A Associação Internacional de Ciclistas lamenta as fugas de informação que resultaram num clima de suspeição para cerca de 198 ciclistas, quanto á possibilidade de utilização de produtos dopantes, lembrando aos organismos que regem a modalidade, que as análises efectuadas ao longo de uma prova, se devem basear nas performances alcançadas pelos ciclistas e nunca por valores sanguíneos.
O problema que poderá ficar por aqui, mas com a Associação a intentar uma acção contra o jornal L’Équipe por publicação de dados pessoas e intransmissíveis, vem agudizar o tema, não sendo despropositado que o mesmo esteja relacionado com o pico alto da modalidade, normalmente período em que este tipo de notícias mais disparam na Imprensa.
A pergunta coloca-se neste momento: Será que os dados em posse da UCI estarão em posse segura?
A resposta, face aos últimos acontecimentos, demonstra leviandade por parte dos dirigentes internacionais, pois tais dados deverão ser utilizados por um número restrito de pessoas, a quem se possa ser pedida responsabilidade em caso de fugas de informação como foi o caso.
Ao fornecer uma lista, classificando os ciclistas, segundo dados contidos no passaporte biológico a uma série de agentes, a UCI perdeu o controlo da situação, demonstrando não estar à altura dos acontecimentos.
Este tipo de classificações e suspeições coloca sérias dúvidas quanto à seriedade dos referidos controlos, face à forma como os ciclistas são submetidos ao controlo anti-doping, onde um determinado número de ciclistas é convocado por sorteio, o que pelos vistos nem sempre assim acontece, o que pode induzir a várias interpretações e conveniências.
José Santos
Falta agora saber se a fuga de informação sobre uma catalogação dos melhores ciclistas há possíveis suspeitas de alteração hematológica, publicada pelo jornal L’Équipe, se ficou a dever à AMA ou à UCI.
Para já o organismo internacional que gere a modalidade defende-se, mas a notícia vinculada pelo jornal organizador do Tour provocou um grande terramoto na credibilidade do ciclismo.
Acreditamos que estas fugas existam com o propósito de descredibilizar a modalidade, colocando-se agora sérias duvidas quanto à seriedade com que são utilizados os resultados obtidos nas diversas análises que fazem parte do passaporte biológico de cada ciclista.
Ao tornar os resultados públicos, a entidade que os divulgou prestou um péssimo serviço á modalidade, desacreditou o passaporte biológico, e provou que, mais uma vez, todos foram enganados.
O passaporte biológico, cujos resultados não podem ser divulgados publicamente, constitui para a entidade que faz o seu controlo um segredo que pode ser bem ou mal guardado, podendo para além do que agora aconteceu, ser um factor de aconselhamento para directores de equipas, que tendo acesso a estas informações poderão beneficiar com o estratagema.
O certo é que, o ciclismo vai de mal a pior, com todo este “ruído“ e quem fica a perder é a modalidade.
Segundo o jornal francês, o documento divulgado não é um recenseamento dos implicados na utilização de produtos dopantes, mas sim de um documento sobre os métodos utilizados pela UCI. A lista foi preparada pela UCI, com a catalogação de todos os 198 ciclistas que alinharam no Tour do ano passado, tendo como base a análise do perfil sanguíneo de cada ciclista (que deveria ser altamente confidencial), mas que pelos vistos foi remetida a uma série de técnicos encarregados do controlo oficial. Um acto que demonstra a leviandade, de quem divulgou indistintamente o referido documento, utilizado agora para denegrir a imagem de ciclistas e, o que é mais grave da modalidade.
Por uma questão de respeito, para com os ciclistas não publicamos a lista em questão, cujo teor não é de forma ALGUMA BASEADO EM MÉTODOS CIENTIFICOS.
JOSÉ SANTOS
Texto de opinião de José Santos*
INTRODUÇÃO
Para muitos a Volta ao Algarve é a melhor competição nacional. Na verdade, a “ algarvia” faz-nos sentir noutro mundo, tal o número de equipas e o valor dos seus ciclistas. Neste aspecto estamos todos de acordo. Mas daí a ser a melhor competição nacional tem que se lhe diga. O inverso também pode ser verdade.
Ter uma boa estrutura organizativa e um leque menos distinto de participantes, também pode ser penalizante, mas… perdõem-nos o incomparável: entre a Volta a Portugal e a Volta ao Algarve ainda há um fosso distante.
O que mais admiro, porém, é como duas distintas figuras conseguem pôr de pé uma prova desta envergadura, sem os grandes apoios de outras entidades, é digno da nossa admiração e apreço.
