A maioria dos directores-desportivos portugueses gostava que a Volta ao Alentejo (1 a 5 de Abril) somasse uma chegada em alto ao contra-relógio do terceiro dia, de modo a criar mais uma jornada potencilamente decisiva. A dureza da quarta etapa, com seis contagens de montanha, não é, para os técnicos nacionais, suficiente para alterar significativamente a classificação que sairá do exercício individual de 19 quilómetros, a disputar em redor de Beja.
Américo Silva, director-desportivo da Liberty Seguros, equipa que parte com a responsabilidade de defender a vitória conseguida por Héctor Guerra na Volta ao Alentejo de 2008 é um dos descontentes. “Tendo em conta as características do Héctor Guerra, tanto uma chegada em alto como um contra-relógio são etapas a que ele se adapta bem. Mas temos de ver que vêm cá equipas estrangeiras que trazem ciclistas de renome. Com uma chegada em alto e com um contra-relógio sempre seriam duas oportunidades de fazer a diferença. Apenas com o ‘crono’ há menos opções e o grau de dificuldade é maior”, entende o técnico.
Se para Américo Silva o problema é ter apenas uma oportunidade para sentenciar a corrida, para Carlos Pereira, da Barbot-Siper, o problema é não ter mão-de-obra capaz de resolver uma prova apenas com um contra-relógio, pois dispõe de homens mais talhados para a montanha. “Este ano tiraram a chegada de montanha, mas alegam que a quarta etapa é muito dura. Mesmo que seja, sem chegada a subir, não nos favorece”, admite o director-desportivo que conta nas suas fileiras com o único alentejano do pelotão, Bruno Pires, vencedor da tirada que terminou no alto da serra de São Mamede no ano passado.
“O percurso é um bocado diferente do costume. É pena não haver uma chegada de montanha, mas o que acho pior são as deslocações a que estaremos sujeitos entre chegadas e partidas do dia seguinte”, declara o responsável pela Madeinox-Boavista, José Santos. O ponto de vista de Vidal Fitas, director-desportivo da Palmeiras Resort-Prio-Tavira, é distinto dos seus companheiros de função, pois o algarvio gostava era de… um contra-relógio mais longo. “Tenho ciclistas que se adaptam bem a qualquer tipo de traçado. É o percurso que nos foi apresentado e temos de trabalhar com ele, mas eu, pessoalmente, gostava que o contra-relógio fosse um pouco mais longo”, diz Vidal Fitas.
Outro algarvio, Jorge Piedade, do CC Loulé-Louletano-Aquashow, tem uma opinião completamente diferente da dos outros técnicos. “Agrada-me o percurso. Sabemos que os tempos são muito complicados, devido à crise que estamos a atravessar. Nesse sentido, é sempre difícil estabelecer um traçado que responda a todos os interesses em causa e o da Volta ao Alentejo é, certamente, aquele que foi possível delinear”, explica Piedade.
Bolsa de aposta
Três etapas planas, um contra-relógio de 19 quilómetros e uma etapa de média montanha sem final a subir é aquilo que espera o pelotão. Perante este cenário, os directores-desportivos são unânimes em considerar o contra-relógio determinante. “A prova vai ser discutida no contra-relógio”, afirma taxativamente José Santos. O boavisteiro acrescenta que a sua equipa conta com Tiago Machado e com Joaquim Sampaio para lutar pelos postos cimeiros no exercício individual, mas sublinha não saber exactamente com o que pode contar. “A corrida será sempre uma incógnita. Depois de tanto tempo sem competirmos – com a excepção da Clássica de Vieira de Leiria -, não se sabe com exactidão em que estado de forma estão os nossos ciclistas e os adversários”, lamenta o director-desportivo há mais anos em actividade no ciclismo profissional português.
Carlos Pereira assume a limitação de não dispor de qualquer contra-relogista puro, mas lembra que as suas principais armas, Bruno Pires e David Bernabéu, “deram boas indicações na recente Volta a Castela e Leão, e, por isso, poderão estar na frente”. Quanto a favoritos, o homem-do-leme da Barbot-Siper coloca o foco sobre equipas e não sobre individualidades. “Prefiro apontar equipas e não corredores. Penso que os principais candidatos são a Liberty e o Tavira, bem como, eventualmente, o Boavista, que tem o Tiago Machado, que anda sempre bem”, refere.
Tiago Machado é, aliás, um homem temido pela generalidade da concorrência. Américo Silva, aliás, apenas refere o jovem da Madeinox-Boavista quando instado a indicar corredores temíveis dentro do pelotão português. “Em termos de especialistas em contra-relógio não se vê outro ciclista mais ou menos do mesmo nível do Tiago Machado, que tem dado provas de disputar todos os contra-relógios com os primeiros”, admite o técnico da Liberty Seguros, que aposta em Héctor Guerra para deter o famalicense. “Tem vindo a criar-se a ideia de impossibilidade de um corredor repetir o triunfo na Volta ao Alentejo. Esse desafio de levarmos o Héctor Guerra a vencer pela segunda vez a prova é mais uma motivação para a nossa ambição”, frisa o director-desportivo.
Vidal Fitas também assume a candidatura à vitória, mas baralha os rivais, indicando dois homens para a tarefa: o galego David Blanco e o paredense Cândido Barbosa. “Pelas características da corrida, o David [Blanco] pode ser a nossa grande aposta, mas lembro que o Cândido Barbosa, que já está num momento bastante bom, pode ter uma palavra a dizer. Com um contra-relógio mais extenso, o Blanco poderia estabelecer maiores diferenças, mas com uma prova mais curta o Cândido pode manter-se na discussão”, antevê o algarvio. Olhando à concorrência, Fitas indica quem poderão ser os concorrentes mais temíveis: “Tiago Machado, Héctor Guerra, Xavier Tondo e dois homens da ISD, Andrey Grivko e Dmytro Grabovskyy”.
Jorge Piedade admite não ter grandes possibilidades de lutar pelo triunfo final. Com João Cabreira ausente, sob alçada disciplinar da federação, e com Pedro Romero impossibilitado por lesão – “tem problemas físicos, não sei quando poderemos contar com ele” -, Piedade vai tentar metas mais modestas. “Iremos procurar vencer uma etapa e colocar um homem entre os dez primeiros”, adianta o louletano.
Mário Rocha conta com Hugo Sabido para dar uma alegria à Fercase-Paredes Rota dos Móveis. “Sei que o Sabido está bastante bem e em condições de ombrear com os melhores de um pelotão numeroso e de qualidade. Será um bom teste para as nossas capacidades e a oportunidade para provarmos que temos argumentos suficientes para andar entre a elite do ciclismo”, nota o director da formação do Vale do Sousa. Sem prometer “mundos e fundos”, Mário Rocha crê estar em condições de pôr os seus comandados a darem boa conta de si: “Apesar da ausência de competição a sério, o que acarreta sempre alguns problemas, pelas conversas que venho mantendo de forma regular com o grupo, sei que estão todos bem e a treinar afincadamente para poderem exibir no Alentejo o seu real valor”.
Os eleitos de cada equipa
Barbot-Siper: Bruno Pires, David Bernabéu, Bruno Castanheira, Carlos Pinho, Hélder Oliveira, Mário Costa, Vidal Celis e António Amorim
CC Loulé-Louletano-Aquashow: Eladio Jiménez, Nuno Marta, Pedro Soeiro, César Quitério, Pedro Lopes, Hugo Vítor, Alexandre Oliveira e Pablo de Pedro
Fercase-Paredes Rota dos Móveis: Bruno Barbosa, Constantino Zaballa, David Vaz, Hugo Sabido, Joaquim Andrade, Miguel Candil, Ruben Calvo e Vergílio Santos
Liberty Seguros: Héctor Guerra, Filipe Cardoso, Isidro Nozal, Carlos Nozal, Rui Sousa, José Mendes, Edgar Pinto e Hernâni Broco
Madeinox-Boavista: Tiago Machado, Joaquim Sampaio, Santiago Pérez, Danail Petrov, Bruno Lima, Sérgio Sousa, Nelson Rocha e João Benta
Palmeiras Resort-Prio-Tavira: David Blanco, Cándido Barbosa, Krasimir Vasilev, Samuel Caldeira, Henrique Casimiro, Luís Silva, Tomas Metcalfe e Alejandro Marque

Só para lembrar que o Bruno Pires não é o único Alentejano do pelotão profissional… O Tavira conta com o Henrique Casimiro e o Daniel Mestre, ambos de Almodôvar.
Tem razão o Alexandre Oliveira.