Sempre frontal e sem medo de ser polémico, José Santos, o director-desportivo há mais anos em actividade no ciclismo profissional luso fala sobre o actual estado da modalidade, aponta o dedo ao que considera errado e passa em revista os serviços prestados pelo Boavista ao ciclismo português. Sem medo de criticar a dopagem, José Santos apela a uma mudança de mentalidades.
Como se dá a sua chegada ao ciclismo?
Foi em 1969, já lá vão quase 40 anos. Estive ligado a várias iniciativas: o ciclismo juvenil na Direcção-Geral dos Desportos, a fundação da Associação de Cicloturismo do Norte, também tive uma acção intensa no ciclismo popular. Mais tarde, fundei o Jornal Ciclismo e, durante sete anos, impulsionei o ciclocrosse em Portugal, organizando quase 20 provas por ano. Por contingências várias, não continuei e o ciclocrosse acabou em Portugal. Este ano ainda estudei a hipótese de retomar essa modalidade, mas desisti da ideia, porque não havia equipas nem atletas interessados.
Entretanto, também foi ciclista.
Sim, representei alguns clubes importantes: Coelima, Benfica, FC Porto. Fiz duas voltas a Portugal e concluí-as. Fui campeão nacional de pista, mas foi uma carreira um bocado em diagonal.
Como se dá a sua chegada ao Boavista?
O meu pai era o treinador e eu escrevia n’O Comércio do Porto. Acabou por proporcionar-se a minha entrada para o clube e cá estou há 25 anos.
Fez todo um percurso que fez de si o director-desportivo há mais tempo em actividade no ciclismo profissional português. Que balanço faz e que mudanças se observaram?
É verdade. Já tenho quase 30 voltas a Portugal no currículo. As mudanças não foram muitas. Os problemas que havia mantêm-se. Cheguei a ser seleccionador e director-técnico nacional. As reformas que então foram ensaiadas não tiveram grande repercussão, havendo pouca evolução da modalidade. Apesar de tudo, o ciclismo é das modalidades com melhor nível de organização em Portugal.
Isso não evitou que o ciclismo tenha perdido parte substancial da importância pública.
A causa foi a passagem das principais corridas da Empresa do Jornal de Notícias (JN) para uma entidade que não era credível e que não tinha capacidade para suportar o caderno de encargos proposto pela Federação. Além disso, era uma empresa sem capacidade, dentro da sua estrutura, para trabalhar a comunicação, coisa que o Jornal de Notícias fazia. Começou com força, através de transmissões em directo de muitas provas, mas o que é certo é que a maioria dessas corridas já não se realiza. A organização em Portugal dos Campeonatos do Mundo também afastou os média do ciclismo, porque se criou uma situação de descrédito: o país que organizava os Mundiais não os transmitiu pela televisão
Neste período deu-se também uma maior internacionalização das provas portuguesas. Foi positivo?
Não temos capacidade económica para tantas provas internacionais. Eu gostava que as nossas corridas fossem todas internacionais, mas não há suporte para isso e quase todas elas dão prejuízo. Uma corrida internacional custa quase tanto como formar uma equipa para o ano inteiro. Não temos dimensão para tantas provas internacionais. A actual situação é quase como a de um indivíduo que se desloque de Porsche, mas que não tenha dinheiro para a gasolina. Depois as dificuldades são grandes para pagar os prémios. Se a Volta ao Alentejo, por exemplo, fosse nacional, o orçamento chegava para fazer uma volta ao Baixo Alentejo e outra ao Alto Alentejo. E isso seria preferível para o ciclismo.
A ausência de um grande ídolo nacional e a saída de cena dos principais clubes não terão contribuído para a quebra de impacto da modalidade?
Penso que não. A saída do JN é que reduziu o ciclismo a uma actividade como as outras e até com menos importância. O ciclismo tem público, mas o afastamento desse grupo mediático provocou o afastamento de outros órgãos de comunicação social. Acresce que os jornais desportivos são produtos comerciais. A excessiva comercialização do jornalismo também é prejudicial.
Uma discussão cíclica respeita aos alegados benefícios dos clubes tradicionais para o ciclismo. Estando num, o Boavista, sente-se beneficiado ou prejudicado por isso?
