O algarvio Amaro Antunes, principal referência do escalão júnior em 2008, irá manter-se sob uma equipa patrocinada pelo Crédito Agrícola, ao confirmar-se a transferência para equipa dirigida por Fernando Mota, com sede em Pombal, no seu primeiro ano enquanto sub-23. O campeão nacional júnior e vencedor da Taça de Portugal, da Volta a Portugal Júnior entre outras competições, aceitou a proposta da formação da região centro e evoluirá no colectivo no qual se destacam os corredores Elite, Sérgio Ruas, Nélson Sousa e Fábio Ferreira. Em 2008, o natural de Vila Real de Santo António alinhou com a camisola do Crédito Agrícola-Alcobaça, mas a passagem à categoria superior forçou-o a transferir-se para um outro bloco. Comprometido inicialmente com o Benfica, o termo do projecto de João Lagos, atrasou a definição do seu futuro, abrindo-se as portas do Crédito Agrícola.
Oito segundos foi a escassa margem que separou o excelente desempenho do Crédito Agrícola da perfeição na Volta ao Mar do Sul da China, que hoje terminou em Macau. Sabendo de antemão que a selectividade do circuito de 93 quilómetros no antigo território português era a grande oportunidade para dar a volta à classificação, a equipa de Fernando Mota trabalhou bem e conseguiu vencer a etapa por intermédio do seu chefe-de-fila, Micael Isidoro. No entanto, a desvantagem que separava Isidoro do chinês Gang Xu acabou por não ser totalmente anulada, tendo o ciclista luso terminado a competição no segundo lugar da geral individual, a 8 segundos de Gang Xu.
“Esta é uma prova muito importante no UCI Asia Tour e foi sempre disputada no máximo de intensidade. Estão as melhores selecções asiáticas e inclusive campeões olímpicos de Pequim. Estou bastante satisfeito com a prestação da equipa, dificilmente nesta altura da época poderíamos fazer melhor”, resumiu o director-desportivo, que também colocou a equipa no pódio colectivo, na terceira posição final, a 55s da Selecção do Japão, que aproveitou a derradeira jornada para desalojar os congéneres chineses do topo.
A última etapa foi composta por dez voltas a um circuito de 9,3 quilómetros. Os corredores portugueses, apesar da desvantagem de preparação face à maioria dos rivais asiáticos que já levam alguns meses de trabalho na nova época, estiveram em bom plano. Além do triunfo de Micael Isidoro, destaca-se o quarto posto de Sérgio Ruas, a 14 segundos do companheiro. Os restantes elementos do Crédito Agrícola cruzaram a meta pela seguinte ordem: Nelson Sousa (13º), a 35s, Fábio Ferreira (19º), a 55s, e Fábio Palma (59º), a 2m14s.
Na geral, Micael Isidoro ficou em segundo a oito segundos de uma vitória inesperada antes do começo da competição. Sérgio Ruas melhorou o desempenho do ano passado, quando foi 13º, e concluiu a edição 2008 da Volta ao Mar do Sul da China em 11º, a 1m51s do vencedor. Nelson Sousa foi o terceiro homem do colectivo de Pombal que representou nesta prova a Casa de Portugal em Macau, sendo o 16º, a 2m12s. Fábio Ferreira ocupou o lugar 28, a 2m50s de Gang Xu. Fábio Palma fechou as contas do Crédito Agrícola, no 57º posto, a 4m19s.
A penúltima etapa da Volta ao Mar do Sul da China, hoje disputada no circuito de 108 quilómetros em Zhuhai, deixou tudo em aberto para a discussão da vitória final e permitiu que se visse um corredor português, Fábio Ferreira (Crédito Agrícola), na discussão do triunfo na tirada. Fábio foi quarto, com o mesmo tempo do vencedor, o australiano Bradeley Hall (City of Perth Cycling Team), tendo ambos integrado o corte de sete elementos que se adiantou ao pelotão em 10 segundos. A liderança permanece em poder do chinês Gang Xu (Hong Kong HSS Institute), mantendo-se Micael Isidoro, que hoje desceu para a décima posição, como o melhor luso, a 21 segundos do primeiro.
