O cadete João Pinto e o júnior Daniel Freitas acusaram morfina nos controlos antidopagem a que foram sujeitos durante as Voltas a Portugal dos respectivos escalões. O dr. Luís Horta, principal rosto da luta antidopagem em Portugal, esclarece, em declarações ao Jornal Ciclismo, que a morfina pode formar-se no organismo através da metabolização de outra substância, a codeína. A morfina tem uso interdito no desporto, a codeína não faz parte da lista de substâncias proibidas. Não havendo provas de que o resultado dos testes antidopagem resultaram do consumo de morfina e não apenas da metabolização da codeína, os dois corredores deverão ser ilibados – João Pinto já o foi. Estes são os factos, mas importa deles extrair algumas conclusões.
A primeira de todas é a de que não faz sentido dizer que o dr. Luís Horta está a defender os corredores. Quem está atento às questões da dopagem sabe que o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal tem mão dura contra todos os prevaricadores. Mais: não faria sentido que um cientista reputado, como é o caso, viesse a público dizer que, em tese – nunca fala no caso concreto dos dois jovens corredores – é possível que a morfina encontrada na urina tenha resultado do consumo de codeína. Portanto, a primeira conclusão diz-nos que o dr. Luís Horta cumpriu escrupulosamente os seus deveres, não protegendo da lei os dois corredores.
A segunda conclusão a retirar é sobre o comportamento da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) nesta matéria. Ao contrário da maior parte das congéneres de outras modalidades, a entidade que gere o ciclismo em Portugal tem assumido de peito aberto o combate à dopagem. Merece, por isso, aplausos. Sem provas em contrário, não podemos dizer que a FPC decidiu fechar os olhos e beneficiar João Pinto e Daniel Freitas. Temos de acreditar na boa-fé das decisões e, portanto, aceitar que a ilibação resulta dos pareceres científicos sobre a matéria.
Em suma, crendo na boa-fé de todos, não houve favorecimento e tudo não passou de um mal-entendido, pois, afinal, não foram violados os regulamentos antidopagem. Fecham-se os processos disciplinares e assunto encerrado. Certo? Não. Errado. Este parece ser o caminho que a FPC se prepara para seguir, mas não me parece que seja a forma mais correcta de lidar com o problema.
Admitindo que João Pinto e Daniel Freitas ingeriram codeína, que é uma substância legal, temos, por si só, um grave problema. Ainda que pouco potente, a codeína é um opiáceo, da família da morfina e da heroína. Ainda que a coberto dos regulamentos antidopagem, é admissível que seja administrado um opiáceo a pelo menos dois adolescentes? Quem foi o responsável por essa administração e que doses foram consumidas pelos jovens corredores? São questões em aberto que, através da diplomacia do relacionamento entre a FPC e o clube dos atletas, têm de ser esclarecidas. Já o foram? Há movimentações nesse sentido? Não sabemos, da FPC não transpirou nada nesse sentido, o que é, no mínimo, um erro de comunicação.
Este caso exige que se vá para lá da mera gestão burocrática dos processos disciplinares. Quem deu opiáceos – que provocam risco de morte, como afirma o dr. Luís Horta ao Jornal Ciclismo – a dois adolescentes não pode continuar na modalidade. Tem, no mínimo, de ser convidado pela FPC a afastar-se do ciclismo de formação. É impensável que tudo continue como se nada fosse. Afinal de contas, quantos corredores, a nível mundial, já morreram vítimas da adicção às drogas? Sem puxar muito pela memória, lembro-me de três: Marco Pantani, José Maria Jiménez e Frank Vandenbroucke. Podem perfeitamente ter começado a escalada das drogas por opiáceos legais e pouco potentes…
A audiência do sítio www.jornalciclismo.com continua a crescer. Em Janeiro de 2010, o Jornal Ciclismo recebeu 55.478 visitas únicas, que corresponderam a 170.630 notícias abertas. Em média, cada visitante permaneceu neste sítio durante 4m02s. Estes números são, por si só, esclarecedores quanto ao sucesso deste projecto, mas tornam-se ainda mais relevantes quando comparados com o passado.
Colocando lado a lado os números de Janeiro de 2010 com as cifras relativas a Janeiro de 2009, percebe-se que o crescimento das audiências é exponencial. No primeiro mês de 2009, o Jornal Ciclismo recebeu 12.814 visitas, correspondentes a 37.312 páginas vistas. Ou seja, em Janeiro de 2010, comparando com o mês homólogo do ano anterior, assistiu-se a um aumento de 332,9% das visitas e de 357,3% de páginas vistas.
Se compararmos os resultados de Janeiro de 2010 com a média mensal de todo o ano de 2009, concluímos que o crescimento das audiências é também uma realidade, apesar de os dados relativos ao ano transacto incluírem os meses de Julho e de Agosto, quando, por via da Volta a França e da Volta a Portugal, a audiência é sempre muito mais elevada do que nos outros meses.
Em 2009, a média mensal de acessos ao Jornal Ciclismo foi de 36.890 e a média mensal de notícias lidas ascendeu a 122.816. Ou seja, no primeiro mês de 2010, o sítio www.jornalciclismo.com teve mais 50,4% de visitas do que na média de 2009 e mais 38,9% de notícias lidas, num claro reforço do crescimento e da implantação deste projecto, para o qual contribuiu a mudança gráfica e a melhoria dos conteúdos.
O Jornal Ciclismo agradece aos leitores e aos anunciantes o contributo para este crescimento.
Se ainda não perceberam, dou uma pista: sou um fanático das Astúrias e algumas recordações marcantes da montanha asturiana despertaram-me a escrita. A começar pela companhia que me fez no Verão passado, ao percorrer de bicicleta o Camino del Norte, entre Santander e Santiago de Compostela. Atravessei duma ponta à outra o Principado asturiano e isso equivale a dizer que à minha direita estava o azul do mar (excepto nos cinzentos dias de chuva!) e à esquerda a imponente e omnipresente montanha, como que a lembrar que naquela zona, quando menos se espera, é preciso dar à perna para vencer mais uma subida!
É isso que espera qualquer ciclista nas Astúrias, seja profissional ou um simples pato bravo, e as consequências nem sempre são as melhores. Nunca mais esquecerei aquela Vuelta de 1996, também numa etapa para os Lagos, em que o frenesim mediático esqueceu por completo a cabeça da corrida e a luta pela vitória para se centrar na rectaguarda do pelotão, naquele gigante que, ao passar em frente ao hotel da equipa, decidiu que acabava ali a sua brilhante carreira. Carros, motas, fotógrafos… Em seu redor havia uma multidão, mas ele seguramente sentia-se mais sozinho que nunca, enquanto virava o guiador rumo à entrada do hotel, pousava a bicicleta à porta e penetrava no hall, abandonando o mundo dos meros mortais e entrando na dimensão dos mitos. Nesse dia em que Miguel Indurain deixou de pedalar, nem me lembro de quem ganhou a etapa, mas também não esquecerei a imagem de Alex Zulle, então candidato ao pódio final, debruçado sobre as barreiras depois da meta, aflito, enquanto levava a mão ao bolso, à procura da bomba da asma…
A montanha asturiana pode ser implacável e isso mesmo presenciei ao vivo uns anos mais tarde, numa Vuelta que cobri para o jornal O JOGO, quando da primeira chegada ao Angliru. Embraiagens de carros e motos a queimar, ciclistas aos “esses” e a loucura dos adeptos ao longo da subida foram detalhes que apenas vi pela televisão porque eu fui ver a passagem dos corredores no sopé desse colosso, mesmo antes duma curva à esquerda onde se inicia a sua ascensão e onde chegou um pelotão partido em mil bocados, depois de várias outras subidas.
Em cada ciclista havia uma marca de guerra – não havia um que não tivesse o equipamento rasgado, ramos e folhas agarradas à bicicleta ou arranhões bem visíveis na pele por entre os buracos do calção ou da jersey…
Como se não bastasse o que vira nos outros, até eu estive a milímetros de sofrer na pele os rigores da montanha asturiana e de um daqueles dias típicos de chuva miudinha que tornam aquelas estradas em autênticas pistas de esqui! A sorte foi haver um pequeno muro no exterior da curva em que o carro fugiu de frente, caso contrário não estaria aqui para contar, tal era o precipício.
Em jeito de moral da história, apetece-me dizer que sair vivo da montanha asturiana já é uma grande vitória. E quem não acredita só tem uma coisa a fazer, ir lá e testemunhar na primeira pessoa o seu carácter majestoso mas implacável.
João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.
Há alguns anos – creio que foi em 1995 – fiz uma entrevista a Adriano Baffi que me marcou positivamente. O cotado “sprinter”, que infelizmente ficou mais conhecido por ter provocado uma queda tremenda ao então companheiro de equipa Cipollini numa chegada, estava em final de carreira e veio à Volta a Portugal.
Com a tranquilidade que só os anos dão e respaldado por um palmarés respeitável, Baffi mostrou-me um lado filosófico que vi em muito poucos ciclistas e atrevo-me mesmo a dizer em, muito poucos desportistas profissionais. Talvez à excepção de Pedro Horrillo, mas isso é outra conversa.
Disse-me na altura o italiano, traduzindo em palavras aquilo que certamente muitos pensam mas temem ou não conseguem expressar, que o ciclista é um grande humanista. E porquê? Porque além dos valores ecológicos facilmente associáveis à bicicleta, é alguém com enorme espírito de sacrífício e isso ensina a dar valor às coisas que realmente importam.
Neste ponto é legítimo perguntarem-se se não seria o facto de já ter uma conta bancária bem recheada que lhe permitia ter esta atitude relaxada e contemplativa. Talvez sim, mas prefiro acreditar que há características positivas que nascem e se desenvolvem com as pessoas, independentemente das condições materiais.
Vem esta recordação do Adriano Baffi a propósito da recente notícia de que a Milram vai usar bidões biodegradáveis de forma a contribuir para a preservação ambiental. Numa perspectiva de golpe publicitário, não podia vir mais a propósito, tendo coincidido praticamente com a badalada cimeira de Copenhaga, onde se discutem emissões de gases em vez de se pensar como encher os estômagos dos milhões que morrem de fome por esse planeta fora…
Caso não se tenha tratado de um mero golpe publicitário, penso que a Milram resolveu aquele que, para mim, sempre foi um dos grandes enigmas do ciclismo e, ao mesmo tempo, provavelmente a sua maior contradição: como pode o ciclismo representar os valores da ecologia e o ciclista ser um profundo humanista, logo amigo do ambiente, se cada temporada de corridas significa deixarem-se centenas, milhares, milhões de bidões de plástico pelas bermas das estradas, por montes e vales, alguns dos quais quase imaculados pela privilegiada localização, em altitude ou em zonas de difícil acesso?
É evidente que há também o aspecto dos gases de escape, de carros de apoio, veículos das caravanas publicitárias ou motas que acompanham as corridas, mas é melhor deixar isso para depois… Para já, parece-me que esta atitude da Milram, além de excelente promoção para a equipa, está a dar razão a Adriano Baffi e às suas palavras sábias de há mais de uma década: o ciclismo e os ciclistas são profundos humanistas.
João Araújo é jornalista do Jornal OJOGO e colaborador desde a primeira edição do Jornal Ciclismo.
Os elogios ao Jornal Ciclismo chegam de onde menos se espera e vindos até de quem julga estar a criticar-nos. Por exemplo, a edição electrónica da Bike Magazine resolveu dedicar-nos uma prosa, que só vem demonstrar a qualidade do nosso trabalho, provando, mais uma vez, a nossa independência face a todo o tipo de pressões e demonstrando que, para nós, o mais importante são os leitores e que trabalhamos para lhes dar a melhor informação em primeira mão.
Em causa está um artigo aparentemente inócuo mas que parece ter incomodado muita gente. A propósito desse artigo, a Bike Magazine – http://www.bikemagazine.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=769&Itemid=27 – faz uma espécie de descrição do “jornalismo” que costuma praticar. Diz que sabe uma informação, mas que só a publicará quando para isso tiver autorização. Além disso, ainda sugere que deveríamos revelar uma fonte e retirar uma notícia verdadeira, só porque surgiu numa altura, alegadamente, inconveniente.
Para que fique claro e para que as águas se separem, podemos garantir que o Jornal Ciclismo não se move nestas teias de interesses. A nossa missão é informar e a razão de ser da nossa existência são os nossos leitores. Sabemos que a missão de outros é facturar e que a razão da sua existência são os contratos de publicidade. Cada um no seu ramo, portanto. Os nossos leitores sabem que podem contar com informação quando ela tiver importância e quando a ela tivermos acesso por meios legítimos. Os leitores de outras publicações sabem que, mais importantes do que eles próprios, são outros interesses que mais alto se levantam.
João Santos
José Carlos Gomes