Se houvesse mais clubes tradicionais, haveria mais público. Veja-se o caso recente do Benfica que atraiu mais público. No entanto, o inverso também é verdade e este desporto resistiu muitos anos sem os clubes. Toda a modalidade que não tenha Benfica, FC Porto e Sporting sofre com dificuldades de público e de exposição mediática.
As dificuldades financeiras do Boavista têm-se reflectido na equipa de ciclismo?
Para já, não, embora tenha alguma apreensão relativamente ao futuro. Fruto de uma gestão bastante equilibrada, temos os vencimentos todos em dia e toda a estrutura controlada. Isto foi conseguido com grande sacrifício e rigor. Mas o clube não estando bem, a secção pode vir a sofrer. A angariação de patrocinadores pode ser dificultada, porque a percepção pública da credibilidade da instituição não é a melhor.
A gestão equilibrada de que falava fez com que a equipa de ciclismo tenha mudado de objectivos constantemente, da equipa vencedora do início da década de 1990 até a desempenhos recentes mais comedidos. É fácil fazer essa transição de ambições?
Para quem gosta de ciclismo é natural. Eu gosto mais de ciclismo do que de vitórias. Somos das equipas mais antigas, porque sabemos o orçamento que temos e é com essas verbas que temos de viver, melhor nuns anos do que noutros. Quando temos ciclistas cujo vencimento ultrapassa as nossas possibilidades deixamo-los sair. Fomos a equipa portuguesa que maiores valores lançou no ciclismo nacional e internacional: José Azevedo, Jose Luis Rebollo, Josep Jufre, David Bernabeu, Adrian Palomares, Manuel Cardoso, por exemplo. Todos eles se iniciaram como profissionais no Boavista.
Tendo trabalhado com tantos corredores é possível dizer qual o melhor de todos?
Foram vários que nos marcaram e que marcaram a sua época. Houve dois corredores que marcaram mais do que todos os outros, pelo seu carisma e pelo êxito que tiveram: o Cássio Freitas e o Joaquim Gomes. Ultimamente, o Tiago Machado, o José Azevedo ou o Pedro Silva também deixaram a sua marca. O Azevedo não fez aqui grande história, embora tenha cá passado os dois anos que considero mais importantes na carreira dele, porque as duas primeiras épocas como profissional são fundamentais.
Apesar das oscilações orçamentais, o palmarés é bastante preenchido.
Vencemos todas as provas nacionais. A dada altura só nos faltava o Porto-Lisboa e a Volta ao Alentejo, mas até essas corridas ganhámos. A nível internacional, estivemos presentes em algumas das principais competições: Volta a Espanha, Critério Internacional, Dauphiné Libèrè, Volta a França do Futuro, que vencemos por equipas…
Uma série de corredores que passaram pelo clube têm hoje tarefas de gestão de equipas de sub-23. Há no Boavista o cuidado de formar os atletas para que, finda a carreira, possam continuar na modalidade?
Sempre tivemos uma política de debate com os ciclistas. Não é por acaso que o Delmino Pereira é presidente-adjunto da Federação, que o Paulo Couto dirige a APCP e uma equipa, o Fernando Mota e o Pedro Silva estão à frente de equipas… Incentivamos a colocarem de pé alguns projectos. É importante o técnico dialogar com os corredores, espicaçando-os para a discussão. Provoco o debate e isso é importante como formação para que quem ganhou dinheiro com o ciclismo possa servir depois da modalidade com novos projectos.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008
O professor José Santos é uma das vozes que mais vezes se escutam a contestar a dopagem e a exigir mais controlos. O técnico boavisteiro dispara em todas as direcções, afirmando que o doping é um negócio para todos, desde os laboratórios que produzem as substâncias às entidades incumbidas da fiscalização e do controlo. Irónico, afirma que as pessoas inteligentes percebem os motivos por que alguns corredores rendem mais quando deixam os axadrezados e por que outros rendem menos quando ingressam no Boavista. “Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas”, diz, sibilino, sublinhando: “Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira”.
Há meses, num debate, afirmou que alguns resultados não são verdadeiros, referindo-se à dopagem. Enquanto técnico e perante um desempenho de um corredor ou equipa consegue formular um juízo de suspeição imediato?
