A Associação Internacional de Ciclistas lamenta as fugas de informação que resultaram num clima de suspeição para cerca de 198 ciclistas, quanto á possibilidade de utilização de produtos dopantes, lembrando aos organismos que regem a modalidade, que as análises efectuadas ao longo de uma prova, se devem basear nas performances alcançadas pelos ciclistas e nunca por valores sanguíneos.
O problema que poderá ficar por aqui, mas com a Associação a intentar uma acção contra o jornal L’Équipe por publicação de dados pessoas e intransmissíveis, vem agudizar o tema, não sendo despropositado que o mesmo esteja relacionado com o pico alto da modalidade, normalmente período em que este tipo de notícias mais disparam na Imprensa.
A pergunta coloca-se neste momento: Será que os dados em posse da UCI estarão em posse segura?
A resposta, face aos últimos acontecimentos, demonstra leviandade por parte dos dirigentes internacionais, pois tais dados deverão ser utilizados por um número restrito de pessoas, a quem se possa ser pedida responsabilidade em caso de fugas de informação como foi o caso.
Ao fornecer uma lista, classificando os ciclistas, segundo dados contidos no passaporte biológico a uma série de agentes, a UCI perdeu o controlo da situação, demonstrando não estar à altura dos acontecimentos.
Este tipo de classificações e suspeições coloca sérias dúvidas quanto à seriedade dos referidos controlos, face à forma como os ciclistas são submetidos ao controlo anti-doping, onde um determinado número de ciclistas é convocado por sorteio, o que pelos vistos nem sempre assim acontece, o que pode induzir a várias interpretações e conveniências.
José Santos
Falta agora saber se a fuga de informação sobre uma catalogação dos melhores ciclistas há possíveis suspeitas de alteração hematológica, publicada pelo jornal L’Équipe, se ficou a dever à AMA ou à UCI.
Para já o organismo internacional que gere a modalidade defende-se, mas a notícia vinculada pelo jornal organizador do Tour provocou um grande terramoto na credibilidade do ciclismo.
Acreditamos que estas fugas existam com o propósito de descredibilizar a modalidade, colocando-se agora sérias duvidas quanto à seriedade com que são utilizados os resultados obtidos nas diversas análises que fazem parte do passaporte biológico de cada ciclista.
Ao tornar os resultados públicos, a entidade que os divulgou prestou um péssimo serviço á modalidade, desacreditou o passaporte biológico, e provou que, mais uma vez, todos foram enganados.
O passaporte biológico, cujos resultados não podem ser divulgados publicamente, constitui para a entidade que faz o seu controlo um segredo que pode ser bem ou mal guardado, podendo para além do que agora aconteceu, ser um factor de aconselhamento para directores de equipas, que tendo acesso a estas informações poderão beneficiar com o estratagema.
O certo é que, o ciclismo vai de mal a pior, com todo este “ruído“ e quem fica a perder é a modalidade.
Segundo o jornal francês, o documento divulgado não é um recenseamento dos implicados na utilização de produtos dopantes, mas sim de um documento sobre os métodos utilizados pela UCI. A lista foi preparada pela UCI, com a catalogação de todos os 198 ciclistas que alinharam no Tour do ano passado, tendo como base a análise do perfil sanguíneo de cada ciclista (que deveria ser altamente confidencial), mas que pelos vistos foi remetida a uma série de técnicos encarregados do controlo oficial. Um acto que demonstra a leviandade, de quem divulgou indistintamente o referido documento, utilizado agora para denegrir a imagem de ciclistas e, o que é mais grave da modalidade.
Por uma questão de respeito, para com os ciclistas não publicamos a lista em questão, cujo teor não é de forma ALGUMA BASEADO EM MÉTODOS CIENTIFICOS.
JOSÉ SANTOS
Texto e Fotos: Henrique Gomes
Mais do que um jogo de palavras, mais do que uma aritmética de letras, a verdade é que esta época de ciclismo fica representada pela eleição do ciclista colocado na posição 121, da classificação do Tour de France, como o melhor ciclista do ano. Prémio Vélo d’Ór, da famosa revista de ciclismo Vélo Magazine. Os nossos Messi fazem muitas fintas, mas apenas à lei. Cancellara passou no detector, no scan mecânico e no scan farmacêutico. Scan foi a palavra mágica para Cancellara. Positivo nas duas análises. Ou melhor, negativo.