O Rogério Teixeira e o Bernardino Caliço merecem-nos uma palavra de alento e de gratidão.
Como alguém disse : “ A Volta ao Algarve é uma desorganização organizada .”
Pensamos que produzida com esforço, com carolice, sem grandes vaidades e sobretudo sem grandes apoios que, pelos vistos por estas paragens estão destinados apenas às elites do ténis, hipismo e golfe.
O PERCURSO
Dura, selectiva esta edição da Volta ao Algarve foi uma contínua repetição do mesmo tipo de percurso e dificuldades. Um constante sobe e desce repetitivo, sem grande imaginação, com algumas incursões bastante sinuosas que, para além de apertadas apresentavam perigos em todos os cantos e esquinas.
Foi, pois, um itinerário a gosto dos especialistas de clássicas, útil para tempos futuros, mas que se tornou indigesta para os participantes portugueses, onde foi nítida a falta de argumentos, o que não seria caso para menos, para todos, com excepção de Tiago Machado.
Tenhamos a noção da realidade, o orçamento de uma equipa portuguesa representa praticamente o custo médio de um ciclista mediano de uma equipa ProTour, e o orçamento de todas juntas semelhante ao que melhor ganha um cabeça de cartaz de uma equipa de 1ª divisão.
ONDA-BOAVISTA
Confesso que esperava um pouco de mais atrevimento por parte dos ciclistas da ONDA – BOAVISTA, mas bem vistas as coisas não era tarefa fácil. A atuação foi discreta, mas de alguma forma consistente.
O Alexandre Marques foi o melhor classificado das equipas lusas, assumiu a chefia da equipa, conseguindo uma boa posição na chegada ao Alto do Malhão, ele que não é um especialista a trepar, fazendo um contrarrelógio de grande recorte técnico, mas ainda um pouco distante do seu real valor.
O Ricardo Vilela esteve presente em quase toda a corrida no pelotão da frente, muito regular, o mesmo se passando com o Alberto Morras, que fez grande evolução nos percursos montanhosos.
Quanto aos restantes, estamos ainda no início de temporada e, tal como a grande maioria dos ciclistas de outras equipas, cumprem um programa de preparação que não aponta para o início de época, face á ausência de competições e programa competitivo quer nacional, quer internacional.
AS COMUNICAÇÕES
Fazer uma corrida sem rádio de comunicação entre director desportivo e ciclistas é inovação , mas sem que o director consiga ter permissão para falar com os seus ciclistas no seio do pelotão, já é falta de respeito pela função.
Pergunto-me a mim próprio, como é que estes directores aceitam de ânimo leve esta decisão de um organismo internacional, caduco e sem inspiração para conduzir a modalidade a um lugar de destaque desportivo internacional.
Como é possível um patrocinador investir milhões de euros, deixando ao acaso da sorte a decisão de uma corrida.
Dizem eles, os da UCI, que é para privilegiar o espetáculo, mas foi para privilegiar o espectáculo que o ciclismo está como está. É que no espectáculo vale tudo e no desporto há regras.
Será bom perguntar nesta altura, se o ciclismo é meramente um espectáculo, ou é um desporto.
Mutas das informações que os directores desportivos receberam ao longo da corrida era para alertas de estrada perigosa, carros mal estacionados, curvas apertadas e pontes sem protecção.
Mas como é que os directores poderiam transmitir estas informações aos seus ciclistas ?
Não tenho duvidas que muitas das quedas registadas, poderiam ter sido evitadas, se os ciclistas tivessem sido avisados via rádio.
Será que as quedas também fazem parte do espectáculo ?
OS APOIOS
Poucas foram as autarquias que aderiram, com partidas e chegadas : Loulé, Albufeira, Lagoa, Portimão, Tavira e Lagos.
A Junta de Turismo do Algarve simplesmente alheou-se de um apoio visível, e não fosse o Crédito Agrícola e mais uma série de pequenos apoios, a prova não sairia do papel.
Muitas promessas de transmissão, mas de notícias televisivas nem vê-las. Para uma prova desta envergadura, de que seve ter um resumo televisivo, misturada com uma prova ou duas de BTT, passados oito dias?
* Director desportivo da ONDA-Boavista
Texto de opinião de José Santos
A prova de Abertura é uma das competições mais ansiadas pelos ciclistas, não só porque, como o seu nome o indica, marca o início oficial das primeiras pedaladas, como também, permite encontrar os amigos, e ver “ in loco “ as inovações de todos os componentes do pelotão nacional.