Os restantes ciclistas nacionais terminaram a etapa de hoje no pelotão principal. Nelson Sousa foi o 11º, Sérgio Ruas entrou na 30ª posição, Micael Isidoro foi o 36º a passar o risco e Fábio Palma concluiu o esforço no lugar 68. Na geral, Micael Isidoro é o 10º, a 21 segundos do chinês que domina a competição. Nelson Sousa (23º) e Sérgio Ruas (34º) estão a 1m40s do líder, Fábio Ferreira (65º) tem um atraso de 1m58s e Fábio Palma (67º), a 2m08s da frente, fecha as contas da equipa de Pombal. Por equipas, o Crédito Agrícola subiu ao quinto lugar, a 1m30s da Selecção da China, que comanda.
A tirada de amanhã, disputada no antigo território português de Macau será decisiva, não só por ser a derradeira, mas também por ser a mais selectiva. A equipa portuguesa já conhece o percurso, em virtude de ter participado na edição transacta da prova, e o director-desportivo, Fernando Mota, já a sinalizou, ainda antes do arranque da prova deste ano, como a tirada em que o Crédito Agrícola poderá ter uma palavra a dizer para se intrometer nas contas da luta pelos lugares cimeiros.
Micael Isidoro está na disputa dos primeiros lugares da Volta ao Mar do Sul da China, depois de ter integrado a fuga vitoriosa da terceira etapa, hoje corrida no circuito de Dongguan. A tirada de 111 quilómetros foi conquistada por Li Zhang (Guangfong), o mais forte do grupo de 11 unidades que discutiu entre si a vitória nesta jornada, deixando o pelotão a 1m21s. Micael Isidoro foi o sexto, a 2 segundos do vencedor, subindo ao oitavo posto da geral individual, comandada por Gang Xu (HK Shanghai Sports Institute), que tem uma vantagem de 21 segundos sobre o ciclista português.
O circuito de Dongguan foi bastante movimentado, como bem espelha a média de 45,420 km/h alcançada pelo vencedor. A equipa portuguesa esteve bastante activa, colocando permanentemente homens nas principais iniciativas. “A prova foi perfeita, excepto pelas quatro voltas finais, onde poderíamos colocar mais um ciclista na frente. Como não foi possível, ressentiu-se a nossa colocação na classificação por equipas. O sexto lugar do Micael acabou por saber a pouco em função do trabalho realizado. A prova está mais aberta e temos que continuar com a mesma atitude nas próximas etapas. Por outro lado, o Micael está numa boa posição para disputar a geral”, resumiu o director-desportivo, Fernando Mota.
A equipa pombalense do Crédito Agrícola pedala pelo segundo ano consecutivo na Volta ao Mar do Sul da China, que se disputa em Hong Kong, de 14 a 21 de Dezembro. Correndo a convite da Casa de Portugal em Macau, o colectivo dirigido por Fernando Mota apresenta-se com cinco corredores, sendo Micael Isidoro, que competiu pela Fercase-Rota dos Móveis ao longo da época de 2008, a grande novidade. Os outros convocados são Fábio Ferreira, Fábio Palma, Nelson Sousa e Sérgio Ruas. Além de Fernando Mota e dos cinco ciclistas, a comitiva lusa conta com o massagista Raul Matias.
A Volta ao Mar do Sul da China é uma prova do escalão 2.2 – o mesmo do Troféu Joaquim Agostinho, por exemplo -, integrando o calendário continental asiático da UCI. As equipas daquele Continente partem em vantagem, pois já levam uma preparação bastante mais adiantada do que a dos corredores portugueses. Ainda assim, a experiência adaquirida por Fernando Mota e pelos seus pupilos na edição transacta poderá ser determinante para a obtenção de melhores resultados.
