Os irmãos Rui Costa e Mário Costa deverão ser sujeitos a um ano de suspensão, já que o Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) rejeitou ontem a pretensão da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) de reduzir a pena a quatro meses e quinze dias.
“O CNAD não concorda com a proposta de decisão, pois o Artigo 10.5.2 do Código Mundial Antidopagem define que a atenuação não pode ser superior a metade da pena prevista para a infracção em causa, que no caso em apreço é de 2 a 8 anos”, lê-se no parecer dado a ambos os casos. Esta posição significa que o CNAD não aceita uma sanção inferior a um ano de castigo.
A aplicação da pena cabe ao Conselho Disciplinar da FPC, que poderá insistir nos quatro meses e quinze dias de sanção. No entanto, se isso suceder, o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, Luís Horta, poderá avocar o processo e sujeitar os corredores ao castigo que entenda conveniente.
Rui Costa e Mário Costa acusaram a presença de metilhexaneamina nas amostras colhidas após o campeonato nacional de contra-relógio, disputado em 25 de Junho com triunfo de Rui Costa e terceiro lugar do irmão. Os ciclistas alegam que não tiveram intenção de dopar-se e que a presença daquela substância deve-se à ingestão de um suplemento alimentar contaminado com o produto proibido, que não constava do rótulo. A betetista Joana Barbosa deu a mesma justificação para um “positivo” em tudo idêntico.
Na próxima época, a metilhexaneamina deixa de ser considerada uma substância específica, pelo que a atenuação poderá ser superior a metade da pena mínima prevista.
Contactado pelo Jornal Ciclismo, Rui Costa não fiz fazer qualquer comentário ao parecer do CNAD. O corredor prefere esperar pelo desfecho do processo para tomar posição.
A lei 27/2009, que estabelece o regime jurídico da luta contra a dopagem no desporto, foi hoje publicada na 1.ª série do Diário da República. Com VI capítulo e 78 artigos a nova lei transpõe para Portugal o Código Mundial Antidopagem e a sua última revisão – 2007 – possibilitando a punição com castigos mais severos de que é exemplo, a pena de dois a oito anos numa primeira infracção.
No mesmo diploma estabelece -se a criação da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADop), nova organização nacional antidoping com responsabilidades directas no controlo e na luta contra o doping no desporto, em substituição da actual estrutura, o Conselho Nacional Antidopagem (CNAD).
Por sua vez, a criminalização do tráfico de substâncias ilícitas para fins de dopagem encontra-se igualmente patente na nova lei, com penas de prisão de seis meses a três anos. A administração, com ou sem consentimento de substâncias ou métodos proibidos será igualmente alvo de acção penal com pena de prisão de seis meses a dois anos ou multa de 500 dias.
O presidente do Grupo de Trabalho que estuda a proposta de lei que estabelece o novo regime jurídico da luta contra a dopagem no desporto considerou hoje que Portugal está na vanguarda do combate ao doping, com uma das legislações mais modernas.
“Todos somos poucos para o combate ao doping. Na luta contra os batoteiros não se pode dar tréguas. Portugal tem uma legislação moderna e tem estado sempre na vanguarda da luta contra a dopagem”, disse Hermínio Loureiro.
O deputado do PSD, e também presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, falava após a audição parlamentar da proposta de lei, já aprovada na generalidade, onde os vários representantes do movimento desportivo presentes deram os seus contributos, que vão ser agora analisados pelo grupo de trabalho.
Hermínio Loureiro considera que na audição o grupo foi confrontado com um “conjunto significativo” de questões que necessitam de ser “esclarecidas e trabalhadas” em sede de comissão parlamentar e do próprio grupo de trabalho.
Questões essas que têm a ver, nomeadamente, com a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), em relação à privacidade dos atletas e que tem levantado a discussão.
Por um lado, Luís Silveira, da CNPD, considera que levanta “fortes objecções em termos de dados pessoais”, por outro, os presidentes das federações portuguesas de ciclismo e atletismo, Artur Lopes e Fernando Mota, respectivamente, contrapõem que os controlos antidoping fora de competição “são fundamentais” e “essenciais” na luta contra o fenómeno.
“Não é ir contra a vida privada de um atleta saber onde ele está a treinar duas a três horas num dia”, recordou Artur Lopes.
Hermínio Loureiro lembrou ainda as questões de constitucionalidade levantadas na audição pelo presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol, Joaquim Evangelista, além da questão relacionada com a avocação dos processos disciplinares por parte da ADoP (Autoridade Antidopagem de Portugal), considerando que pode haver “algum conflito”.
A questão foi suscitada por João Leal, responsável pelo gabinete jurídico da Federação Portuguesa de Futebol, que vê na proposta de lei “uma ingerência do Estado na administração pública desportiva e justiça desportiva” no caso dos processos disciplinares.
Hermínio Loureiro sublinhou ainda que ficou patente na audição que o movimento desportivo está unido na luta pela “tolerância zero” do doping no desporto.
“Tratámos de auscultar o movimento associativo, que apresentou sugestões, críticas e dúvidas, deixando contributos preciosos de quem no terreno sente as dificuldades”, explicou.
Hermínio Loureiro considerou ainda como questão “muito relevante” a prevenção e o trabalho que a educação pode ter no processo de luta contra o doping.
“As próprias federações têm responsabilidade na elaboração de planos de promoção dos valores da ética, respeito e fair-play, que é uma matéria muito sensível. Temos de ter uma atitude de alerta para os malefícios e também para a batotice que por via de substâncias dopantes alterar comportamentos”, avançou.
Para o responsável, há que ter uma “atitude preventiva e só depois punitiva”.
Se os prazos se mantiverem, a proposta de lei nº238/X irá a discussão na especialidade a 07 de Abril, depois de na próxima semana, a 24, o grupo de trabalho terminar a proposta após ouvidas as propostas dos diversos grupos parlamentares e do movimento associativo.
O documento pretende incorporar na lei “o que está previsto no Código Mundial Antidopagem, aprovado em 2003 e revisto em 2007, e vai ao encontro da Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto.
A desclassificação por dopagem de José Martins (Casactiva-Quinta das Arcas-Aluvia) faz de João Benta, segundo classificado na estrada, o provável vencedor da Volta a Portugal do Futuro, que se disputou em julho. De acordo com a edição de hoje do jornal A Bola, foram detectados valores anormais do rácio testosterona/epitestosterona nos controlos efectuados a José Martis durante a prova, pelo que o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Ciclismo o suspendeu por 20 meses, aplicando-lhe ainda uma multa de 2493 euros. O corredor de Fafe vai recorrer da decisão, mas a confirmar-se a suspensão, o triunfo na Volta a Portugal do Futuro passa para João Benta (SM Feira-E. Lelcerc-Moreira Congelados), que em 2009 será neoprofissional na Madeinox-Boavista.
De acordo com A Bola o rácio de testosterona/epitestosterona encontrado em José Martins encontra-se perto dos valores – 11/1 – encotrados em Floyd Landis, quando este foi desclassificado na Volta a França. Os regulamentos indicam que o controlo é positivo desde que o referido rácio seja superior à relação 4/1.
José Martins garantiu ao Jornal Ciclismo que é inocente e que vai recorrer da decisão. “Vou avançar com um recurso para provar aquilo que é a realidade, ou seja, a minha inocência. Nunca tomei nada nem os testes provam que tomei o que quer que seja. Não se pode condenar ninguém com base em suspeitas. Estou a tratar de contratar um advogado para estudar com ele os passos a dar no sentido de provar a minha inocência”, frisou o corredor.
“Já nem penso no caso da suspensão nem em voltar a correr, quero apenas provar que sou inocente”, sublinhou o natural de Fafe, que, com base neste caso, perde o contrato que havia firmado com o Paredes Rota dos Móveis para 2009, ficando desempregado.
Também contactado pelo Jornal Ciclismo, o director-desportivo da Casactiva-Quinta das Arcas-Aluvia, José Barros, foi parco em palavras. “O atleta vai recorrer e a equipa apoia o atleta”, foram as únicas declarações que o técnico quis prestar. Recorde-se que durante a Volta a Portugal do Futuro foram várias as equipas adversárias que criticaram a superioridade do colectivo valonguense, havendo nas partidas e chegadas constantes insinuações de que os corredores da Casactiva poderiam estar dopados. A desconfiança apenas acalmou quando uma brigada do Conselho Nacional Antidopagem surgiu, de surpresa, no hotel da equipa e controlou os atletas, quando a corrida estava sensivelmente a meio.
O Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) considera que a decisão do Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) de ilibar João Cabreira “não tem sentido” e pondera remeter o caso para a Agência Mundial Antidopagem (AMA), informa a Lusa. Uma fonte da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto garantiu à agência noticiosa que irá analisar a deliberação da entidade federativa para, eventualmente, enviá-la à AMA, que tem competência para recorrer junto do Tribunal Arbitral do Desporto.
Recorde-se que João Cabreira havia sido suspenso por dez meses na sequência de um controlo antidopagem falhado, em Julho. Na altura, alegadamente em férias no País Basco, o ciclista deu uma morada dessa região ao CNAD para que pudesse ser controlado fora de competição. Uma brigada antidpogem ter-se-á deslocado ao sítio indicado por João Cabreira, garantindo que se tratava de uma morada falsa, pois terá deparado com um edifício devoluto.
A fonte governamental citada pela Lusa advoga que a ilibação ontem tornada pública “não tem sentido, porque o acórdão jurisdicional analisa questões de procedimento e passa por cima da questão da morada falsa”.
Se o Estado português pondera o recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto, via AMA, João Cabreira garantiu ontem que estuda a possibilidade de processar os médicos que lhe abriram o procedimento disciplinar.
O campeão nacional de fundo, João Cabreira, viu o Conselho Jurisdicional da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) dar-lhe razão, anulando a suspensão de dez meses que lhe fora aplicada, em virtude de, alegadamente, falhar um controlo antidopagem fora de competição, em Julho. O organismo de recurso da FPC reduziu ainda a pena de suspensão aplicada a Pedro Cardoso, cuja paragem passa de um ano para seis meses. Pedro Cardoso acusou uma substância proibida no GP Internacional Paredes Rota dos Móveis, mas alegou ter autorização terapêutica para tomar o medicamento em causa. O Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) alega não ter recebido a documentação enviada pelo corredor com a respectiva autorização. Não anulando a pena, o Conselho Jurisdicional assume a culpa do atleta, pelo que este fica perde o triunfo no GP Internacional Paredes Rota dos Móveis para o seu então companheiro de equipa Constantino Zaballa.