Todo um conjunto de operações de somas, de conjugações, divisões, resultou no número 121, que traduz a posição de Cancellara no Tour 2010. Algo me diz que o resultado do algoritmo, depois de passar no scan, tem muito a haver com o ritmo de pedalada de Cancellara. Claro, falta o scan tecnológico. Mas aí a UCI resolveu a questão, desligando os auriculares. A conclusão é simples: Tudo de errado que entrava no corpo dos ciclistas, passava pelas orelhas. Logicamente. As bicicletas da Saxo Bank estariam com problemas?
Passou-se de meses de suspeição, a fim de Agosto de certezas. Que desgosto! Este foi o ano de Contador. Mas Contador não foi o ciclista do ano. Tudo contado, somado, scaneado, deu que Cancellara fosse eleito o ciclista do ano. Scan, e encontramos Cancellara no fundo da classificação da maior prova de etapas do mundo. KO. Scan, again, e encontramos vários títulos de Cancellara: Mundiais, olímpicos, clássicas, etc. OK. Como vamos classificar os 120 ciclistas que ficaram à frente de Cancellara, no Tour? Este prémio não traduz mais do que a dificuldade em encontrar, na nossa modalidade, valores credíveis e perduráveis. Temos poucos exemplos para dar aos outros. O que é lamentável.
121? Exactamente 121. Capicua e tudo. É verdade, o melhor ciclista do ano 2010,terminou a maior prova de ciclismo do mundo, O TOUR DE FRANCE , na posição 121, a três horas e tal do primeiro. Scan, again. Dificuldades em encontrar quem foi o primeiro nessa corrida. KO. Mas sei que o melhor do mundo terminou essa competição em centésimo vigésimo primeiro. Será que temos de começar a ver as ver as classificações de baixo para cima, do último para o primeiro? Será que os melhores ciclistas, são os que ficam mais perto do último lugar? Inaugurámos uma nova escala referencial? Dramático, quando temos de escolher o melhor do ano, e não sabemos como fazê-lo. Mais grave, parece que escolhemos, entre as anomalias mecânicas e as anomalias farmacêuticas. Afinal premiámos o quê? Talvez o ciclismo e os ciclistas das provas de um dia, ou de uma semana. Não premiámos os melhores ciclistas nas maiores provas mundiais. Este Velo D’ Or, como seria traduzido numa escala Ballon D’Or?
Não percamos tempo, a globalização do ciclismo, faz com que não haja espaço para balanços ou resumos anuais. A época de 2011 já vai lançada. Teremos, em breve, competições muito importantes em vários continentes. A Europa terá direito às suas corridas mais tarde.
A Europa, cuja capital do ciclismo passará para o Luxemburgo. Esta globalização faz com que haja a necessidade de uma comunicação mais universal, uma linguagem muito específica do ciclismo. Vejam algumas dessas palavras, algumas delas muito usadas em Portugal. Será fácil dar exemplos: Sprint, Liberty, Photo-Finish, Contador, Doping, Bidon, Adams, poderemos juntar agora também a palavra Scan. Pegando em algumas destas palavras, elas têm um significado muito particular no ciclismo, não coincidindo com definições de outros desportos ou actividades.
Adams: Não tem nada a ver com chicletes, mas sim com o método de localização permanente dos ciclistas.
Liberty: pode ser traduzido por — Vendedor de ilusões.
Photo-finish — Aparelho que regista a ordem de passagem na meta, mesmo que essa ordem de passagem não coincida com a classificação. Ou seja, o vencedor no ciclismo só pode ser declarado passados alguns meses, e não naquele momento.
Scan—instrumento que busca e encontra os únicos defeitos possíveis no ciclismo: As anomalias mecânicas.
Contador: noutros desportos serve para a medição de algo, contar. No ciclismo é para referenciar alguém que tem problemas com a qualidade da carne que ingere.