Este ano houve alterações de fundo: primeiro a prova mudou-se de Faro para Loulé, abandonou a RDP/ Algarve que, por estranho que pareça nem apareceu, nesta nova edição, e o pelotão foi misto: sub-23 e profissionais e, para finalizar, o percurso foi totalmente alterado, passando para uma prova bastante mais dura, com incursões pelas serranias circundantes a Loulé. Diremos, pois, uma prova mais selectiva.
À partida 92 ciclistas, dez dos quais da Onda- Boavista,e onde apenas faltou João Cabreira, que alinharam para os 145 kms, com a mesma intenção de todos os outros. A anteceder a prova, a habitual reunião de comissários, e se já não gostamos deste novo ciclismo, muito menos ficamos a gostar, de uma forma arcaica, de o dirigir.
Já não chega terem proibido os auriculares, para de uma assentada não permitirem os carros de apoio de comunicarem com os ciclistas, no seio do pelotão.
É um estranho ciclismo este, comandado por uma elite ultrapassada que, na sua inconsciência de criar leis, compara o incomparável, quer reduzir o ciclismo a um mero espectáculo, mesmo que essa redução vá em detrimento do conceito do desporto. E isto de reduzir, o que é desporto, a um espectáculo, tem os seus inconvenientes, mas sobretudo os seus imensos perigos…
Bom, mas passemos à prova propriamente, para analisarmos a participação da Onda – Boavista, e, mau grado os resultados finais não terem sido os melhores, a equipa esteve interventiva, lutando de principio ao fim e animando a corrida praticamente até o risco de chegada.
Primeiro por intermédio de Délio Fernandez, que andou em fuga perto de 90 kms, em companhia de Márcio Barbosa, o que lhe valeu a conquista do Prémio da Montanha, mas também pelo inconformismo de Ricardo Vilela, o primeiro a atacar em Salir, para mais tarde ,já a cerca de cinco kms da meta, ser a vez de Alberto Morras.
A equipa neste capítulo esteve bem, obrigou o Tavira a trabalhar a fundo para anular os 11 minutos que o Délio chegou a usufruir e, mais tarde a entrada da Barbot, para assegurar uma chegada ao sprint.
No final, e por força da chuva a corrida foi um pouco de lotaria, tão grande foram as quedas verificadas,(e onde nos faltou o Bruno Lima), Sérgio Sousa, da Barbot- Efapel foi o vencedor, logo seguido por um homem da casa, Bruno Saraiva, do Louletano.
E aqui uma palavra de saudade para os nosso amigos Jorge Piedade e o Tony, por não podermos contar com eles no pelotão profissional, mas tê-los no nosso pelotão é motivo de grande satisfação. Aliás Loulé, bem merece todo o nosso respeito, pela longa lista de amigos que temos o prazer de ter nesta zona do país. E daqui de Tavira onde estamos alojados, o nosso abraço, em vésperas de início da maior prova do ciclismo nacional: a Volta ao Algarve.
* director-desportivo da ONDA-Boavista
Texto e fotos: José Santos*
S. Luis será um destino de férias. A aposta, pelo menos é séria, servindo o ciclismo como pano de fundo, para uma acção de promoção deste Estado argentino além fronteiras. Do que vimos, lamentamos que o mesmo não se veja por cá. Um Estado que planifica o seu futuro, assente nas grandes ferramentas das sociedades modernas: a preservação do ambiente, como mola real para o desenvolvimento de uma região.
Por ano, em S.Luis, são plantadas um milhão de árvores, construídas novas auto-estradas, e os espaços desportivos existentes fazem o visitante ficar de boca aberta: um velódromo, um hipódromo, um autódromo, dezenas de campos relvados , onde não falta um estádio de futebol, com todas as mordomias.
Viajar em S. Luis é fácil, os acidentes são reduzidos, porque raras são as vias com dois sentidos.
Quando desembarcamos em Buenos Aires, esperava-nos uma nova viagem dividida em dois capítulos: uma nova ida de avião de Buenos Aires para Mendoza e, daqui para S. Luis de autocarro.
Atravessar Buenos Aires, de um aeroporto para outro permitiu-nos observar os graves problemas das grandes metrópoles: dezenas de sem-abrigo dormindo nos jardins e avenidas da cidade e os numerosos bairros, tipo favelas.