Na sequência da decisão hoje conhecida, João Cabreira admite processar os médicos do CNAD que lhe instauraram o processo. “Estou com a carreira em risco, por ver o meu bom nome manchado por estas pessoas. É importante que percebam que têm de ser responsabilizadas, vão ter de responder por isto. Se houver matéria, vou processar os médicos que avançaram com este processo”, disse à Agência Lusa o corredor da Póvoa de Varzim, de 26 anos.
João Cabreira foi um dos dois corredores portugueses da equipa LA-MSS que ficaram de fora da investigação desenvolvida pela Polícia Judiciária – o outro foi Bruno Pires. Todos os restantes companheiros de nacionalidade lusa, incluindo Pedro Cardoso, acabaram suspenses preventivamente pela FPC na sequência das diligências policiais. A FPC recebeu há semanas um segundo relatório da investigação criminal, a partir do qual se espera que o respectivo Conselho Disciplinar tome medidas: aplicar sanções ou ilibar os elementos suspensos – além dos corredores, o presidente do clube, Luís Almeida, o director-desportivo, Manuel Zeferino, e o massagista Paulo Oliveira Silva.
Cumpre-se hoje meio ano desde que a face visível da investigação policial à equipa de ciclismo profissional LA-MSS se revelou, com uma operação de busca em casa dos corredores, direcção desportiva e sede da equipa. Seis meses após essas buscas mediáticas, o processo desdobrou-se em dois tabuleiros cujo desenlace parece estar à vista: a consolidação de eventuais provas dirá em breve se o inquérito passará a acusação e possível julgamento da prática de crimes de dopagem e corrupção no desporto, tal como o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) se pronunciará sobre o caso, sabendo-se que, para já, continua a auscultação dos corredores suspensos.
As últimas notícias apontam para alguns desenvolvimentos. A FPC já recebeu um segundo relatório com resultados das análises feitas no estrangeiro aos produtos apreendidos pela Polícia Judiciária e que não tinham qualquer rótulo. Além disso, o presidente da FPC, Artur Lopes, admitiu haver duas amostras recolhidas aquando da operação de 19 de Maio em que foram encontradas “substâncias anormais”, pelo que está a decorrer um processo sobre essa matéria.
Em termos de responsabilidade criminal, há por enquanto dois arguidos, Cláudio Faria e Afonso Azevedo. Mas uma fonte citada pela Agência Lusa, não exclui a possibilidade de virem a ser constituídos outros arguidos num caso que se arrasta e que está a provocar o desespero dos envolvidos, que não recebem salários há quatro meses. Alguns elementos estão até a accionar o fundo de garantia bancária, embora o principal patrocinador, Luís Almeida, não esteja pelos ajustes e pretenda ser ressarcido dos prejuízos que, alega, a situação lhe criou. Ou se confirmam as suspeitas e a equipa/empresa tem razões para despedimentos por justa causa ou não se confirmam e o empresário poderá pensar em processar as instâncias que levaram ao afastamento da equipa das estradas.
Uma revisão da cronologia dos eventuais factos relevantes do ano da LA-MSS mistura resultados desportivos – que não passaram incólumes sob o pior dos estigmas do ciclismo, a suspeita – com acontecimentos de valor extra-desportivo, como o caso da trágica desaparição de Bruno Neves, vítima de uma insuficiência respiratória aguda, seguida de arritmia cardíaca, em pleno esforço na Clássica de Amarante, a 11 de Maio.
O inquérito judicial que se revelou a 19 de Maio, uma semana após a vitória de Pedro Cardoso e da equipa no GP Internacional de Paredes abriu uma recomendação da FPC à exclusão de LA-MSS das provas portuguesas, mais tarde substituída, em Junho, pela suspensão de nove elementos da equipa. Afonso Azevedo, Cláudio Faria, Pedro Cardoso, Rogério Baptista e Tiago Silva, o presidente do Póvoa Cycling Clube Luís Almeida, o director-desportivo, Manuel Zeferino, o médico espanhol, Marcos Maynar, e o massagista Paulo Silva foram suspensos alegadamente após conhecidos os resultados preliminares do material apreendido aquando das buscas efectuadas pela PJ, com a colaboração do CNAD.
A suspensão de parte nuclear da equipa ocorre dois dias antes da disputa dos Campeonatos Nacionais, a 29 de Junho. Os dois únicos corredores portugueses não suspensos, tomaram parte na prova em Paredes, tendo pedalado contra as adversidades até à vitória, com o título conquistado por João Cabreira. A última competição oficial na qual a LA-MSS tomou parte, nessa altura já decapitada pela demissão do presidente Luís Almeida foi a Volta a Madrid a Clássica de Villafranca de Ordizia, na qual Bruno Pires foi segundo classificado.
Com a decisão de exclusão da equipa da Volta a Portugal, a actividade desportiva da equipa esgotou-se, confirmando o receio de continuidade do projecto de ciclismo profissional na Póvoa de Varzim que, recorde-se, vivia o primeiro ano de concretização tendo transitado da União Ciclista da Maia.