A participação do Crédito Agrícola na 12ª edição da corrida, em Dezembro de 2008, teve em Sérgio Ruas o melhor elemento, na 13ª posição da geral individual.
As expectativas de Fernando Mota na imprensa macaense.
Sempre frontal e sem medo de ser polémico, José Santos, o director-desportivo há mais anos em actividade no ciclismo profissional luso fala sobre o actual estado da modalidade, aponta o dedo ao que considera errado e passa em revista os serviços prestados pelo Boavista ao ciclismo português. Sem medo de criticar a dopagem, José Santos apela a uma mudança de mentalidades.
Como se dá a sua chegada ao ciclismo?
Foi em 1969, já lá vão quase 40 anos. Estive ligado a várias iniciativas: o ciclismo juvenil na Direcção-Geral dos Desportos, a fundação da Associação de Cicloturismo do Norte, também tive uma acção intensa no ciclismo popular. Mais tarde, fundei o Jornal Ciclismo e, durante sete anos, impulsionei o ciclocrosse em Portugal, organizando quase 20 provas por ano. Por contingências várias, não continuei e o ciclocrosse acabou em Portugal. Este ano ainda estudei a hipótese de retomar essa modalidade, mas desisti da ideia, porque não havia equipas nem atletas interessados.
Entretanto, também foi ciclista.
Sim, representei alguns clubes importantes: Coelima, Benfica, FC Porto. Fiz duas voltas a Portugal e concluí-as. Fui campeão nacional de pista, mas foi uma carreira um bocado em diagonal.
Como se dá a sua chegada ao Boavista?
O meu pai era o treinador e eu escrevia n’O Comércio do Porto. Acabou por proporcionar-se a minha entrada para o clube e cá estou há 25 anos.
Fez todo um percurso que fez de si o director-desportivo há mais tempo em actividade no ciclismo profissional português. Que balanço faz e que mudanças se observaram?
É verdade. Já tenho quase 30 voltas a Portugal no currículo. As mudanças não foram muitas. Os problemas que havia mantêm-se. Cheguei a ser seleccionador e director-técnico nacional. As reformas que então foram ensaiadas não tiveram grande repercussão, havendo pouca evolução da modalidade. Apesar de tudo, o ciclismo é das modalidades com melhor nível de organização em Portugal.
Isso não evitou que o ciclismo tenha perdido parte substancial da importância pública.
A causa foi a passagem das principais corridas da Empresa do Jornal de Notícias (JN) para uma entidade que não era credível e que não tinha capacidade para suportar o caderno de encargos proposto pela Federação. Além disso, era uma empresa sem capacidade, dentro da sua estrutura, para trabalhar a comunicação, coisa que o Jornal de Notícias fazia. Começou com força, através de transmissões em directo de muitas provas, mas o que é certo é que a maioria dessas corridas já não se realiza. A organização em Portugal dos Campeonatos do Mundo também afastou os média do ciclismo, porque se criou uma situação de descrédito: o país que organizava os Mundiais não os transmitiu pela televisão
Neste período deu-se também uma maior internacionalização das provas portuguesas. Foi positivo?
Não temos capacidade económica para tantas provas internacionais. Eu gostava que as nossas corridas fossem todas internacionais, mas não há suporte para isso e quase todas elas dão prejuízo. Uma corrida internacional custa quase tanto como formar uma equipa para o ano inteiro. Não temos dimensão para tantas provas internacionais. A actual situação é quase como a de um indivíduo que se desloque de Porsche, mas que não tenha dinheiro para a gasolina. Depois as dificuldades são grandes para pagar os prémios. Se a Volta ao Alentejo, por exemplo, fosse nacional, o orçamento chegava para fazer uma volta ao Baixo Alentejo e outra ao Alto Alentejo. E isso seria preferível para o ciclismo.
A ausência de um grande ídolo nacional e a saída de cena dos principais clubes não terão contribuído para a quebra de impacto da modalidade?