Há situações que são importantes. Esta época fomos a única equipa portuguesa que não tinha no plantel nenhum ciclista envolvido na Operação Puerto. Lutámos abertamente para que a Federação aplicasse medidas para disciplinar a situação. Já há 3 ou 4 anos disse ao presidente da Federação que se tratava de um problema cultural. Na altura fui criticado, mas entretanto o próprio presidente veio dizer isso mesmo: o doping faz parte da cultura do ciclismo. Essa cultura terá de ser modificada e para isso é necessária uma grande vontade dos directores-desportivos. Coloco sérias dúvidas quando vejo médicos espanhóis nas equipas portuguesas. Quando temos cá bons médicos, que necessidade há de ir buscá-los lá fora? Até na Federação existem médicos espanhóis, o que me admira.
Como se muda a tal cultura que diz existir no ciclismo?
Tem de começar pelo Conselho Nacional Antidopagem (CNAD). Nunca vi o CNAD nem a Federação a reunirem as pessoas todas do ciclismo e a explicar-lhes os malefícios todos do doping e a dizer, de forma didáctica e pedagógica, como lutar contra a dopagem. O CNAD faz mal o seu serviço.
Mantém a ideia de que o doping é um negócio para muita gente?
É um negócio para quem trafica, para os laboratórios e para quem vai analisar. A própria UCI já tem muitos especialistas a trabalhar em exclusivo nesta área. Se calhar não interessa a quem controla que acabe o doping, porque se isso acontecesse uma série de pessoas perdiam o seu emprego. O erro está nos laboratórios que produzem algumas substâncias que poderiam deixar lá um marcador para que fossem detectáveis, está nos traficantes, nos atletas que usam, nas equipas que colaboram e nas entidades oficiais a quem não interessa ir ao fundo da questão e resolver o problema de vez.
Os controlos orientados serão uma potencial solução?
Os controlos são caros, pelo que devem ser direccionados para atletas suspeitos. É fácil identificar através das alterações dos parâmetros sanguíneos. Também devem incidir nos candidatos às principais provas e nos ciclistas que passam muito tempo ausentes de competição. A nível internacional isso já acontece, como se viu na Volta a França.
Na sua opinião, por que falhou o código de ética em Portugal?
As pessoas não estavam interessadas em implementá-lo.
Que pessoas?
Primeiro foi a associação de ciclistas e depois algumas equipas também não se mostraram muito adeptas da medida. Para a próxima época já propus à Federação que cada ciclista tenha uma caderneta onde sejam afixados, mensalmente, resultados de análises a serem feitas todas no mesmo laboratório.
Como tem acompanhado o caso LA-MSS?
Não faço nenhum juízo de valor. Não estou dentro dos respectivos dossiês. Noto que a equipa, desde o começo do processo, ainda não fez qualquer conferência de imprensa para explicar a situação. É um facto estranho e isso não jogou a favor da equipa. Deveria ter havido um saneamento. Não se verificou uma demonstração de vontade de luta contra o doping. Deveriam ter sido tomadas medidas: “há pessoas suspeitas, elas serão afastadas até que tudo se esclareça e serão reintegradas se nada se provar”. Isso não se verificou e caso tivesse acontecido estou convencido de que a equipa poderia ter continuado a correr.
Teme as consequências do desenvolvimento futuro do caso?
Com tantos casos de doping que o ciclismo tem até a nível internacional, não é por aí que o gato vai às filhoses. Acho é que as pessoas têm cada vez mais de perceber que é preciso jogar por igual. Quem cá anda há muitos anos, observa resultados que não podem deixar de ser vistos como estranhos e que não são compatíveis com o valor de alguns ciclistas. Sou muito criticado por não ter médicos estrangeiros, mas eu não preciso de médicos na equipa. Criticam-me também por ter um plantel pequeno e os meus ciclistas correm muito. Isto não pode ser criticável. Posso é criticar aqueles que têm muitos ciclistas que correm pouco.
Porquê?
Porque um ciclista quanto mais correr, maior é o seu nível competitivo.
Outra crítica que lhe é feita é a de que lança grandes corredores mas eles só obtêm resultados quando saem do Boavista.