A 16 de Outubro, Pedro Cardoso e João Cabreira informaram a comunicação social da suspensão que foram alvo pela FPC, aumentando para 10, os elementos com actividade desportiva interrompida. Cardoso foi suspenso por 12 meses na sequência de um controlo positivo por corticosteróides no GP Internacional de Paredes, vitória que entretanto lhe foi retirada. Já João Cabreira foi suspenso por um período de dez meses após a falta a um controlo anti-doping fora de competição quando se encontrava no País Basco. Ambos os corredores anunciaram recurso da decisão do CD.
Chegados a Novembro, a incerteza do mais negro episódio da história recente do ciclismo português paira como uma espada de Dâmocles sobre os eventuais arguidos e corredores suspensos na certeza, porém, que o caso poderia adquirir circunstâncias pessoais para os envolvidos bem mais graves, caso se confirmasse a sua culpabilidade: a nova lei que criminaliza o tráfico de produtos dopantes ainda não foi publicada em Diário da República, circunstância que não é de somenos importância, dado as sanções envolvidas, entre seis meses a seis anos e meio de prisão.
Fontes: Jornal Ciclismo, OJogo, Agência Lusa
O professor José Santos é uma das vozes que mais vezes se escutam a contestar a dopagem e a exigir mais controlos. O técnico boavisteiro dispara em todas as direcções, afirmando que o doping é um negócio para todos, desde os laboratórios que produzem as substâncias às entidades incumbidas da fiscalização e do controlo. Irónico, afirma que as pessoas inteligentes percebem os motivos por que alguns corredores rendem mais quando deixam os axadrezados e por que outros rendem menos quando ingressam no Boavista. “Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas”, diz, sibilino, sublinhando: “Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira”.
Há meses, num debate, afirmou que alguns resultados não são verdadeiros, referindo-se à dopagem. Enquanto técnico e perante um desempenho de um corredor ou equipa consegue formular um juízo de suspeição imediato?
Há situações que são importantes. Esta época fomos a única equipa portuguesa que não tinha no plantel nenhum ciclista envolvido na Operação Puerto. Lutámos abertamente para que a Federação aplicasse medidas para disciplinar a situação. Já há 3 ou 4 anos disse ao presidente da Federação que se tratava de um problema cultural. Na altura fui criticado, mas entretanto o próprio presidente veio dizer isso mesmo: o doping faz parte da cultura do ciclismo. Essa cultura terá de ser modificada e para isso é necessária uma grande vontade dos directores-desportivos. Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas. Quando temos cá bons médicos, que necessidade há de ir buscá-los lá fora? Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira.
Como se muda a tal cultura que diz existir no ciclismo?
Tem de começar pelo Conselho Nacional Antidopagem (CNAD). Nunca vi o CNAD nem a Federação a reunirem as pessoas todas do ciclismo e a explicar-lhes os malefícios todos do doping e a dizer, de forma didáctica e pedagógica, como lutar contra a dopagem. O CNAD faz mal o seu serviço.
Mantém a ideia de que o doping é um negócio para muita gente?
É um negócio para quem trafica, para os laboratórios e para quem vai analisar. A própria UCI já tem muitos especialistas a trabalhar em exclusivo nesta área. Se calhar não interessa a quem controla que acabe o doping, porque se isso acontecesse uma série de pessoas perdiam o seu emprego. O erro está nos laboratórios que produzem algumas substâncias que poderiam deixar lá um marcador para que fossem detectáveis, está nos traficantes, nos atletas que usam, nas equipas que colaboram e nas entidades oficiais a quem não interessa ir ao fundo da questão e resolver o problema de vez.
Os controlos orientados serão uma potencial solução?
Os controlos são caros, pelo que devem ser direccionados para atletas suspeitos. É fácil identificar através das alterações dos parâmetros sanguíneos. Também devem incidir nos candidatos às principais provas e nos ciclistas que passam muito tempo ausentes de competição. A nível internacional isso já acontece, como se viu na Volta a França.
Na sua opinião, por que falhou o código de ética em Portugal?
As pessoas não estavam interessadas em implementá-lo.
Que pessoas?
Primeiro foi a associação de ciclistas e depois algumas equipas também não se mostraram muito adeptas da medida. Para a próxima época já propus à Federação que cada ciclista tenha uma caderneta onde sejam afixados, mensalmente, resultados de análises a serem feitas todas no mesmo laboratório.
Como tem acompanhado o caso LA-MSS?
Não faço nenhum juízo de valor. Não estou dentro dos respectivos dossiês. Noto que a equipa, desde o começo do processo, ainda não fez qualquer conferência de imprensa para explicar a situação. É um facto estranho e isso não jogou a favor da equipa. Deveria ter havido um saneamento. Não se verificou uma demonstração de vontade de luta contra o doping. Deveriam ter sido tomadas medidas: “há pessoas suspeitas, elas serão afastadas até que tudo se esclareça e serão reintegradas se nada se provar”. Isso não se verificou e caso tivesse acontecido estou convencido de que a equipa poderia ter continuado a correr.
Teme as consequências do desenvolvimento futuro do caso?
