A Comissão de Apoio à Recandidatura de Pinto da Costa à presidência do FC Porto entende que o regresso do ciclismo àquele clube deve ser uma das três prioridades para o próximo mandato do dirigente. “Os sócios gostariam que o clube voltasse a ter uma equipa de ciclismo, um desporto muito querido aqui no Norte. Já demos esse repto ao presidente”, disse ao Jornal de Notícias Fernando Cerqueira, o rosto do movimento de apoio a Pinto da Costa. Além do ciclismo, as outras prioridades dos adeptos portistas são a criação de um museu e a abertura de um espaço de convívio entre sócios e simpatizantes do clube.
Sempre frontal e sem medo de ser polémico, José Santos, o director-desportivo há mais anos em actividade no ciclismo profissional luso fala sobre o actual estado da modalidade, aponta o dedo ao que considera errado e passa em revista os serviços prestados pelo Boavista ao ciclismo português. Sem medo de criticar a dopagem, José Santos apela a uma mudança de mentalidades.
Como se dá a sua chegada ao ciclismo?
Foi em 1969, já lá vão quase 40 anos. Estive ligado a várias iniciativas: o ciclismo juvenil na Direcção-Geral dos Desportos, a fundação da Associação de Cicloturismo do Norte, também tive uma acção intensa no ciclismo popular. Mais tarde, fundei o Jornal Ciclismo e, durante sete anos, impulsionei o ciclocrosse em Portugal, organizando quase 20 provas por ano. Por contingências várias, não continuei e o ciclocrosse acabou em Portugal. Este ano ainda estudei a hipótese de retomar essa modalidade, mas desisti da ideia, porque não havia equipas nem atletas interessados.
Entretanto, também foi ciclista.
Sim, representei alguns clubes importantes: Coelima, Benfica, FC Porto. Fiz duas voltas a Portugal e concluí-as. Fui campeão nacional de pista, mas foi uma carreira um bocado em diagonal.
Como se dá a sua chegada ao Boavista?
O meu pai era o treinador e eu escrevia n’O Comércio do Porto. Acabou por proporcionar-se a minha entrada para o clube e cá estou há 25 anos.
Fez todo um percurso que fez de si o director-desportivo há mais tempo em actividade no ciclismo profissional português. Que balanço faz e que mudanças se observaram?
É verdade. Já tenho quase 30 voltas a Portugal no currículo. As mudanças não foram muitas. Os problemas que havia mantêm-se. Cheguei a ser seleccionador e director-técnico nacional. As reformas que então foram ensaiadas não tiveram grande repercussão, havendo pouca evolução da modalidade. Apesar de tudo, o ciclismo é das modalidades com melhor nível de organização em Portugal.
Isso não evitou que o ciclismo tenha perdido parte substancial da importância pública.
A causa foi a passagem das principais corridas da Empresa do Jornal de Notícias (JN) para uma entidade que não era credível e que não tinha capacidade para suportar o caderno de encargos proposto pela Federação. Além disso, era uma empresa sem capacidade, dentro da sua estrutura, para trabalhar a comunicação, coisa que o Jornal de Notícias fazia. Começou com força, através de transmissões em directo de muitas provas, mas o que é certo é que a maioria dessas corridas já não se realiza. A organização em Portugal dos Campeonatos do Mundo também afastou os média do ciclismo, porque se criou uma situação de descrédito: o país que organizava os Mundiais não os transmitiu pela televisão
Neste período deu-se também uma maior internacionalização das provas portuguesas. Foi positivo?
Não temos capacidade económica para tantas provas internacionais. Eu gostava que as nossas corridas fossem todas internacionais, mas não há suporte para isso e quase todas elas dão prejuízo. Uma corrida internacional custa quase tanto como formar uma equipa para o ano inteiro. Não temos dimensão para tantas provas internacionais. A actual situação é quase como a de um indivíduo que se desloque de Porsche, mas que não tenha dinheiro para a gasolina. Depois as dificuldades são grandes para pagar os prémios. Se a Volta ao Alentejo, por exemplo, fosse nacional, o orçamento chegava para fazer uma volta ao Baixo Alentejo e outra ao Alto Alentejo. E isso seria preferível para o ciclismo.
A ausência de um grande ídolo nacional e a saída de cena dos principais clubes não terão contribuído para a quebra de impacto da modalidade?
Penso que não. A saída do JN é que reduziu o ciclismo a uma actividade como as outras e até com menos importância. O ciclismo tem público, mas o afastamento desse grupo mediático provocou o afastamento de outros órgãos de comunicação social. Acresce que os jornais desportivos são produtos comerciais. A excessiva comercialização do jornalismo também é prejudicial.
Uma discussão cíclica respeita aos alegados benefícios dos clubes tradicionais para o ciclismo. Estando num, o Boavista, sente-se beneficiado ou prejudicado por isso?