Penso que não. A saída do JN é que reduziu o ciclismo a uma actividade como as outras e até com menos importância. O ciclismo tem público, mas o afastamento desse grupo mediático provocou o afastamento de outros órgãos de comunicação social. Acresce que os jornais desportivos são produtos comerciais. A excessiva comercialização do jornalismo também é prejudicial.
Uma discussão cíclica respeita aos alegados benefícios dos clubes tradicionais para o ciclismo. Estando num, o Boavista, sente-se beneficiado ou prejudicado por isso?
Se houvesse mais clubes tradicionais, haveria mais público. Veja-se o caso recente do Benfica que atraiu mais público. No entanto, o inverso também é verdade e este desporto resistiu muitos anos sem os clubes. Toda a modalidade que não tenha Benfica, FC Porto e Sporting sofre com dificuldades de público e de exposição mediática.
As dificuldades financeiras do Boavista têm-se reflectido na equipa de ciclismo?
Para já, não, embora tenha alguma apreensão relativamente ao futuro. Fruto de uma gestão bastante equilibrada, temos os vencimentos todos em dia e toda a estrutura controlada. Isto foi conseguido com grande sacrifício e rigor. Mas o clube não estando bem, a secção pode vir a sofrer. A angariação de patrocinadores pode ser dificultada, porque a percepção pública da credibilidade da instituição não é a melhor.
A gestão equilibrada de que falava fez com que a equipa de ciclismo tenha mudado de objectivos constantemente, da equipa vencedora do início da década de 1990 até a desempenhos recentes mais comedidos. É fácil fazer essa transição de ambições?
Para quem gosta de ciclismo é natural. Eu gosto mais de ciclismo do que de vitórias. Somos das equipas mais antigas, porque sabemos o orçamento que temos e é com essas verbas que temos de viver, melhor nuns anos do que noutros. Quando temos ciclistas cujo vencimento ultrapassa as nossas possibilidades deixamo-los sair. Fomos a equipa portuguesa que maiores valores lançou no ciclismo nacional e internacional: José Azevedo, Jose Luis Rebollo, Josep Jufre, David Bernabeu, Adrian Palomares, Manuel Cardoso, por exemplo. Todos eles se iniciaram como profissionais no Boavista.
Tendo trabalhado com tantos corredores é possível dizer qual o melhor de todos?
Foram vários que nos marcaram e que marcaram a sua época. Houve dois corredores que marcaram mais do que todos os outros, pelo seu carisma e pelo êxito que tiveram: o Cássio Freitas e o Joaquim Gomes. Ultimamente, o Tiago Machado, o José Azevedo ou o Pedro Silva também deixaram a sua marca. O Azevedo não fez aqui grande história, embora tenha cá passado os dois anos que considero mais importantes na carreira dele, porque as duas primeiras épocas como profissional são fundamentais.
Apesar das oscilações orçamentais, o palmarés é bastante preenchido.
Vencemos todas as provas nacionais. A dada altura só nos faltava o Porto-Lisboa e a Volta ao Alentejo, mas até essas corridas ganhámos. A nível internacional, estivemos presentes em algumas das principais competições: Volta a Espanha, Critério Internacional, Dauphiné Libèrè, Volta a França do Futuro, que vencemos por equipas…
Uma série de corredores que passaram pelo clube têm hoje tarefas de gestão de equipas de sub-23. Há no Boavista o cuidado de formar os atletas para que, finda a carreira, possam continuar na modalidade?
Sempre tivemos uma política de debate com os ciclistas. Não é por acaso que o Delmino Pereira é presidente-adjunto da Federação, que o Paulo Couto dirige a APCP e uma equipa, o Fernando Mota e o Pedro Silva estão à frente de equipas… Incentivamos a colocarem de pé alguns projectos. É importante o técnico dialogar com os corredores, espicaçando-os para a discussão. Provoco o debate e isso é importante como formação para que quem ganhou dinheiro com o ciclismo possa servir depois da modalidade com novos projectos.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008