Claro tenho medo que a palavra Scan seja a mais usada, e aportuguesada para Scanagens. Ou derivados. Esta época seria marcada pelas anomalias mecânicas em termos de ciclismo de estrada. Tivemos o caso Cancellara e da sua famosa bicicleta, e depois o saltar de corrente de Schleck. Mais, mas do que o saltar de corrente, tivemos o descarrilamento, por erro humano, de Contador. Pecado da carne. Aliás, na nossa modalidade o factor humano é sempre mais importante do que o factor mecânico. Com a longa história de belas perfomances humanas relatadas no ciclismo, o factor mecânico nunca poderia ser o mais importante, o mais realçado no ano de 2010. Até Agosto tínhamos, nós tínhamos um grande problema, um enorme caos na modalidade: O factor humano, o ciclista, tinha sido suplantado pela mecânica. Mas o contador de erros humanos, acabou por ser incrementado pelo caso Contador. Pecado da carne. Depois de Vuelta ao tema, tivemos La Vuelta. Animada até ao fim por duelos encarniçados até ao final, classificações em suspense , até ao último dia. Muito parecido com o Tour. Classificações scaneadas, suspensas. Bem vistas as coisas, se temos imensos casos de ciclistas que não se importam de pôr em risco a sua integridade física, usando e abusando de químicos suspeitos, o que poderemos nós dizer, de umas pequenas aldrabices mecânicas? Pelo menos, estas últimas não punham em perigo a saúde dos praticantes de ciclismo.
Como nós evoluímos! Scan again. Deveriamos também ter um scan pelo qual os ciclistas passariam antes de entrarem em competição. Logo á saída do hotel ou das auto-caravanas. Scan. No final das etapas, bicicletas e ciclistas, scan. Again. Estamos quase ao nível da luta antiterrorismo. Parece que estamos num aeroporto, onde malas e pessoas são scaneados. Aliás, o aeroporto é a consequência mais natural de quem se destaca no ciclismo nacional. Estamos de malas aviadas. Espero que corra tudo bem no scan do aeroporto!
Vai o melhor embora. Os nossos e os quase nossos.
Portugal não renova o seu pelotão. Há apenas movimento na zona de partidas do aeroporto. Quantas corridas vamos ter? Quem vai mandar no pelotão nacional? Quem tomará conta da Lagos Sport?
Pelo menos ficou cá o campeão de popularidade, o eterno segundo, mesmo com a amarela, o dorsal mostra o algarismo fatídico. Quem será o patrão do pelotão nacional no próximo ano?
Scan e chegamos à conclusão
Duplas Saudações a Todos: Velocipédicas e natalícias.
Se ainda não perceberam, dou uma pista: sou um fanático das Astúrias e algumas recordações marcantes da montanha asturiana despertaram-me a escrita. A começar pela companhia que me fez no Verão passado, ao percorrer de bicicleta o Camino del Norte, entre Santander e Santiago de Compostela. Atravessei duma ponta à outra o Principado asturiano e isso equivale a dizer que à minha direita estava o azul do mar (excepto nos cinzentos dias de chuva!) e à esquerda a imponente e omnipresente montanha, como que a lembrar que naquela zona, quando menos se espera, é preciso dar à perna para vencer mais uma subida!
É isso que espera qualquer ciclista nas Astúrias, seja profissional ou um simples pato bravo, e as consequências nem sempre são as melhores. Nunca mais esquecerei aquela Vuelta de 1996, também numa etapa para os Lagos, em que o frenesim mediático esqueceu por completo a cabeça da corrida e a luta pela vitória para se centrar na rectaguarda do pelotão, naquele gigante que, ao passar em frente ao hotel da equipa, decidiu que acabava ali a sua brilhante carreira. Carros, motas, fotógrafos… Em seu redor havia uma multidão, mas ele seguramente sentia-se mais sozinho que nunca, enquanto virava o guiador rumo à entrada do hotel, pousava a bicicleta à porta e penetrava no hall, abandonando o mundo dos meros mortais e entrando na dimensão dos mitos. Nesse dia em que Miguel Indurain deixou de pedalar, nem me lembro de quem ganhou a etapa, mas também não esquecerei a imagem de Alex Zulle, então candidato ao pódio final, debruçado sobre as barreiras depois da meta, aflito, enquanto levava a mão ao bolso, à procura da bomba da asma…
A montanha asturiana pode ser implacável e isso mesmo presenciei ao vivo uns anos mais tarde, numa Vuelta que cobri para o jornal O JOGO, quando da primeira chegada ao Angliru. Embraiagens de carros e motos a queimar, ciclistas aos “esses” e a loucura dos adeptos ao longo da subida foram detalhes que apenas vi pela televisão porque eu fui ver a passagem dos corredores no sopé desse colosso, mesmo antes duma curva à esquerda onde se inicia a sua ascensão e onde chegou um pelotão partido em mil bocados, depois de várias outras subidas.
Em cada ciclista havia uma marca de guerra – não havia um que não tivesse o equipamento rasgado, ramos e folhas agarradas à bicicleta ou arranhões bem visíveis na pele por entre os buracos do calção ou da jersey…
Como se não bastasse o que vira nos outros, até eu estive a milímetros de sofrer na pele os rigores da montanha asturiana e de um daqueles dias típicos de chuva miudinha que tornam aquelas estradas em autênticas pistas de esqui! A sorte foi haver um pequeno muro no exterior da curva em que o carro fugiu de frente, caso contrário não estaria aqui para contar, tal era o precipício.
Em jeito de moral da história, apetece-me dizer que sair vivo da montanha asturiana já é uma grande vitória. E quem não acredita só tem uma coisa a fazer, ir lá e testemunhar na primeira pessoa o seu carácter majestoso mas implacável.
João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.
Há alguns anos – creio que foi em 1995 – fiz uma entrevista a Adriano Baffi que me marcou positivamente. O cotado “sprinter”, que infelizmente ficou mais conhecido por ter provocado uma queda tremenda ao então companheiro de equipa Cipollini numa chegada, estava em final de carreira e veio à Volta a Portugal.
Com a tranquilidade que só os anos dão e respaldado por um palmarés respeitável, Baffi mostrou-me um lado filosófico que vi em muito poucos ciclistas e atrevo-me mesmo a dizer em, muito poucos desportistas profissionais. Talvez à excepção de Pedro Horrillo, mas isso é outra conversa.
Disse-me na altura o italiano, traduzindo em palavras aquilo que certamente muitos pensam mas temem ou não conseguem expressar, que o ciclista é um grande humanista. E porquê? Porque além dos valores ecológicos facilmente associáveis à bicicleta, é alguém com enorme espírito de sacrífício e isso ensina a dar valor às coisas que realmente importam.
Neste ponto é legítimo perguntarem-se se não seria o facto de já ter uma conta bancária bem recheada que lhe permitia ter esta atitude relaxada e contemplativa. Talvez sim, mas prefiro acreditar que há características positivas que nascem e se desenvolvem com as pessoas, independentemente das condições materiais.
Vem esta recordação do Adriano Baffi a propósito da recente notícia de que a Milram vai usar bidões biodegradáveis de forma a contribuir para a preservação ambiental. Numa perspectiva de golpe publicitário, não podia vir mais a propósito, tendo coincidido praticamente com a badalada cimeira de Copenhaga, onde se discutem emissões de gases em vez de se pensar como encher os estômagos dos milhões que morrem de fome por esse planeta fora…
Caso não se tenha tratado de um mero golpe publicitário, penso que a Milram resolveu aquele que, para mim, sempre foi um dos grandes enigmas do ciclismo e, ao mesmo tempo, provavelmente a sua maior contradição: como pode o ciclismo representar os valores da ecologia e o ciclista ser um profundo humanista, logo amigo do ambiente, se cada temporada de corridas significa deixarem-se centenas, milhares, milhões de bidões de plástico pelas bermas das estradas, por montes e vales, alguns dos quais quase imaculados pela privilegiada localização, em altitude ou em zonas de difícil acesso?
É evidente que há também o aspecto dos gases de escape, de carros de apoio, veículos das caravanas publicitárias ou motas que acompanham as corridas, mas é melhor deixar isso para depois… Para já, parece-me que esta atitude da Milram, além de excelente promoção para a equipa, está a dar razão a Adriano Baffi e às suas palavras sábias de há mais de uma década: o ciclismo e os ciclistas são profundos humanistas.
João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.