Se houvesse mais clubes tradicionais, haveria mais público. Veja-se o caso recente do Benfica que atraiu mais público. No entanto, o inverso também é verdade e este desporto resistiu muitos anos sem os clubes. Toda a modalidade que não tenha Benfica, FC Porto e Sporting sofre com dificuldades de público e de exposição mediática.
As dificuldades financeiras do Boavista têm-se reflectido na equipa de ciclismo?
Para já, não, embora tenha alguma apreensão relativamente ao futuro. Fruto de uma gestão bastante equilibrada, temos os vencimentos todos em dia e toda a estrutura controlada. Isto foi conseguido com grande sacrifício e rigor. Mas o clube não estando bem, a secção pode vir a sofrer. A angariação de patrocinadores pode ser dificultada, porque a percepção pública da credibilidade da instituição não é a melhor.
A gestão equilibrada de que falava fez com que a equipa de ciclismo tenha mudado de objectivos constantemente, da equipa vencedora do início da década de 1990 até a desempenhos recentes mais comedidos. É fácil fazer essa transição de ambições?
Para quem gosta de ciclismo é natural. Eu gosto mais de ciclismo do que de vitórias. Somos das equipas mais antigas, porque sabemos o orçamento que temos e é com essas verbas que temos de viver, melhor nuns anos do que noutros. Quando temos ciclistas cujo vencimento ultrapassa as nossas possibilidades deixamo-los sair. Fomos a equipa portuguesa que maiores valores lançou no ciclismo nacional e internacional: José Azevedo, Jose Luis Rebollo, Josep Jufre, David Bernabeu, Adrian Palomares, Manuel Cardoso, por exemplo. Todos eles se iniciaram como profissionais no Boavista.
Tendo trabalhado com tantos corredores é possível dizer qual o melhor de todos?
Foram vários que nos marcaram e que marcaram a sua época. Houve dois corredores que marcaram mais do que todos os outros, pelo seu carisma e pelo êxito que tiveram: o Cássio Freitas e o Joaquim Gomes. Ultimamente, o Tiago Machado, o José Azevedo ou o Pedro Silva também deixaram a sua marca. O Azevedo não fez aqui grande história, embora tenha cá passado os dois anos que considero mais importantes na carreira dele, porque as duas primeiras épocas como profissional são fundamentais.
Apesar das oscilações orçamentais, o palmarés é bastante preenchido.
Vencemos todas as provas nacionais. A dada altura só nos faltava o Porto-Lisboa e a Volta ao Alentejo, mas até essas corridas ganhámos. A nível internacional, estivemos presentes em algumas das principais competições: Volta a Espanha, Critério Internacional, Dauphiné Libèrè, Volta a França do Futuro, que vencemos por equipas…
Uma série de corredores que passaram pelo clube têm hoje tarefas de gestão de equipas de sub-23. Há no Boavista o cuidado de formar os atletas para que, finda a carreira, possam continuar na modalidade?
Sempre tivemos uma política de debate com os ciclistas. Não é por acaso que o Delmino Pereira é presidente-adjunto da Federação, que o Paulo Couto dirige a APCP e uma equipa, o Fernando Mota e o Pedro Silva estão à frente de equipas… Incentivamos a colocarem de pé alguns projectos. É importante o técnico dialogar com os corredores, espicaçando-os para a discussão. Provoco o debate e isso é importante como formação para que quem ganhou dinheiro com o ciclismo possa servir depois da modalidade com novos projectos.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008
Acha que há um problema de recursos humanos no ciclismo?
Sem dúvida. As pessoas são as mesmas há muitos anos. Veja há quantos anos está o presidente da federação nesse cargo. Os dirigentes são sempre os mesmos. Os técnicos das equipas, mesmo não sendo velhos, mantêm-se há anos. Os comissários são sempre os mesmos. Já eram maus no meu tempo, agora continuam na mesma – não aprendem!
Estaria disponível para voltar ao activo, com a sua equipa, para mudar o que entende estar mal?
Nenhum elemento que esteve comigo no JN está agora no activo no ciclismo. Vários foram convidados, com boas promessas de ordenados, e ninguém aceitou.
Se calhar, com um convite seu voltariam.
Uma pessoa só pode entrar num barco destes se tiver um suporte por detrás, era preciso ter o apoio de uma grande empresa jornalística, que garantisse apoio financeiro e visibilidade mediática. Com essas condições reunidas, brincava com a federação e com a UCI. O ciclismo português tem especificidades muito próprias: não tem dinheiro, não tem corredores, não tem nada. O ciclismo português é uma utopia. O pouco que existe é fruto do entusiasmo de poucas pessoas.
O regresso dos clubes grandes poderia dar novo impulso?
Houve uma época em que achei que não. Actualmente, tenho dúvidas. Não sei se um eventual regresso do FC Porto e do Sporting resolveria alguma coisa. É certo que trariam mais gente à estrada, mas criavam problemas decorrentes das rivalidades, que hoje se manifestam no futebol e que contribuiriam para uma descredibilização ainda maior do ciclismo.
Há falta de novas figuras por falta de matéria-prima ou até há bons ciclistas que têm pouco destaque porque a cobertura das provas é diminuta e os feitos são pouco projectados?
Também é verdade que as vitórias são quase clandestinas. Mas, por exemplo, o Nuno Ribeiro ganhou uma Volta e nunca mais fez nada. O José Azevedo podia ter uma carreira brilhante, mas preferiu ser aguadeiro… São opções. A verdade é que poucas vitórias teve. Falta-nos uma figura a sério, que se imponha. Isto com um Agostinho…
Como vê a vinda para Portugal de corredores citados na “Operação Puerto”?
Somos o estertor, apanhamos o lixo todo. Não sei se esses rapazes estavam envolvidos ou não. E venha o primeiro ciclista que me diga a mim que nunca tomou nada. Chamo-lhe mentiroso. No entanto, esses espanhóis, que ninguém quer em lado nenhum, vêm para cá porquê? Porque somos uma merda. O ciclismo tem voltar a crescer e não é com esses gajos, que vêm cá só para sacar o deles. Assim não vamos a lado nenhum.
O seu discurso é muito pessimista. Acha que o ciclismo ainda faz sentido e ainda é popular?
Nada que se compare com o passado. Sou do tempo em que milhares de pessoas iam para a porta do JN ler no painel quem passou primeiro na Vidigueira. Isso acabou. As rádios já não dão as reportagens em directo. Nas chegadas há pouco público. Até com o “zé pagode” correram.
Que grandes memórias guarda do ciclismo?
Lidei com “n” presidentes da federação. Com todos me dei bem e de todos fui grande amigo. Sou amigo do Artur Lopes, porque digo mal dele. Mas eu digo mal dele é como dirigente, não é como pessoa. Ele como presidente da federação é um bom cirurgião, porque é um atraso de vida para o ciclismo português. Isso acontece desde que foi para a UCI.
Tem um discurso pessimista, mas seria necessário encontrar uma solução para que daqui a dez anos pudéssemos falar na Volta a Portugal como o grande acontecimento desportivo do Verão.
A Volta a Portugal não tem mais de cinco anos de vida, se a modalidade continuar como está. Ou o João Lagos abre os olhos e impede os senhores da federação de mandar ou acaba a Volta a Portugal. Sei que o contrato para organização da Volta foi renovado até 2013. São os tais cinco anos de vida. O senhor João Lagos, que é um homem de prestígio, quantas vezes aparece na Volta a Portugal? Isso é significativo.
Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 6 de Fevereiro de 2008
A equipa espanhola Licor 43 esteve no pelotão velocipédico entre 1958 e 1964. Logo no ano de estreia ficou célebre em Portugal, por trágicos motivos: dois dos seus corredores, Joaquim Polo e Raul Motos morreram durante a primeira etapa da Volta a Portugal, que ligava Lisboa a Alpiarça. A causa oficial dos óbitos foi insolação, mas já na altura havia suspeitas de uso e abuso de substâncias proibidas, pelo que ficou a suspeita. Nos anos seguintes, o colectivo patrocinado por uma bebida que ainda hoje existe no mercado, regressou a terras lusas, tendo vencido por equipas a Volta de 1960, cujo vencedor individual foi Sousa Cardoso (FC Porto). Nesse ano, a Licor 43 colocou três homens nos dez primeiros da principal corrida portuguesa, além de ter ganho duas etapas. Outros sucessos foram obtidos pelos homens do Licor 43, como o triunfo no campeonato de Espanha de 1959 por intermédio de Antonio Suarez Vazquez, vencedor da Vuelta do mesmo ano.
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O recordista de vitórias na Volta a Portugal, Marco Chagas, deu por terminada a sua carreira em 1990. Depois de ter representado colectivos com o prestígio do FC Porto ou do Sporting, colocou um ponto final na sua vida de ciclista ao serviço de um colectivo mais modesto, mas de uma região onde a modalidade está fortemente enraizada e onde, ainda hoje, a bicicleta é muito utilizada como meio de transporte quotidiano. Foi com as cores azul e amarelo do Orima-Cantanhede que Marco Chagas se despediu das estradas. A equipa era dirigida por Vítor Oliveira e Marco Chagas tinha, entre outros, como companheiro de equipa Jacinto Paulinho, pai do vice-campeão olímpico Sérgio Paulinho. Marco Chagas soube deixar o ciclismo na altura certa, quando ainda se mantinha muito competitivo. Prova disso é o quinto lugar final alcançado na Volta a Portugal desse ano, ganha de forma emocionante, no último dia, por Fernando Carvalho, que aproveitou um contra-relógio com final no estádio da Maia para roubar a camisola amarela a Joaquim Gomes. A equipa publicitando os electrodomésticos Orima esteve nas estradas entre 1988 e 1991, tendo Cantanhede regressado anos mais tarde ao pelotão principal sob a designação de Cantanhede-Marquês de Marialva. Nas camadas jovens, o clube ainda hoje continua a dar cartas.
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