A entrada em S. Luis (Estado) foi surpreendente. Do final do Estado de Mendoza até à cidade de S. Luis esperavam-nos cerca de 90 quilómetros, em autovia, completamente iluminada do príncipio ao fim (todas as autovias eram iluminadas) e a ladear a faixa de rodagem erva e árvores estacadas, em duas colunas separadas entre si cerca de 10 metros. Ficamos impressionados. Mais impressionados ficamos quando demos conta que, ao longo desta distância, centenas de pessoas cuidavam da sua manutenção.
Mas porque falar de S. Luis com tanto entusiasmo? A resposta é simples para quem gosta de ciclismo. É que a grande aposta na divulgação e promoção turística da região é feita, basicamente através do Tour de S. Luis, com o apoio do seu Governador Alberto Rodrigues Sáa, num Tour que vai na sua quinta edição e que não pára de crescer.
O ambiente em torno da corrida é entusiasmante. A bonomia do povo argentino é vísivel, na abordagem aos ciclistas e no respeito que nutrem pelos atletas. Num jantar de gala final, Alberto Sáa solidificou a sua aposta no ciclismo, como “modalidade de grande impacto junto do povo. “Ainda hoje estou para saber como é possível toda a gente aplaudir os ciclistas. Em S. Luis ao fim de cinco anos, já vivenciamos a cultura do ciclismo. O povo entende o ciclismo e os jornalistas já fazem grandes reportagens do Tour de S. Luis”, disse.
De S. Luis apenas trazemos imagens positivas, de um Estado com 0,5 de taxa de desemprego, com 60.000 mil vivendas construídas recentemente, de dezassete diques de água artificiais, de postos de Internet gratuitos, instalados em todas as áreas de descanso das autovias e estações de serviço e em diversos locais públicos, de 900 kms de autovias e de estradas sem buracos. De cidades limpas e de gente feliz, que tinha orgulho na obra feita, como o Palácio do Governo, qual pirâmide do Egipto, local de apresentação das equipas, noite, com televisão em directo e fogo de artíficio, a fazer inveja a muitas organizações do ciclismo da Europa.
No final e em jeito de despedida, um jantar de gala reuniu todos os participantes na prova, que terminou em euforia, quando Alberto Sáa anunciou a formação de uma equipa continental UCI, em 2012 sedeada em S. Luis.
A CORRIDA
A prova tem todos os ingredientes para se tornar,a muito curto prazo como destino favorito dos grandes ciclistas e equipas mundiais: boas estradas, com percursos para todos os gostos, em especial a rolar , com rectas a perder de vista e a subir, com subidas longas, mais de 20 kms sempre a empinar, e montanhas de grande inclinação.
Segurança dir-se-ia que não era precisa, tal o respeito dos automobilistas pela corrida, bem como pelo facto de 80% do percurso ser feito em autovias de sentido único, mesmo assim se algum organizador de corridas em Portugal se atrevesse a ter na estrada tantas motos e carros de patrulha, bem como vigilantes em todos os cruzamentos, que existiam em S. Luis, bom certamente a prova não passaria da primeira etapa…
O clima é outra das vantagens argentinas, nunca se registou ao longo da prova temperaturas inferiores a 30 graus centígrados.
Reunidos todos estes ingredientes, apimentados com uma estrutura organizativa simples, mas eficiente, o Tour de S. Luis pode-se converter como um dos poucos paraísos de princípio de época, em especial para os ciclistas europeus.
Como se desenrola a prova: as equipas ficam alojadas sempre no mesmo hotel. A horas determinadas diariamente pela organização, saiem primeiro as bicicletas acondicionadas em dois camiões com atrelados. Passado uma hora, quatro potentes autocarros transportam os ciclistas para o local de partida. Os carros de apoio das equipas saiem apenas com o pessoal técnico e material suplente para apoio durante a prova.
No final das etapas a cena volta a repetir-se, o que leva por vezes que os ciclistas cheguem algumas vezes sem tempo para massagens, dado que as equipas técnicas são reduzidas a um director desportivo, um mecânico e um massagista.
Os prémios foram distribuídos no final da prova, cerca de duas horas depois de terminada a corrida, o que também é um bom incentivo para os ciclistas.
Do epicismo típico das grandes provas de ciclismo, um momento único: o desfalecimento de Tondo na etapa rainha, com 190 kms duas contagens de rimeira categoria, a primeira com mais de 25 km de extensão, a segunda , mais curta 16 kms, mas com inclinações de arrepiar, e for precisamente no início desta montanha que o espanhol , na tentativa de seguir o chileno Arriagada, não teve forças para o acompanhar desfaleceu e caíu, o que o atirou do primeiro lugar para um resultado modesto na classificação.