Com tantos casos de doping que o ciclismo tem até a nível internacional, não é por aí que o gato vai às filhoses. Acho é que as pessoas têm cada vez mais de perceber que é preciso jogar por igual. Quem cá anda há muitos anos, observa resultados que não podem deixar de ser vistos como estranhos e que não são compatíveis com o valor de alguns ciclistas. Sou muito criticado por não ter médicos estrangeiros, mas eu não preciso de médicos na equipa. Criticam-me também por ter um plantel pequeno e os meus ciclistas correm muito. Isto não pode ser criticável. Posso é criticar aqueles que têm muitos ciclistas que correm pouco.
Porquê?
Porque um ciclista quanto mais correr, maior é o seu nível competitivo.
Outra crítica que lhe é feita é a de que lança grandes corredores mas eles só obtêm resultados quando saem do Boavista.
Também podem criticar-me por ir buscar corredores que, nas mãos de outros, andam muito e nas minhas andam menos. Não vou dizer os motivos, mas as pessoas inteligentes saberão porquê.
A sua saída da presidência da associação de equipas teve a ver com a sua actuação no caso do código de ética?
Neste momento nem sei se existe associação de equipas. Acusavam-me de reunir pouco, mas desde que saí ainda não houve reunião nenhuma. Algumas equipas mostraram-se desagradadas com a forma como estas questões ligadas ao código de ética eram apresentadas à Federação. Estiveram no seu direito e escolheram outros membros.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008
Confirma que o ciclismo português está sob suspeita da União Ciclista Internacional (UCI)?
Confirmo. É um estudo que eu tenho. Sabemos que não há nenhum mecanismo cem por cento eficiente para lutar contra a dopagem, da mesma forma que não há políticas que impeçam os roubos, embora algumas possam diminuí-los. Mas há umas medidas mais eficazes do que outras. Neste momento, o mais fiável é o controlo fora de competição. Há anos, a dopagem usada eram estimulantes, que o atleta tomava na hora e que na hora saía. Neste momento, os métodos deixam depósito no organismo, o que é extremamente malévolo. Sabemos que não detectamos qualquer substância em competição. Temos de apanhar o atleta quando este está a fazer a tal “preparação científica” com hormonas de crescimento, corticóides, eritropoietina (EPO). Uma gama infindável de drogas muito pesadas, de uma manipulação difícil que serve para tratar situações graves. Neste caso, servem para actuar sobre a capacidade do atleta. Sabemos que a EPO é tomada para aumentar os glóbulos vermelhos e, por causa disso, fazer crescer o hematócrito (relação entre a parte sólida e a parte líquida do sangue). Com um hematócrito acima de 50, não se pode dizer que o atleta esteja dopado, mas há altas suspeitas de que assim seja, se não esteve em altitude, se não é bronquítico crónico, se não tem insuficiência respiratória. Como não se encontra nada de proibido, diz-se que o atleta está com um hematócrito capaz de lhe criar problemas. Mas sabemos que esse valor pode facilmente baixar com 250 centímetros cúbicos de soro fisiológico a correr durante meia hora. Apesar disso, há valores que dificilmente se manipulam. Estamos a falar dos reticulócitos. Estudando as análises que se fizeram nos vários países europeus, concluiu-se que os valores dos reticulócitos, primeiro dos portugueses e a seguir dos espanhóis, é sem sombra de dúvidas indicador de que houve prática de dopagem.
Esse estudo envolve quantos ciclistas portugueses?
Não sei o número de cor, mas foram todos os corredores portugueses submetidos a controlos fora de competição, tanto sob jurisdição de instituições nacionais como internacionais. É evidente que do ponto de vista absoluto, os espanhóis fizeram mais testes. Mas tendo em conta os casos de suspeitas de dopagem e o número total de controlos a percentagem é elevada. E Portugal é o país em que as análises mostram maior percentual de casos de alteração de reticulócitos. Em Portugal, há esse problema.
Que pode fazer a FPC para combater estes casos?
O que temos feito. No início do ano passado, fizemos uma reunião com representantes da Federação, das equipas, dos corredores e dos organizadores. Chegámos a um consenso de que os ciclistas, tal como os outros desportistas profissionais, teriam de preencher o formulário de localização, por indicação do CNAD (Conselho Nacional Antidopagem). O representante dos corredores saiu daqui sem dizer nada e, passado algum tempo, recebemos da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) uma queixa feita pela Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais, alegando que a privacidade, isto e aquilo era posto em causa com o formulário de localização. Fomos multados em 4 mil euros. Isto é quase uma brincadeira. Pedi mais controlos antidopagem fora de competição: à UCI, à Agência Mundial Antidopagem (AMA) e ao CNAD. Pedi à CNPD autorização para disponibilizarmos a nossa base de dados ao CNAD. Já fomos autorizados. O Comité Olímpico já pediu à CNPD para disponibilizar o formulário de localização a todos os atletas. Agora, após as inscrições, vamos reunir as equipas e ver se conseguimos um código de ética. Porque isto tem de acabar! A situação mata o ciclismo e os primeiros a sofrer são os corredores.
Há bocado referia a diferença entre o doping de antigamente, que rapidamente saía do organismo, e o actual, que deixa marcas profundas. Que consequências a médio prazo para a saúde dos atletas?