Também podem criticar-me por ir buscar corredores que, nas mãos de outros, andam muito e nas minhas andam menos. Não vou dizer os motivos, mas as pessoas inteligentes saberão porquê.
A sua saída da presidência da associação de equipas teve a ver com a sua actuação no caso do código de ética?
Neste momento nem sei se existe associação de equipas. Acusavam-me de reunir pouco, mas desde que saí ainda não houve reunião nenhuma. Algumas equipas mostraram-se desagradadas com a forma como estas questões ligadas ao código de ética eram apresentadas à Federação. Estiveram no seu direito e escolheram outros membros.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008
Mesmo que tenha divergido de Artur Lopes no passado, José Santos elogia o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, considerando que o líder federativo prestigia o ciclismo português. Mais dúvidas merece a equipa de trabalho que acompanha Lopes, com duas excepções, também alvo de palavras de apoio: Delmino Pereira e Francisco Manuel Fernandes. José Santos propõe a substituição das associações por delegações federativas, dotadas de meios humanos capazes de colocarem em prática as políticas definidas a nível central.
O actual presidente da Federação está há 16 anos no cargo e foi eleito para mais um mandato. Pode fazer-se um balanço linear destes anos todos?
Não há alguma alternativa ao actual presidente. Ele é um elemento muito forte dentro de uma direcção muito fraca. Tem um bom presidente-adjunto, Delmino Pereira, e uma pasta financeira, Francisco Manuel Fernandes, bem gerida. Mas só o poder do presidente nem sempre é suficiente, só o seu valor prestigia a equipa directiva. Embora eu lhe aponte alguns erros e críticas, como a retirada da Volta ao JN.
O panorama a nível associativo é menos risonho?
As associações têm um papel altamente secundário. Acho até que seria mais proveitoso para a modalidade que as associações fossem substituídas por delegações da Federação Portuguesa de Ciclismo. Passava a haver uma política nacional aplicada em cada local. Um erro da actual Federação é ter muitos técnicos em Lisboa, não os distribuindo pelas associações regionais. Há um que conheço, o Luís Teixeira no Minho e é por isso que essa associação funciona melhor do que quase todas as outras juntas. A associação do Algarve, fruto essencialmente do trabalho de dois dirigentes, também é muito boa. De resto…
O ciclismo jovem tem estado a ser bem gerido?
Havia muito mais praticantes quando tínhamos o Movimento Juvenil de Ciclismo do Norte, mas os tempos eram outros.
Um dos problemas da modalidade é haver poucos novos praticantes e, grande parte, vir já de famílias ligadas ao ciclismo.
Há poucos praticantes novos porque não há equipas. No Boavista recebemos uma média de meia dúzia de telefonemas por mês de familiares de jovens que querem iniciar a prática de ciclismo e não sabem onde fazê-lo. Não havendo clubes não pode haver ciclistas. Por isso há muitos praticantes de BTT, porque a burocracia é menor e não existe a necessidade do clube. Na estrada, há demasiada burocracia. Por exemplo, era importante que a determinada altura da época os juniores de segundo ano pudessem competir com os sub-23, da mesma forma que estes competem com os profissionais. Irrita-me quando me dizem: “A UCI diz que é assim”. E rio-me quando vejo as multas das provas nacionais em francos suíços. É um exemplo que demonstra a total dependência em relação à UCI.
A escassez de clubes tem a ver com os custos elevados do ciclismo face a outras modalidades?
Também. Mas um aspecto a ter em conta é a falta de massa crítica para se desenvolverem projectos de raiz. Talvez a actual geração de corredores venha a ter essa capacidade, mas entretanto o que fomos assistindo foi a antigos corredores que terminam a carreira e querem logo implementar projectos megalómanos. Isso não pode ser. O caso do Benfica é um desses. Não está de acordo com a realidade nacional.
Em que medida?
Inflacionou o mercado de sub-23, destruindo o trabalho feito pelas equipas desse escalão. Também inflacionou o mercado profissional. E agora abandona ou reformula-se, não tendo uma política de continuidade.
Mesmo assim valeu a pena este regresso?
Penso que não. Criou expectativas que saíram goradas e inflacionou o mercado para valores que as outras equipas não estavam preparadas.
O ciclismo vive acima das suas possibilidades?