Foi notório o avanço competitivo dos sul-americanos, em relação aos europeus, num continente onde não faltam provas, grandes competições, normalmente Voltas nacionais, que agrupam as selecções nacionais de cada um dos países. Destas, as mais fortes: O Chile, a Argentina e Colômbia, mais discretas o Uruguai e Cuba, mais fracas o Equador, Bolívia, Paraguai e Brasil.
Em relação às equipas europeias, a Androni foi, de longe, a mais competitiva, com três vitórias de etapa, enquanto a estrela da prova, Ivan Basso, veio ganhar endurance e perder alguns quilos.
Da Onda-Boavista, tenho que admitir que a participação foi modesta, mas as indicações foram boas, e o ânimo elevado, para enfrentarmos novos desafios, num ciclismo cada vez mais global.
* Director-desportivo da Onda-Boavista
Texto e fotos: José Santos*
O vento continua a causar alguma preocupação. Primeiro porque é desagradável, e segundo porque a manter-se esta situação, com estradas amplas, totalmente desabrigadas, vão constituir, certamente, muitas dores de cabeça.
Os ciclistas da Onda – Boavista partiram, hoje, para mais um treino de cerca de duas horas e meia, tendo –nos sido distribuído, logo de manhãzinha, o nosso carro de apoio, um Chevrolet Corsa, com uma grande grade para as bicicletas, quase maior que a viatura. Tudo igual, em termos de viaturas, para a quase totalidade das equipas, com um caso deveras interessante.
No hotel onde a equipa da Liquigas está instalada, duas viaturas, decoradas a rigor, com um atrelado idem aspas, para transporte das bicicletas, chamavam a atenção. Ao que soubemos, um adepto fervoroso decorou a frota a rigor, e colocou tudo ao dispor da equipa italiana, o que certamente irá constituir um grande contraste na caravana deste V Tour de S.Luis.
Em redor do hotel Vista alguma celeuma, obrigava a força policial a intervir, para manter ordem no acesso de jornalistas, à estrela da prova. Era Ivan Basso que tinha assomado à porta do hotel para treinar, quando foi de imediato rodeado, pelos jornalistas presentes na prova.
Resolvida a situação com o agendamento de uma conferência de imprensa, o ambiente logo acalmou.
No final do treino as sensações:
“ Contra o vento a velocidade não passava dos 16/17 km/h. A favor, cheguei a atingir 92 km/h, disse Bruno Lima, e por aqui se pode avaliar a preocupação que este factor poderá estar a causar na caravana deste Tour de S. Luis.
A apresentação das equipas, pelos vistos promete. É à noite, (21.00 horas), em directo para três canais desportivos da Argentina, com conjunto e fogo de artificio.
Mas vejamos, alguns números desta prova:
– Catalogação da prova : 2.1 na escala UCI, a mais alta na América Tour.
- Quatro edições já realizadas, tendo como vencedores em 2007 – Jorge Giacinti (Chile) – 2008 – Martin Garrido (Tavira), 2009 – Alfredo Lucero (Argentina) e 2010, ano do início da grande internacionalização da prova. Vicenzo Niballi (Liquigas).
- 1.000 kms de prova divididos em sete etapas, 300.000 pessoas previstas ao longo das etapas, 20 equipas participantes , 150 ciclistas, 200 jornalistas acreditados, entre estrangeiros e argentinos, de Portugal – Fernando Emílio (A Bola), e 20 horas de transmissão em canal desportivo.
Organização de responsabilidade italiana, com Lombardi ao comando, bem secundado por um grupo de espanhóis, para o desempenho de várias tarefas. Uma curiosidade, que não deixa de causar boa impressão. Uma ambulância médica pernoita junto aos hotéis onde as equipas estão instaladas, para o caso de alguma necessidade.
A azáfama, na garagem do hotel onde estamos instalados, permanece, alguns mecânicos ainda montam bicicletas a “cheirar a novo“, como o caso da Spaarkasse, com as suas Corratec.
Mas o que pensamos, nós Onda-Boavista fazer nesta prova:
“Primeiro discutir uma vitória de etapa com o Bruno Lima. O Bruno trabalhou muito no defeso, perdeu cerca de sete kgs, e está motivado. Pessoalmente, penso que é um grande sprinter, em terreno sem inclinação, do melhor que tivemos no nosso país, nos últimos anos. Para o ajudar temos o Jon Pardo, um jovem de grande futuro. Forte e com boas referências. Dos restantes ainda é cedo para esperarmos grandes cometimentos, mas iremos procurar não passar despercebidos. Pelo menos vamos tentar. Não são muitos os objectivos, mas temos de ter a noção da realidade: já aqui gente com a preparação muito adiantada, e o que não menos verdade de grande valor. “
*Director-desportivo da Onda-Boavista
– Texto de opinião de José Santos* –
Alberto Contador continua a clamar inocência, em relação aos cinco pictogramas de Clembuterol, detectadas num controlo antidoping, numa das etapas da Volta a França.