O CNAD fará uma brochura indicando os efeitos das várias práticas dopantes. As hormonas provocam infertilidade a curto prazo no homem e o aparecimento de tumores nos testículos. Os esteróides podem levar problemas de hipo-funcionamento da supra-renais posteriores. A EPO provoca insuficiências renais. Fora neoplasias (tumores) associadas. É evidente que tudo isto acontecerá. Tomam-se drogas que deixam marcas no organismo. Os corredores têm de perceber isto e que além do desporto e dos resultados está a saúde do homem, que tem de ser defendida.
O dossiê com o estudo da UCI chega-lhe às mãos quando?
Já tenho conhecimento dele desde Setembro. O presidente da UCI, Pat McQuaid, chamou-me e mostrou-me o estudo. Disse-lhe que temos lutado, que o CNAD também o tem feito, os directores das equipas também… O único senão são os representantes dos corredores, que pararam o formulário de localização, que é fundamental. No futebol, toda a gente sabe onde está a equipa a treinar, mas no ciclismo não se sabe onde anda o corredor se se lhe quiser fazer um controlo fora de competição.
Já fez chegar o documento à Secretaria de Estado do Desporto?
Na Conferência Antidopagem de Madrid, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, esteve presente e falou com o médico da UCI Mario Zorzoli, autor do estudo. O dr. Laurentino Dias pediu uma cópia do estudo, como o Mario Zorzoli não a tinha, naquele momento, combinou que eu seria portador desse documento e que entregaria um na Secretaria de Estado e outro no CNAD. Assim foi. E nem falei ainda com o secretário de Estado sobre o assunto.
Que consequências se esperam?
Implicará um esforço do CNAD e, se calhar, da AMA e da UCI para aumentar os controlos fora da competição em Portugal. A Federação não tem mais força do que isto. Gostava que se fizessem mais controlos fora de competição, mas quanto custa isso? É preciso a deslocação de um médico que, por vezes, passa um dia inteiro fora e nem sempre consegue fazer o controlo, porque o alvo do controlo se escondeu ou manda dizer que não está. Isto são custos muito grandes.
Como é que os ciclistas conseguem aceder a produtos proibidos?
Eu agradecia que os senhores me explicassem… Falamos de EPO e de outras substâncias sobre as quais há controlo por parte do Infarmed. Este instituto, por vezes, consegue determinar de que farmácias hospitalares terá desaparecido alguma substância. Apenas isso. Por outro lado, até pela Internet se consegue obter esses produtos. Há mais de um ano que há investigações judiciais por causa disso. A Polícia Judiciária está a investigar redes de contrabando destas drogas. Já por mais de um vez fui interrogado pela Polícia Judiciária para ajudar a esclarecer situações que eu nem fazia ideia de que existiam.
É surpreendido muitas vezes com esquemas ardilosos que nem imaginava possíveis?
Há dias estava aqui numa reunião e contei um caso que, para mim, era novidade, mas todos os outros presentes se começaram a rir e disseram: “A gente já sabe isso”. Tratava-se da acusação de um corredor de uma equipa portuguesa que se queixa de que não lhe pagavam o que estava contratualmente previsto, uma vez que parte do dinheiro teria de ficar retida para comprar determinados medicamentos. O corredor enviou um e-mail a uma pessoa em França para saber o que era e foi informado de que seria EPO, (salvo erro, era essa a substância).
Daí deduz-se que há um esquema montado para fornecer drogas aos corredores. Parece uma espécie de “Operação Puerto”, embora em outra escala.
A “Operação Puerto” é uma questão civil: é a polícia e os tribunais civis que actuam. É um caso que corre Mundo, mas depois de levantar toda esta celeuma, o caso acabou… Não há razão para continuar, dizem os juízes. E agora entregam o caso à justiça desportiva, como quem diz: “Nós arranjamos este problema, vocês desenrasquem-se”.
A legislação portuguesa é suficiente para combater casos de tráfico de doping?
Não sei se será, porque não sou jurista. Mas penso que há que aprofundar mais a legislação, de modo a tornar mais eficiente o combate ao tráfico de produtos dopantes, tal e qual como se passa com outras drogas.
Apesar disso, há investigações no terreno.
Disso tenho eu a certeza. Aliás, tenho alertado o mundo desportivo. A última coisa que gostaria de ver era algo que parecido com a “Operação Puerto” em Portugal. Gostava que tudo se conseguisse resolver pelo mundo desportivo e que se avançasse sem necessidade de intervenção das instâncias civis.
Pela leitura que faz, há o risco de haver uma operação policial/judicial na área do ciclismo?
Eu tenho muito medo. Antes da Volta a Portugal alertei para o caso. Felizmente correu tudo bem, embora haja estudos que estão a ser feitos a alguns controlos.
Em Portugal aplicar-se-á a disposição de redução de penas por confissão e denúncia de redes montadas?
A Federação ouve sempre os atletas. Mas um problema colocado pelo advogado que ouve os ciclistas é recorrente: “Nunca ninguém sabe nada”. Se sabe, não diz. Se dissesse poderia ser englobado nessa redução de pena. Quando 90 por cento estiver do lado certo, são eles que não autorizam os outros dez por cento. Se calhar, neste momento, o equilíbrio é outro. Ainda haverá o medo: “E se eu digo, como é?”.
Está convencido de que a maior parte do pelotão toma “qualquer coisa”?
Não digo que será a maior parte, mas de acordo com o que vimos há muita gente que toma.
Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007
O presidente do Laboratório de Análises e Dopagem (LAD) e principal referência do combate ao doping em Portugal, Luís Horta, concedeu uma entrevista ao Jornal Ciclismo – via correio electrónico -, na qual lembra que as análises e a acção do Conselho Nacional Antidopagem (CNAD) existem para proteger os ciclistas e outros desportistas. Sem tabus, Luís Horta fala das substâncias mais em voga e das dificuldades de detecção das mesmas. Esperançado na eficácia das mais recentes medidas e agradado com o comportamento da Federação Portuguesa de Ciclismo, Luís Horta confia na obtenção de resultados e na mudança de mentalidades.
O recurso ao doping é uma prática generalizada na alta competição ou é um comportamento marginal e minoritário?
Não há dados que suportem uma resposta devidamente fundamentada. Levando em consideração a percentagem de casos positivos nos controlos realizados a nível mundial (entre 1,5 e 2%), poderíamos pensar que o comportamento fosse marginal. No entanto, as violações às normas antidopagem descobertas nos últimos anos, fruto sobretudo de investigação policial, demonstram que a percentagem de atletas que utilizam substâncias dopantes é superior à referida acima.
O ciclismo é uma modalidade em que o recurso à dopagem está mais enraizado do que noutras?
Sim, o ciclismo integra desde há muitos anos o Grupo A do Plano Nacional Antidopagem, grupo que corresponde às modalidades onde se considera que o risco de utilização de substâncias e métodos proibidos é mais elevado. No ciclismo, é exigido aos praticantes um rendimento desportivo superior às suas capacidades fisiológicas, o que potencia o recurso a substâncias dopantes e a ideia de que não é possível vencer sem a utilização das mesmas.
O ciclismo, no seu entender, está mais limpo do que em anos anteriores, após casos Festina, “Operação Puerto” e similares? Por outras palavras, acha que a Volta a França, em 2007, foi mais “limpa” do que em anos anteriores?
Sinceramente, não penso que a Volta à França em 2007 tenha sido mais limpa que as edições anteriores. Julgo que a UCI ainda não desencadeou as iniciativas ideais para prevenção da dopagem, principalmente as que passam por uma politica agressiva e inteligente de controlos fora de competição.
Que substâncias e métodos proibidos estão mais em voga no desporto em geral e no ciclismo em particular?
Neste momento, as substâncias que eventualmente estão a ser mais utilizadas no ciclismo são a eritropoeitina, a hormona do crescimento, alguns esteróides anabolisantes, os glucocorticosteróides e alguns estimulantes.
Em relação aos métodos, estão a ser utilizadas as transfusões sanguíneas, principalmente as transfusões autólogas. Qual a taxa de hematócrito média de um desportista de alta competição?
Porquê o limite de 50% de glóbulos vermelhos no sangue? Esta pergunta não tem uma resposta tão simples como a sua formulação pode levar a crer. A taxa de hematócrito depende de múltiplos factores, tais como o género do atleta, o tipo de modalidade que pratica, a altitude do lugar geográfico onde ocorreu a sua gestação ou onde reside e treina. De certo que a taxa média de hematócrito está abaixo dos 50%. A taxa de 50% foi definida pela União Ciclista Internacional e por outras federações internacionais, há alguns anos, como um limite de segurança para a saúde, não permitindo que atletas com taxas superiores a esse valor possam competir.
Como pode um atleta ultrapassar o limite de hematócrito, sem um historial de valores altos, sem ter feito um estágio em altitude e sem ter tomado substâncias dopantes?
Nalguns casos muito particulares, os atletas podem ter valores superiores a 50% que se explicam por uma situação puramente fisiológica. No entanto, estes casos são muito raros, acontecendo por exemplo em atletas etíopes e quenianos cuja gestação se deu em altitude e que viveram durante longos períodos da sua vida nessas condições.
Estabelecer um limite como aquele de hematócrito não é o mesmo que dizer: “façam o que quiserem desde que não passem este tecto”? Sendo assim, que legitimidade há para impedir um desportista de fazer o que quiser desde que não ultrapasse o limite legalmente estabelecido?
A taxa de 50% não é, de forma alguma, a solução ideal para o problema. Trata-se unicamente de um limite de segurança. Se um atleta apresenta habitualmente no seu perfil fisiológico uma taxa de hematócrito de 42%, uma estratégia de aumento dessa taxa, seja pela utilização da eritropoeitina seja pelo recurso a transfusões sanguíneas, de modo a conduzir a mesma para junto do valor limite de 50%, é uma estratégia que põe gravemente em risco a saúde do atleta, para além de ser uma violação de uma norma antidopagem.
O aumento dos testes fora de competição pode ser considerado a mais eficaz ferramenta no combate antidopagem? Quais os maiores obstáculos com que se deparam os inspectores médicos do CNAD em controlos efectuados em Portugal e no estrangeiro?
Sem dúvida que os controlos fora de competição são um instrumento fundamental na luta contra a dopagem. As maiores dificuldades estão nas fragilidades ainda existentes no Sistema de Localização e nas estratégias a que muitos ciclistas recorrem para evitarem serem controlados sem uma justificação atendível para esse facto.
O CNAD tem previsto um aumento substancial deste tipo de acções antidoping em 2008?
