto com epoeitina beta. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 1 seringa contendo um líquido com a designação “NeoRecormon 6000″, produto com epoeitina beta. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 2 seringas contendo um líquido com a designação “NeoRecormon 5000″, produto com epoeitina beta. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 2 seringas contendo um líquido com a designação “NeoRecormon 4000″, produto com epoeitina beta. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 1 seringa contendo um líquido com a designação “Anaresp 100″, produto com darbepoeitina alfa. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 1 seringa contendo um líquido com a designação “Anaresp 60″, produto com darbepoeitina alfa. Medicamento que apenas pode ser vendido em farmácias hospitalares, para administração hospitalar ou em centros de hemodiálise
- 164 comprimido e cápsulas de cafeína (substância de utilização livre)
Substâncias e equipamentos encontrados na residência de Afonso Azevedo:
- 1 frasco contendo um substituto plasmático intravenoso, produto que faz parte da lista de agentes mascarantes. Usado para baixar rapidamente o nível de hematócrito
- 1 seringa para administração de insulina
- 2 sistemas de infusão com agulhas butterfly
- 1 saco com duas seringas para injecções intramusculares, com agulhas colocadas, e um frasco de soro fisiológico.
- 12 comprimidos de efedrina, substância cuja utilização está restrita, em competição, a um máximo de 10 microgramas por mililitro
- 1 tudo de comprimidos contendo apenas uma cápsula amarela, cuja composição continha riamcinolona acetonido, um glucocorticosteróide
- 1 tubo de comprimidos contendo apenas um comprimido castanho, cuja composição revelou pseudoefedrina, substância que integra a lista de produtos que não são proibidos mas estão em monitorização. O comprimido enconttrado é um manipulado não controlado por qualquer autoridade do medicamento
- 14 cápsulas cor-de-laranja embrulhadas em papel de prata. A composição revelou presença dos anabolizantes oxandrolona e de dehidroepiandrosterona (DHEA). As cápsulas constituem manipulado, sem designação comercial e sem controlo das competentes autoridades públicas
- 53 comprimidos e cápsulas de cafeína (substância de utilização livre)
Substâncias e equipamentos encontrados na residência de Tiago Silva:
- 2 seringas destinadas a aplicações intramusculares ou endovenosas
Substâncias e equipamentos encontrados na residência de Rogério Batista:
- 1 seringa para administração de insulina
Documentos apreendidos no carro de João Cabreira:
- Duas folhas com inscrições manuais, em castelhano, relativos a um plano de administração de substâncias dopantes
A justiça federativa condenou Manuel Zeferino a uma multa de 2800 euros por não zelar pela saúde dos corredores, o que significa que não deu como provado que o técnico comandasse um esquema de dopagem organizada na extinta LA-MSS. O Ministério Público tem uma visão diferente e acusa o director-desportivo e o médico Marcos Maynar de terem um plano de dopagem que começaria na pré-temporada, revelou hoje o Diário de Notícias (DN), citando dados constantes do processo, cujo julgamento começará na próxima quarta-feira.
De acordo com o DN, documentos apreendidos a Manuel Zeferino e uma perícia feita ao computador de Marcos Maynar permitem concluir que os dois gizaram um plano que passaria pela administração aos corredores de anabolizantes, diversos tipos de EPO e substâncias mascarantes. A acusação frisa que Maynar estabeleceu o plano de toma de medicamentos, alguns fabricados artesanalmente e comprados no “mercado negro”, e que aconselharia os ciclistas a tirarem férias para melhor escaparem a controlos surpresa. Além disso, terá indicado à equipa sítios na Internet onde era possível comprar as substancias proibidas que seriam necessárias para o sucesso do esquema de dopagem.
Nas declarações às autoridades, Manuel Zeferino disse desconhecer qualquer plano de dopagem, afirmando mesmo que ignorava para que servia uma centrifugadora de sangue encontrada num veículo da formação que dirigia. Já o médico garante que apenas prescreveu substâncias passíveis de utilização mediante autorização terapêutica e que a sua função principal seria analisar os corredores para saber se algum, por meios próprios, recorreria a substâncias ou métodos proibidos.
Os dados apurados pelo Ministério Público desmentem as alegações dos dois arguidos e apontam para um processo de dopagem com início na semana do Natal de 2007. Entre 18 e 24 de Dezembro, os corredores deveriam ingerir um anabolizante especificamente fornecido por Marcos Maynar. Seguir-se-ia uma semana a ingerir um outro anabolizante e, nos primeiros dias de Janeiro de 2008, os atletas tinham de tomar uma outra droga da mesma família. Segundo o Ministério Público, estas três semanas sob efeito de anabolizantes eram compensadas pela ingestão de um outro fármaco, visando impedir um dos efeitos secundários dos anabolizantes: a atrofia dos testículos e a impotência sexual. Nesta altura, prossegue a acusação do Ministério Público, o médico aconselharia os corredores a “tirarem férias e a desaparecerem de casa”, para melhor escaparem aos controlos antidopagem inopinados.
Após os anabolizantes, chegava a época da EPO. Inicialmente, com três semanas de administração de EPO sintética clássica, que deveria ser fornecida por Manuel Zeferino, revela o DN com base nos dados constantes da acusação do Ministério Público. Seguia-se um período em que os corredores deveriam conjugar a utilização de EPO de segunda geração com insulina. Este plano terminaria uma semana antes da primeira corrida do ano.
Além deste alegado esquema de dopagem, os investigadores encontraram em posse da equipa substâncias mascarantes e outras capazes de destruírem vestígios de dopagem na urina. Relativamente ao primeiro caso, foi apreendido um substituto do plasma, que permitiria diluir o sangue e, dentro do prazo regulamentar de 24 horas para apresentação a um controlo surpresa, colocar os valores hematológicos dentro dos limites permitidos. O segundo refere-se às já famosas proteases, que terão sido encontradas na posse de alguns corredores, na casa de Marcos Maynar e na urina de João Cabreira e Rogério Batista.
Além do alegado plano de dopagem organizada, a Polícia Judiciária apreendeu seringas de EPO, tubos com as famigeradas proteases, estimulantes, diuréticos e compostos químicos sem fabricação legal, só passíveis de encontrar no mercado negro.
Manuel Zeferino e Marcos Maynar começam a ser julgados na próxima quarta-feira. Estão ambos acusados de oito crimes de corrupção de substâncias alimentares e de outros tantos de administração de substâncias dopantes.