Sim, mas nem é tanto a nível das equipas. É mais ao nível da organização das provas. Uma corrida internacional custa quase tanto como formar uma equipa para o ano inteiro. Não temos dimensão para tantas provas internacionais. A actual situação é quase como a de um indivíduo que se desloque de Porsche, mas que não tenha dinheiro para a gasolina. Depois as dificuldades são grandes para pagar os prémios. Se a Volta ao Alentejo, por exemplo, fosse nacional, o orçamento chegava para fazer uma volta ao Baixo Alentejo e outra ao Alto Alentejo. E isso seria preferível para o ciclismo.
O futuro do ciclismo passa pelo BTT ou a estrada ainda tem muito que dar?
A estrada tem futuro, mas é preciso inovar. Não é uma tarefa fácil, mas é preciso dar a volta. Não podemos, por exemplo, continuar presos aos ditames da UCI. A média das edições todas da Volta a Portugal é de 16 dias. Não podemos fazer uma Volta só com 11 dias. Se baixarmos de escalão podemos ter 15 dias. Cada dia ganho é mais importante, porque permite levar a prova a mais localidades e cada dia a mais significa maior rentabilização do investimento dos patrocinadores. Num país com a dimensão do nosso, 11 dias é escasso. Isto não é a Bélgica ou o Luxemburgo.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 24 de Outubro de 2008
Eleito para o quinto e último mandato como presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), Artur Moreira Lopes acaba de ser também de ser designado vice-presidente da União Ciclista Internacional (UCI). Perspectivando as tarefas que tem pela frente, o dirigente indica a aposta na pacificação do ciclismo e o combate ao doping como desafios ao nível da UCI e o desenvolvimento das vertentes de pista, BMX, BTT e freestyle como grandes desafios em Portugal.
Que expectativas tem para o mandato de vice-presidente da UCI?
As expectativas passam por dar o meu contributo para duas questões que são neste momento essenciais. Uma é a pacificação do ciclismo mundial, com o estabelecimento de um calendário compatível. A outra é a evolução do passaporte biológico.
Tem algum pelouro específico na direcção da UCI?
Não tenho pelouros, tenho é tarefas. Além de vice-presidente sou responsável pela Comissão de Estrada da UCI, sou administrador da Fundação Mundial de Luta Antidopagem e sou administrador do Centro Mundial de Ciclismo.
Acalenta a ambição de ser presidente da UCI?
Não.
Entretanto foi reeleito para o quinto mandato na FPC. Quais as principais apostas?
O crescimento das vertentes fora da estrada: BTT, BMX e Freestyle, que também será modalidade olímpica em Londres’2012. Relativamente à pista, com a construção do Velódromo Nacional e Centro de Alto Rendimento em Sangalhos, Anadia, é nossa intenção criar uma escola de pista. O freestyle parte do zero. No BMX é necessário criar mais pistas e multiplicar o número de praticantes. Quanto ao BTT, a maior aposta irá recair no cross country, que é uma modalidade olímpica.
Numa entrevista à Agência Lusa referiu a preparação da sua sucessão como outro aspecto central do quinto mandato.
Isso foi um erro de interpretação do jornalista. O que eu disse é que espero que dentro da minha equipa haja cada vez maior dinamismo e mais dirigentes a apresentarem projectos para o desenvolvimento do ciclismo. Isto para que, daqui a quatro anos, altura em que está fora de questão uma recandidatura da minha parte, possam sair deste leque de dirigentes que me acompanham o núcleo que dará seguimento ao trabalho que vem sendo realizado.
Apesar de ser alvo de várias críticas, ninguém se apresentou como alternativa nas últimas eleições. Estava à espera?
Há sempre aqueles que criticam por criticar. Relativamente aos outros, aqueles que têm projectos e ideias alternativas, mesmo não se tendo apresentado a eleições, convido-os a virem apresentar as suas propostas, porque podem ser importantes para o ciclismo.
Para quando novidades sobre o caso LA-MSS?
Assim que haja algum desenvolvimento, os senhores jornalistas saberão.
Que comentário lhe merece os resultados da autópsia ao Bruno Neves, entretanto tornados públicos?
