Alberto Contador, o campeão avesso à polémica

22 Fev 2010

Alberto Contador tem apenas 27 anos e conseguiu algo que nenhum outro corredor em actividade alcançou: o triunfo nas três grandes voltas por etapas: Tour (duas vezes), Giro e Vuelta. Apesar disso, não é uma estrela com mediatismo à dimensão das suas qualidades em cima da bicicleta. O motivo? Talvez a personalidade reservada do espanhol, como se percebe pela entrevista colectiva, que concedeu ao início da noite na véspera do contra-relógio da Volta ao Algarve. Entre o grupo restrito de jornalistas presentes, encontravam-se os do Jornal Ciclismo.

José Carlos Gomes

Enquanto Lance Armstrong não tem pejo em dizer que a rivalidade com Alberto Contador é benéfica para o ciclismo, pois aumenta o mediatismo da modalidade, o espanhol recusa dizer quem é o responsável pela polémica – “a história está aí, façam o que quiserem com ela” -, sublinhando que “preferia não ter tido de lidar” com esse assunto, sobretudo enquanto partilhavam a mesma equipa.

Apesar de todas as diferenças entre Armstrong e Contador, há algo que têm em comum para lá da qualidade como ciclistas: os dois lutaram contra a morte e venceram. O estadunidense conseguiu ultrapassar um cancro testicular. O espanhol foi operado a um aneurisma cerebral. “Lamento o sofrimento por que passaram os meus familiares, mas ter estado numa cama de hospital, sem saber o que me ia acontecer, ajudou-me a ter outra perspectiva da vida e a aproveitar cada momento e cada coisa tão simples como dar um passeio ou tomar um café com um amigo. Acredito que me fez bem tudo aquilo por que passei”, afirma Contador com uma frieza desarmante.

O italiano Riccardo Riccò disse recentemente à revista ProCycling que se dopou porque é da natureza humana “querer ser mais forte, melhor, mais rico”. “À custa de quê?”, pergunta Alberto Contador como forma de discordar da afirmação do adversário. Depois de várias demonstrações de superioridade individual na estrada, o espanhol viu-se amputado dos melhores companheiros de equipa, levados por Lance Armstrong e por Johan Bruyneel para a nova RadioShack. Terá Armstrong ficado mais forte do que Contador com esta jogada? “Tenho mais medo da RadioShack do que de Armstrong”, reage o ciclista da Astana, antes de enumerar uma longa lista de potenciais adversários no Tour: “Leipheimer é muito forte, há Klöden e… – pausa para respirar fundo – Armstrong. Há outros que estão a evoluir, como Bradley Wiggins, Cadel Evans ou Kreuziger, Gesink, Sastre e Valverde. Na montanha, confesso que tenho curiosidade em ver como se sai Andy Schleck, aquele que me deu mais trabalho”, elogia.

Alberto Contador tem noção de que o sucesso, na presente temporada e, especialmente, na Volta a França, dependerá de factores tácticos. Tendo perdido grande parte dos companheiros de equipa, que estão juntos em redor de Lance Armstrong, poderá o espanhol ficar em dificuldades? Pode. Mas o elogio ao mais novo do clã Schleck é já um sinal de que procura fora da Astana alianças que poderão ser-lhe úteis em momentos de aperto. Apesar disso, demonstra confiança na nova estrutura da Astana. E não o faz apenas para cumprir o dever de dizer bem dos novos escudeiros. Nota-se-lhe o brilho no olhar e a genuína felicidade por ser o indiscutível chefe-de-fila.

Mudou a motivação dos ciclistas, a dedicação. E isso vê-se em simples detalhes, como, por exemplo aqui, na Volta ao Algarve, em que ‘discutem’ entre si para ir buscar água, para puxar na frente do pelotão. Todos querem ajudar. O Giuseppe Martinelli fez um excelente trabalho na união do grupo. Tê-lo no carro de apoio é um luxo, pois, além de ter dirigido grandes campeões, como Marco Pantani, é alguém com quem estabeleci uma relação de confiança mútua. Seremos uma boa dupla”, espera o espanhol.

Será que a dupla Martinelli-Contador poderá estreitar laços que a façam assemelhar-se ao tandem Bruyneel-Armstrong? As respostas de Alberto Contador sobre o futuro não o esclarecem. Mesmo sendo um dos mais eficazes corredores da história, pois raramente deixa escapar o triunfo quando participa numa competição cujo traçado se adapta a ciclistas completos, o ciclista da Astana ainda não “assentou” num bloco sólido, moldado à sua imagem, transitando de equipa e nem sempre sendo bem tratado, como aconteceu no ano passado, quando era claramente o patinho feio de Johan Bruyneel. “Se calhar, quando estiver tranquilo e tiver uma equipa completamente dedicada a mim, não serei capaz de obter os mesmos resultados. De momento, não me queixo…”, adianta Alberto Contador, que tem contrato até final de 2010 com a Astana.

O longo defeso – 7 meses sem competir – e a incerteza quanto ao futuro consumiram muitas energias ao vencedor da última Volta a França. Percebe-se que o corredor quer recuperar o tempo perdido, pedalar para muitas consagrações, antes de enfrentar o principal desafio: conquistar o terceiro Tour da carreira. Por isso, é natural que não queira alimentar polémicas. À semelhança das respostas esquivas em relação a Armstrong, Alberto Contador opta pelo politicamente correcto para abordar a tendencial proibição de auriculares nas corridas. Mesmo que homens mais ofensivos, como ele, tenham a ganhar com a ausência de controlo remoto, o espanhol prefere fazer sua a opinião generalizada do pelotão, ainda que cuidadosamente e sem discordar abertamente da UCI: “As comunicações não são unicamente para dar indicações do género ‘agora puxas tu, agora puxas tu’. Para isso estamos nós, os ciclistas, que organizamos o funcionamento da equipa dentro da corrida. E há situações de corrida, como um furo, uma avaria, uma queda. Imagine uma ambulância em sentido contrário na corrida, coisas desse tipo. Somos avisados pelo rádio para termos cuidado. Há que analisar todos os aspectos para perceber se está a funcionar ou não”.

A entrevista colectiva começou atrasada, porque o ciclista fora experimentar, pela primeira vez, a bicicleta de contra-relógio que vem substituir aquela em que vinha treinando e que foi vetada pela UCI. A humildade do pedido de desculpas pela espera a que sujeitou os jornalistas não foi forçada. Alberto Contador revelou-se simpático, acessível, sem vedetismos e pouco interessado em polémicas. A explicação para este comportamento parece-nos lógica: quem pode ganhar com as pernas, dando aos pedais, não precisa de jogos psicológicos.


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4 Comentários

  1. fa3inhu

    Ainda é cedo para os jogos psicológicos… Acredito que um ou 2 meses antes do inicio da volta a frança, ele responderá ao senhor Lance,,, tudo a seu tempo, mas parece-me humilde, já tem o seu lugar na história do ciclismo com apenas 27 anos, tem muitas conquistas pela frente…

  2. Rodrigo Amado

    É com pequenos gestos que se fazem grandes campeões.
    Só tenho pena que os outros Media não olhem para o Ciclismo como deveriam.

  3. Carlos Pinto

    Até há pouco tempo, pouco me dizia o Ciclismo. Normalmente via o Tour e pouco mais.
    Este jovem ainda tem muito que mostrar, e tenho a certeza que o fará. A humildade é algo que fica bem sem ser forçada, o que neste caso não me parece. Acho que a guerra com o Armstyrong A luta Trek/SPecialized, vai ser iteressante, mas aposto os meus euros na juventude e na Specialized desta vez.

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