O caso, rocambolesco, apresenta algo de sinistro, face a situações que poderemos considerar anormais:
- primeiro porque, tal quantidade, não é detectável na grande maioria dos laboratórios, o que quer dizer que esta análise foi escalpelizada, de forma anormal, ou pelo menos diferenciada em relação a de outros situações e,
- segundo, dada a transversibilidade das análises efectuadas, quer ao longo do ano, quer durante a própria Volta a França, será possível descortinar se o uso foi sistematizado ou se, pelo contrário, corresponde a uma análise isolada, que pela quantidade detectada, demonstra que o seu aparecimento se deveu a factos anómalos.
O problema do controlo anti-doping no ciclismo, dado o seu passado pioneiro, acarretou para a modalidade uma má imagem:
- primeiro porque, a grande maioria das outras modalidades, ao não serem controladas, durante décadas, obviamente não registavam quaisquer tipo de casos, caindo a totalidade do ónus no ciclismo,
- segundo, a insipiência (diria “insapiência“) com que os dirigentes da modalidade encetaram as démarches foram sempre negativas, ou pelo menos causaram elevados danos, naquilo que o ciclismo tinha de mais precioso e histórico: os atletas.
Através do ciclismo foram inventados, todo o tipo de análises e procedimentos, funcionando os atletas como autênticas cobaias, caindo-se no exagero de serem mantidas amostras para serem analisadas no futuro. Isto será o mesmo que, por exemplo, serem mantidas algumas potenciais infracções à lei do código de estrada, em stand-by, esperando que saia uma legislação capaz de penalizar os infractores.
Mas o mais grave é que a manutenção dessas amostras em “quarentena“ seriam apenas e unicamente para servirem como métodos de investigação, e nunca para outro tipo de convénios ou estudo, o que pelos vistos, não será bem assim…
Mas, voltando ao caso de Alberto Contador, o importante seria descortinar se o caso se ficou a dever a qualquer tipo de contaminação, ou se pelo contrário à utilização de qualquer tipo de produtos constantes da lista proibida, e, portanto, passível de castigo.
Pelos vistos, este facto não será possível provar : Contador terá dificuldade em provar a proveniência da carne possivelmente alimentada à base das tais rações, e as entidades que procederam à análise, terão outras tantas dificuldades para, cientificamente provarem que o positivo da análise se deva unicamente à ingestão de qualquer produto.
Ora, na justiça comum, a justiça verdadeira, aquele que se cinge pelo respeito da integridade dos cidadãos, em caso de dúvida, em que não conseguiu reunir as provas suficientes para a condenação, só lhe resta absolver o réu.
No desporto pelos vistos não. Em caso de dúvida opta-se pela condenação.
No périplo que atravessa para provar a sua inocência, Contador deparou num caso de um jogador de ténis de mesa que tinha sido ilibado, com o mesmo produto e com a mesma argumentação do ciclista espanhol: a ingestão de carne “alimentada “ à base de produtos com rações em que na “ ementa” constava o clembuterol, e apresentou o seu caso similar. Foi sol de pouca dura, porque propositadamente ou não, de ilibado o tenista de mesa, rapidamente passou a culpado.
Este facto indicia, o que há muito me preocupa: a discriminação. Quer isto dizer o tenista foi ilibado mas, quando a defesa de Contador se preparava para comparar o seu caso com este, os factos foram prontamente alterados. Mas porquê?
Mas bem vistas as coisas, tem mais lógica a penalização do tenista do que a do Contador:
- primeiro, porque o tenista não tem ao dispor dos investigadores uma bateria de análises que comprovem o aparecimento inusitado do produto no seu organismo. Isto é, não tem suporte para contestar pelo seu histórico. Não tem controlos surpresa inopinados, não tem anteriormente ao seu positivo uma série de análises efectuadas em dias seguidos, anteriores ao caso positivo, nem tem um passaporte dito biológico, onde se pode comprovar alterações que justifiquem este aparecimento.
- segundo, Alberto Contador foi alvo de vários controlos surpresa antes da Volta á França . Durante o Tour e antes do dia em que acusa o referido clembuterol, foi várias vezes analisado em todas elas negativamente. Possui um passaporte biológico, como todos os grandes ciclistas.