Eu não estava cá quando as notícias saíram, mas já me informei sobre o assunto e parece que não se deu a fotografia completa. Ou seja, quando se retira a parte do todo há sempre modificações. Parece-me que é o caso. Há que ler o relatório completo e, eventualmente, debruçarmo-nos sobre os resultados e fazer novos estudos.
Houve um caso de ciclista que correu numa equipa portuguesa e que acusou o director-desportivo de lhe tentar fornecer substâncias dopantes que lhe seriam descontadas no salário. A situação chegou à UCI. Há novidades?
Não conheço desenvolvimentos, provavelmente não existirão provas que sustentem a acusação. O caso naturalmente será analisado pelas instâncias competentes, mas só teremos avanços se algumas provas forem apresentadas.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 10 de Outubro de 2008
José Martins chegou à Volta a Portugal do Futuro com aspirações de lutar pelo triunfo, mas com um receio: ter um mau desempenho no prólogo. A vitória no contra-relógio de abertura acabou por moralizá-lo e, com a ajuda do forte bloco da Casactiva/Quinta das Arcas/Aluvia, chegou à “vitória mais importante” da carreira. Para quem já passou três temporadas entre a elite, esta época entre os sub-23 é tida como um relançamento da carreira para chegar de novo ao patamar de topo.
Qual a importância da conquista da Volta a Portugal do Futuro?
Foi a vitória mais importante que alcancei nos anos que levo de ciclismo, tendo-a conseguido na minha terceira participação na Volta do Futuro. Nas anteriores participações tive de trabalhar para outros colegas, como o Bruno Pires, o Bruno Neves ou o Gilberto Sampaio, pelo que as classificações foram um 19º e um 22º lugar.
Já chegou à corrida como chefe-de-fila ou foram os desempenhos durante a prova que determinaram que seria o líder?
Já se sabia que eu era um dos corredores da Casactiva/Quinta das Arcas/Aluvia que dava mais garantias, até por ser dos mais experientes. No entanto, tinha uma grande dificuldade para ultrapassar, o contra-relógio. Apesar de estar algo receoso sobre o que conseguiria fazer no prólogo, acabei por conseguir ganhá-lo. A partir daí senti que o director-desportivo, José Barros, cada vez confiava mais em mim.
Quem olhar apenas para as tabelas de resultados é levado a pensar que foi um triunfo fácil, tal o domínio da sua equipa. Mas, na realidade, foi preciso muito esforço.
Não há vitórias fáceis. Esta é a principal corrida do escalão sub-23 e entrámos nela com uma única ideia em mente: vencer. Temos uma equipa muito boa, repleta de ciclistas que sabem trabalhar para a equipa e que levaram a corrida no ritmo que nos interessava. Além disso, os meus companheiros ainda me conseguiram lançar para eu poder estar bem nos momentos decisivos.
Houve algum momento em que sentisse que tinha a vitória na mão?
Só depois de cortar a meta no último dia. Os adversários bateram-se sempre bem, especialmente as equipas do Santa Maria da Feira/E. Leclerc/Moreira Congelados, do Benfica e do Tavira/Palmeiras Resort. Deram luta até final.
Este tem sido um ano de extremos: começou a época como desempregado e agora alcança a sua vitória mais importante. Chegou a pensar deixar o ciclismo?
Nunca pensei que o Vitória-ASC desaparecesse no final da temporada transacta. Aliás, só nos foi comunicado o fim da equipa no dia em que fechavam as inscrições. Nessas circunstâncias vi-me sem equipa e sem grandes perspectivas de encontrar colocação. Foram momentos muito duros. Quando já tinha perdido quase completamente a esperança, recebi o convite do José Barros para integrar a Casactiva/Quinta das Arcas/Aluvia.
O que sente um corredor que, após três épocas como profissional, tem de regressar ao escalão inferior?
Custa bastante tomar essa opção, mas acho que foi uma boa decisão. Quem gosta de ciclismo tem de fazer alguns sacrifícios e este foi um deles. Felizmente tive apoio de muitas pessoas que sempre me disseram que para aproveitar a oportunidade, uma vez que pode ser uma forma de relançar a carreira e de voltar ao profissionalismo. Esse regresso ao escalão principal é a minha grande meta.
Trabalho de José Carlos Gomes, publicado em 8 de Agosto de 2008