O CNAD aumentou substancialmente o número de controlos fora de competição nas semanas prévias às grandes competições internacionais disputadas no nosso país em 2007, fosse por iniciativa própria ou em resultado da cooperação mantida com a União Ciclista Internacional. O CNAD irá desenvolver uma estratégia de controlos fora de competição em 2008 de acordo com os critérios por si definidos, com a cooperação constante da UCI e com base nas informações que for obtendo ao longo do ano.
Quanto custa um controlo fora de competição em Portugal e quem o pode fazer?
Os controlos fora de competição são muito dispendiosos. O seu custo é muito variável, podendo ir de 250 euros para um controlo sem detecção de eritropoeitina, realizado junto do domicilio do Médico Responsável pelo Controlo de Dopagem (MRCD), até um valor que pode ultrapassar 2500 euros, para um controlo com detecção de eritropoeitina, implicado colheita de sangue e urina, num local distante da residência do MRCD e após várias tentativas falhadas. Para controlos realizados fora do nosso país, por solicitação da UCI ou da Agência Mundial Antidopagem, poderão inclusivamente ocorrer custos ainda mais elevados, fruto das viagens de avião que têm de ser realizadas.
Alguns atletas consideram que os formulários de localização afectam a sua vida privada. Mas já há quem defenda a localização por GPS. Faz sentido este tipo de métodos?
Penso que se os atletas se queixam que o actual sistema invade a sua privacidade, um sistema baseado em localização por GPS se revelaria muito mais gravoso. O sistema actual não põe, de forma alguma, em causa direitos fundamentais dos atletas e tal como já foi afirmado por um acórdão recente de um tribunal civil espanhol. De futuro, desejamos uma maior colaboração dos ciclistas portugueses, o que não tem acontecido até este momento. Este sistema tem como único objectivo a defesa dos próprios ciclistas, garantindo aos que não se dopam que podem lutar de igual modo pela vitória final.
Faz sentido fazer um controlo antidoping fora de competição depois, por exemplo, das 21 horas?
Habitualmente, o CNAD não notifica atletas para um controlo fora de competição após as 21 horas, pois o descanso do atleta deverá ser respeitado. No entanto, em casos muito especiais, essa situação pode ocorrer. Por exemplo, quando o médico já tentou sem sucesso e por diversas vezes controlar o atleta a outras horas. Os controlos podem, no entanto, prolongar-se muito para além das 21 horas se um controlo iniciado, por exemplo, às 20 horas, se prolongar pelo facto de o atleta não conseguir fornecer a amostra de urina ou se fornecer uma amostra sem as características de densidade ou pH urinários exigidos por lei.
A “Operação Puerto” pode ter ramificações, extensões ou atletas envolvidos em Portugal?
Só muito dificilmente a “Operação Puerto” não teria ramificações em Portugal, isto é, que atletas portugueses do ciclismo, atletismo e, eventualmente, de outras modalidades, não utilizassem os serviços do Dr. Fuentes. Não tenho informações sobre o tráfico de substâncias dopantes em Portugal, no entanto o CNAD tem uma estreita relação com as instituições responsáveis por esta área no nosso país, tendo sido, por exemplo, recentemente desmantelada em Portugal uma pequena empresa domiciliar que comercializava substâncias dopantes via internet.
A lei portuguesa é suficientemente dissuasora para o tráfico de substâncias dopantes?
A lei contra a corrupção no desporto em vigor no nosso país tem um artigo dedicado a esta temática, que prevê penas de cadeia até dois anos para os prevaricadores, mas a próxima lei de luta contra a dopagem, que incorporará os princípios da Convenção Internacional Contra a Dopagem da Unesco e do Código Mundial Antidopagem no seu articulado, irá reforçar as medidas legislativas relativas a esta matéria.
As federações desportivas são compreensivas com a acção do CNAD?
A Federação Portuguesa de Ciclismo tem colaborado o suficiente? Sinto que há um respeito e consideração cada vez maiores pelo trabalho do CNAD, não só por parte dos atletas, mas também por parte do seu pessoal de apoio, das federações desportivas, do Comité Olímpico de Portugal e da Confederação do Desporto de Portugal, assim como do público em geral. Esta minha afirmação não tem uma base meramente empírica, antes se fundamenta nos múltiplos inquéritos que o CNAD realiza junto dos atletas e das federações. Penso que hoje qualquer pessoa que esteja ligada minimamente ao fenómeno desportivo conhece, ou pelo menos já ouviu falar, do trabalho do CNAD. Em relação à Federação Portuguesa de Ciclismo, tem havido uma colaboração excelente nos últimos anos, tendo em muitas ocasiões a federação tido a coragem de propor ou de acolher iniciativas inovadoras no âmbito da luta contra a dopagem. No ciclismo, no entanto, falta-nos dar ainda um passo muito importante: os ciclistas têm que olhar para o CNAD como uma instituição que os protege e não como uma instituição que os persegue. Penso que esta mentalidade está a modificar-se e irá inverter-se a partir do momento em que os ciclistas comecem a sentir na pele os resultados negativos da utilização de substâncias e métodos dopantes, verificando que aqueles que no passado lhe prometiam a glória, afinal não passavam de banais vendedores da banha da cobra, usufruindo de mais-valias à custa dos próprios ciclistas.
Trabalho de João Santos e José Carlos Gomes, publicado em 19 de Dezembro de 2007