crónicas

Opinião: Notas sobre a montanha asturiana

18 Dez 2009 1:09pm
A apresentação de uma grande Volta – como foi o caso da Vuelta – renova a emoção e as expectativas dos amantes do ciclismo em relação à nova temporada. Foi com particular prazer que recebi a novidade do alto de Cotobello, que vai estrear-se em 2010 na Volta a Espanha e de nova chegada aos Lagos de Covadonga, um dos clássicos finais de etapa.

Se ainda não perceberam, dou uma pista: sou um fanático das Astúrias e algumas recordações marcantes da montanha asturiana despertaram-me a escrita. A começar pela companhia que me fez no Verão passado, ao percorrer de bicicleta o Camino del Norte, entre Santander e Santiago de Compostela. Atravessei duma ponta à outra o Principado asturiano e isso equivale a dizer que à minha direita estava o azul do mar (excepto nos cinzentos dias de chuva!) e à esquerda a imponente e omnipresente montanha, como que a lembrar que naquela zona, quando menos se espera, é preciso dar à perna para vencer mais uma subida!

É isso que espera qualquer ciclista nas Astúrias, seja profissional ou um simples pato bravo, e as consequências nem sempre são as melhores. Nunca mais esquecerei aquela Vuelta de 1996, também numa etapa para os Lagos, em que o frenesim mediático esqueceu por completo a cabeça da corrida e a luta pela vitória para se centrar na rectaguarda do pelotão, naquele gigante que, ao passar em frente ao hotel da equipa, decidiu que acabava ali a sua brilhante carreira. Carros, motas, fotógrafos… Em seu redor havia uma multidão, mas ele seguramente sentia-se mais sozinho que nunca, enquanto virava o guiador rumo à entrada do hotel, pousava a bicicleta à porta e penetrava no hall, abandonando o mundo dos meros mortais e entrando na dimensão dos mitos. Nesse dia em que Miguel Indurain deixou de pedalar, nem me lembro de quem ganhou a etapa, mas também não esquecerei a imagem de Alex Zulle, então candidato ao pódio final, debruçado sobre as barreiras depois da meta, aflito, enquanto levava a mão ao bolso, à procura da bomba da asma…

A montanha asturiana pode ser implacável e isso mesmo presenciei ao vivo uns anos mais tarde, numa Vuelta que cobri para o jornal O JOGO, quando da primeira chegada ao Angliru. Embraiagens de carros e motos a queimar, ciclistas aos “esses” e a loucura dos adeptos ao longo da subida foram detalhes que apenas vi pela televisão porque eu fui ver a passagem dos corredores no sopé desse colosso, mesmo antes duma curva à esquerda onde se inicia a sua ascensão e onde chegou um pelotão partido em mil bocados, depois de várias outras subidas.

Em cada ciclista havia uma marca de guerra – não havia um que não tivesse o equipamento rasgado, ramos e folhas agarradas à bicicleta ou arranhões bem visíveis na pele por entre os buracos do calção ou da jersey…
Como se não bastasse o que vira nos outros, até eu estive a milímetros de sofrer na pele os rigores da montanha asturiana e de um daqueles dias típicos de chuva miudinha que tornam aquelas estradas em autênticas pistas de esqui! A sorte foi haver um pequeno muro no exterior da curva em que o carro fugiu de frente, caso contrário não estaria aqui para contar, tal era o precipício.

Em jeito de moral da história, apetece-me dizer que sair vivo da montanha asturiana já é uma grande vitória. E quem não acredita só tem uma coisa a fazer, ir lá e testemunhar na primeira pessoa o seu carácter majestoso mas implacável.

João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.

Opinião: A Milram e a contradição do ciclismo

15 Dez 2009 10:29am

Há alguns anos – creio que foi em 1995 – fiz uma entrevista a Adriano Baffi que me marcou positivamente. O cotado “sprinter”, que infelizmente ficou mais conhecido por ter provocado uma queda tremenda ao então companheiro de equipa Cipollini numa chegada, estava em final de carreira e veio à Volta a Portugal.

Com a tranquilidade que só os anos dão e respaldado por um palmarés respeitável, Baffi mostrou-me um lado filosófico que vi em muito poucos ciclistas e atrevo-me mesmo a dizer em, muito poucos desportistas profissionais. Talvez à excepção de Pedro Horrillo, mas isso é outra conversa.

Disse-me na altura o italiano, traduzindo em palavras aquilo que certamente muitos pensam mas temem ou não conseguem expressar, que o ciclista é um grande humanista. E porquê? Porque além dos valores ecológicos facilmente associáveis à bicicleta, é alguém com enorme espírito de sacrífício e isso ensina a dar valor às coisas que realmente importam.

Neste ponto é legítimo perguntarem-se se não seria o facto de já ter uma conta bancária bem recheada que lhe permitia ter esta atitude relaxada e contemplativa. Talvez sim, mas prefiro acreditar que há características positivas que nascem e se desenvolvem com as pessoas, independentemente das condições materiais.

Vem esta recordação do Adriano Baffi a propósito da recente notícia de que a Milram vai usar bidões biodegradáveis de forma a contribuir para a preservação ambiental. Numa perspectiva de golpe publicitário, não podia vir mais a propósito, tendo coincidido praticamente com a badalada cimeira de Copenhaga, onde se discutem emissões de gases em vez de se pensar como encher os estômagos dos milhões que morrem de fome por esse planeta fora…

Caso não se tenha tratado de um mero golpe publicitário, penso que a Milram resolveu aquele que, para mim, sempre foi um dos grandes enigmas do ciclismo e, ao mesmo tempo, provavelmente a sua maior contradição: como pode o ciclismo representar os valores da ecologia e o ciclista ser um profundo humanista, logo amigo do ambiente, se cada temporada de corridas significa deixarem-se centenas, milhares, milhões de bidões de plástico pelas bermas das estradas, por montes e vales, alguns dos quais quase imaculados pela privilegiada localização, em altitude ou em zonas de difícil acesso?

É evidente que há também o aspecto dos gases de escape, de carros de apoio, veículos das caravanas publicitárias ou motas que acompanham as corridas, mas é melhor deixar isso para depois… Para já, parece-me que esta atitude da Milram, além de excelente promoção para a equipa, está a dar razão a Adriano Baffi e às suas palavras sábias de há mais de uma década: o ciclismo e os ciclistas são profundos humanistas.

João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.

As “bebedeiras” de Tom Boonen já vêm de 2007

11 Mai 2009 10:37am

O ciclista belga Tom Boonen justificou o recente teste “positivo” que lhe detectou cocaína na urina com… um problema com o álcool. O corredor disse que, bebendo de mais, perde a consciência do que faz, como se se transformasse noutra pessoa. Tudo indicava que seria a segunda vez que o triplo vencedor da clássica Paris-Roubaix era apanhado com cocaína no organismo. Mas a imprensa belga revela hoje que um outro teste fora de competição, em Novembro de 2007, detectou traços daquela substância ilícita no ídolo da Bélgica. Depreende-se que as bebedeiras descontroladas datam, pelo menos, de Novembro de 2007.

Permalink  |  Tag: