A Comissão Executiva do Comité Olímpico Internacional (COI) aprovou hoje as mudanças propostas pelas respectivas federações internacionais ao programa de eventos dos próximos Jogos Olímpicos de Verão.
As mudanças no ciclismo foram propostas pela União Ciclista Internacional – ver aqui factores de decisão – visando reforçar a componente feminina do programa de ciclismo de pista. Assim, na pista, o calendário de 10 eventos passa a ser repartido de igual forma pelos dois géneros que irão competir em provas de Perseguição por equipas, Velocidade, Velocidade por equipas, Keirin e o mais recente Omnium.
As alterações promovidas pela UCI com o aval do COI elevam para o número de ciclistas femininos na pista para um total de 84 participantes contra os 35 de Pequim.
Comité Olímpico Internacional decide provas olímpicas para Londres 2012. A UCI quer excluir a perseguição individual. A polémica está lançada
João Santos
A polémica está lançada e a argumentação, no mínimo, é frágil. Em busca da paridade, do equilíbrio entre géneros, o programa olímpico para os Jogos de Londres 2012 vai mudar numa decisão que se prevê anunciada para o final da semana pelo Comité Olímpico Internacional (COI).
Na base da mudança está a necessidade de estabelecer o mesmo número de provas para ambos os sexos, uma tentativa de equilíbrio decretada pelo COI e que, com o apoio da União Ciclista Internacional (UCI), poderá reduzir o programa olímpico a cinco eventos: a Velocidade, a Velocidade por equipas, a Perseguição por Equipas, Keirin e o recente Omnium.
Neste novo programa, a perseguição individual, a corrida por pontos e o Madison ficarão de fora, gerando a contestação própria em redor de qualquer disciplina que perde estatuto olímpico. A escolha mais polémica – e potencialmente mais descuidada – refere-se à perseguição individual uma prova clássica do programa de ciclismo de pista e dos próprios Jogos Olímpicos desde a especialidade foi introduzida, nos Jogos de Tóquio, em 1964.
No ano passado,em Pequim, o ciclismo de pista repartiu-se por um programa de uma dezena de eventos, dos quais sete foram provas masculinas – sete foi igualmente o número de medalhas conquistadas pela Grã-Bretanha – conta apenas três eventos para atletas femininas.
Com a introdução da “lei da paridade”, a comissão de pista da UCI decidiu-se pela exclusão da perseguição individual em favor do “Omnium”, um conjunto de cinco provas numa espécie de pentatlo moderno do ciclismo em pista.
O problema é que, por ora, poucos se interessam pelo Omnium, ao passo que dificilmente se poderá dizer o mesmo da perseguição individual, a prova em vias de exclusão com mais “peso” e tradição. Além da paridade – argumento que só por si merece discussão à parte - estão em causa os critérios de escolha anunciados pela Comissão de pista da UCI: a manutenção do interesse do público durante os cinco dias de provas e a salvaguarda geral que o programa global de ciclismo permaneça nos Jogos quando já foi, recorde-se, ameaçado de exclusão, após os crónicos problemas com dopagem na Volta a França e, ainda recentemente, com os “positivos” de Isabel Moreno – a primeira atleta excluída dos Jogos de Pequim por dopagem – e, mais tarde, de Davide Rebellin.
Em redor da TV – outro potencial elemento de decisão -, o COI deverá acatar a decisão da comissão de pista da UCI que, publicamente, delibera a favor do Omnium. De discipina praticamente desconhecida e recuperada ao ponto de apenas ter três Campeonatos do Mundo disputados a evento olímpico tudo se processa no seio da Comissão de Pista da UCI.
“Gostaria de manter a perseguição, tal como o Madison e a corrida por pontos, mas estamos perante uma situação que, em 2013, será reavaliada e um dos desportos olímpicos será eliminado. Não podemos colocar o ciclismo numa posição em que se arrisque a ficar de fora do programa”, avaliou Pat McQuaid, presidente da União Ciclista Internacional (UCI) à revista norte-americana Velonews, que tem acompanhado o caso ao pormenor de revelar os eventuais interesses particulares dos membros da comissão de pista, quase todos organizadores de provas.
Mas o que poderá afectar o espírito de McQuaid, o que ele poderá sugerir nas entrelinhas das suas declarações, é mesmo a ameaça de exclusão do ciclismo dos Jogos Olímpicos. Ainda que pouco plausível, é a sombra do doping que ainda paira no ar.
Sendo que a prova de perseguição individual é aquela que mais facilmente se adapta à participação de corredores de estrada pelas suas características de “endurance”, esse elemento é, em simultâneo, a sua maior força e a sua maior fragilidade. Por um lado, a prova de perseguição individual sempre foi valorizada pela presença de corredores de estrada cujo exemplo mais recente é o do britânico Bradley Wiggins, medalha de ouro em Pequim e em Atenas e que evoluiu ao ponto de terminar quarto classificado na Volta a França, ultrapassando por larga escala a popularidade média do ciclista de pista. Por outro lado, a presença de “estradistas” em eventos de pista poderá, à escala de McQuaid, significar um ponto desfavorável à prova de perseguição individual pretendendo a UCI, de forma indirecta, delimitar a participação destes atletas nos Jogos Olímpicos.
Se a decisão, em teoria, não afecta o ciclismo português – apenas significa eliminar o passado de um evento com pergaminhos no movimento olímpico nos quais os portugueses passaram ao lado – a mesma também não o beneficiará. Sabendo-se da dificuldade acrescida que significa formar atletas nas vertentes mais específicas da pista – velocidade é o melhor exemplo -. perante a mais fácil adaptação de ciclistas de estrada às disciplinas de maior resistência – corrida por pontos, perseguição por equipas e perseguição individual – é caso para dizer que a retirada da perseguição individual é mais uma pedra no caminho do desenvolvimento da pista em Portugal.
Foto: Bradley Wiggins da pista ao quarto lugar do Tour 2009 / Bike Radar
1) O Omnium é composto pelos seguintes eventos: 200 metros com partida lançada; uma corrida de eliminação de cinco quilómetros; 3 quilómetros de perseguição individual; uma corrida por pontos com 15 quilómetros; uma prova de um quilómetro. Ao vencedor de cada evento é atribuído um ponto, aumentando à medida da descida da tabela. O vencedor geral é aquele que somar menor pontuação.
2) O Omnium entrou para o programa dos campeonatos do mundo de pista pela primeira vez em 2007. Nesse ano, em Palma de Maiorca, foi campeão o checo Alois Ka?kovský. Em 2009, o campeão mundial é o australiano Leigh Howard.
3) Notáveis campeões mundiais em perseguição individual: Roger Rivière, Chris Boardman, Graeme Obree, Bradley Wiggins.