Partindo de todos estes pressupostos, permitimo-nos concluir que os resquícios existentes na amostra, dificilmente, dada a quantidade detectada, poderão ser ocasionados pela ingestão de um qualquer produto, ou pelo menos mais facilmente será possível verificar, através do histórico do atleta, que é difícil que o produto, dada a sua ínfima quantidade, possa ser derivado da utilização de qualquer procedimento ilegal..
Podemos também concluir que os investigadores terão mais meios para chegar a uma conclusão com os meios disponibilizados ao seu serviço, pelo atleta de ciclismo, no caso Alberto Contador.
* Director-desportivo da Madeinox-Boavista
David Blanco (Palmeiras Resort-Prio-Tavira) é o favorito número um e a Volta a Portugal tem os mesmos quatro pontos decisivos dos últimos anos: Senhora da Assunção, Senhora da Graça, Torre e contra-relógio. Estas são as opiniões consensuais entre os directores-desportivos das equipas portuguesas, ouvidos pelo Jornal Ciclismo – faltou Mário Rocha, ausente no estrangeiro.
Os discursos dos técnicos assemelham-se, mas há algumas matizes que indiciam aquela que poderá ser a guerra táctica durante a corrida. Carlos Pereira (Barbot-Siper), Jorge Piedade (CC Loulé-Louletano-Orbitur-Aquashow) e José Santos (Madeinox-Boavista) endossam para os tavirenses o grosso da responsabilidade da corrida, devido à presença de David Blanco no plantel algarvio. Vidal Fitas lembra que há outros candidatos.
“É claro que o David Blanco não é o único favorito. Temos consciência de que, por ter ganho três vezes esta corrida, é o principal candidato. Mas também sabemos que há outros corredores com capacidade para disputarem a camisola amarela e pelo menos um já ganhou a Volta a Portugal. E ainda há muitos outros com hipóteses: Santi Pérez, Constantino Zaballa, Danail Petrov, Sérgio Sousa ou até o Cândido Barbosa”, afirma o director-desportivo do Palmeiras Resort-Prio-Tavira, frisando o último nome, para que todos percebam que dispõe de duas armas, nada secretas.
O director-desportivo da Barbot-Siper tem noção de que Bernabéu é um trunfo. “O David é um bom contra-relogista e defende-se bem na montanha. No ano passado estivemos na luta e conseguimos o terceiro lugar – passou a segundo com a desclassificação de Nuno Ribeiro -, em 2010 vamos ver o que conseguimos fazer”, diz Carlos Pereira.
No que se prevê ser uma briga entre algarvios, o CC Loulé-Louletano-Orbitur-Aquashow promete “desafiar o favoritismo de David Blanco, que é o candidato número um”, segundo o director-desportivo louletano, Jorge Piedade. “A nossa intenção é discutir o primeiro lugar da Volta a Portugal, à partida com o Santi Pérez, que nos dá garantias”, acrescenta Piedade.
Afinal, em condições normais, é ou não possível bater David Blanco? “Atendendo à actual situação do ciclismo português, dificilmente haverá em Portugal alguém capaz de competir com David Blanco”. A opinião não pertence a qualquer adepto do corredor galego, foi proferida pelo director-desportivo da Madeinox-Boavista. José Santos aborda a Volta a Portugal sem líder definido, preferindo esperar para ver como se comportam Sérgio Sousa e Danail Petrov. Se nenhum dos dois mostrar capacidade para discutir a camisola amarela, o mais certo é vermos os axadrezados ao ataque, procurando lutar pelas etapas.
O percurso do costume
O percurso deste ano varia pouco relativamente às edições transactas, fazendo com que as etapas decisivas sejam as mesmas que foram determinantes nos anos anteriores. Apesar disso, “não devemos fazer muitas críticas à organização, pois esta precisa de ter verbas para levar a prova por diante”, concede José Santos, que não resiste a lembrar que o traçado “é um bocado repetitivo, as dificuldades são sempre as mesmas”.
A maior mudança está relacionada com a antecipação do contra-relógio para o penúltimo dia, abrindo a possibilidade de a derradeira etapa ser de consagração. “Depende do que acontecer até lá, mas estou convencido de que essa alteração em nada influirá na corrida, pois tudo deverá ficar decidido no contra-relógio”, crê Carlos Pereira. Esse é o medo de José Santos, que nada haja para discutir na última ligação. “As etapas já são poucas, com uma etapa em linha no final é menos uma”, estima o decano dos directores-desportivos em actividade em Portugal.
A lista de pré-inscritos deixou os responsáveis das equipas portuguesas de sobreaviso para alguns nomes. Vidal Fitas já traçou o perfil aos mais perigosos. “Há muitos homens de qualidade que já fizeram coisas importantes no ciclismo. É o caso de Emanuele Sella, Sergio Pardilla, Ruslan Pidgornyy ou Patrik Sinkewitz”, enumera o algarvio.
Foto: Carlos Rodrigues/PAD
O reconhecimento da “crise” e o impacto particular da mesma no “produto” ciclismo ficou patente na apresentação da Madeinox-Boavista numa cerimónia que fez votos de renovação de valores perante a consumada saída de Tiago Machado, anterior chefe-de-fila. Para Marco Cunha e Ricardo Vilela, além do espanhol Alberto Morras ficaram reservadas as maiores apresentações numa opção natural numa equipa que manteve o seu “esqueleto”, a saber, Célio Sousa, Danail Petrov e Joaquim Sampaio, e, ainda, Sérgio Sousa, Luis Pinheiro e João Benta, única contratação nacional em 2009.
Depois de ter alcançado, em 2009, um interessante pecúlio de 11 vitórias individuais – terceira equipa mais vitoriosa após Liberty Seguros e Palmeiras Resort-Prio – tendo-se destacado pelo valor do seu colectivo, a Madeinox-Boavista surge com plantel de nove ciclistas dispostos a enfrentar a “crise” no asfalto.
Na apresentação da equipa, o director-desportivo frisou “a falta de equipas, ciclistas e de um calendário ambicioso” no ciclismo português visando contrariar a tendência com a promessa de “retirar o melhor de um conjunto “jovem” mas com talento”.
“Como seremos em 2010, sem Tiago Machado? Impetuoso, combativos, procurando os êxitos. Sabemos que não estamos tão fortes como na época passada, talvez nos falte um chefe-de-fila assumido mas oportunidades não faltarão para todos os ciclistas”, frisou José Santos. “Será uma equipa de futuro que com quatro jovens de valor poderão despontar já esta temporada”, acrescentou o responsável.
O orçamento da Madeinox-Boavista, tal como de todas as equipas do pelotão 2010, sofreu cortes significativos. Para a nova temporada, o Boavista terá menos 30 a 40 por cento da verba de que dispôs no ano passado, em que o orçamento rondou os 450 000 euros.
Paulo Espanhol, administrador da Madeinox, reconheceu mesmo que “não estava nos planos da empresa patrocinar o Boavista Ciclismo Clube” e só o fez em virtude da redução “significativa” do orçamento – o processo negocial arrastou-se até ao final do ano – e “graças ao professor José Santos e ao inspector Tavares Rijo”.
Direcção
Insp. Tavares Rijo
Prof. José Santos
Luís Machado
Equipa técnica
Director-desportivo: Prof. José Santos
Director-desportivo adjunto: Luís Machado
Médico: Dr. Pinto de Sousa
Mecânicos: Fernando Costa e Joaquim Carvalho
Massagista: Ruben Couto
Estruturas: Nuno Santos
Plantel: Danail Petrov, Célio Sousa, Joaquim Sampaio, Sérgio Sousa, João Benta, Luís Pinheiro, Marco Cunha, Ricardo Vilela e Alberto Morrás
Um novo projecto de raiz que recupera a herança velocipédica gondomarense terá lugar na próxima época, com o projecto de uma equipa de clube, composta na sua totalidade por corredores sub-23 e com um orçamento de 60 mil euros. O projecto delineado há uns meses toma o lugar do antigo Gondomar Clube de Ciclismo no patamar de antecâmara do escalão continental. O anterior projecto constituiu a base de lançamento da equipa profissional que se sucedeu, anos depois, com o patrocínio da Barbot.
A direcção técnica do projecto gondomarense cabe a José Santos, actual director-desportivo da Madeinox-Boavista e presidente da direcção do Gondomar Cultural, agremiação que tutela a prática desportiva juvenil de diversas modalidades como Andebol, Polo Aquático, Voleibol, Tiro com Arco, entre outras, alargando agora o seu raio de acção ao ciclismo.
“Trata-se de um projecto de formação de ciclistas e será maioritariamente constituído por corredores de primeiro ano nos sub-23. Gondomar tem uma importante tradição velocipédica e achamos bem recuperar a modalidade”, asseverou o responsável. A direcção desportiva da equipa não está ainda assegurada, sendo que o orçamento previsto deverá rondar os 60 mil euros.