Lance Armstrong: muito mais do que um simples regresso

Armstrong aos 37 anos | Foto: DR

Lance Armstrong, por força do seu palmarés e da sua extraordinária história pessoal, é uma das figuras incontornáveis da história do desporto, ou seja, ultrapassa em muito a fronteira da modalidade em que se notabilizou.

Por João Araújo, jornalista

Se as sete vitórias no Tour, independentemente de toda a polémica e suspeição que possa existir em volta delas, fizeram dele um mito do ciclismo, já o drama do diagnóstico e a vitória sobre o cancro o tornaram um semideus dos tempos modernos aos olhos do cidadão comum, mesmo aquele que não conhece nem se interessa pelo número de vezes que foi o melhor na Volta a França!
Se a estas duas perspectivas em que é vista a sua carreira – a especializada e a generalista – juntarmos o facto de Armstrong estar desde há vários anos ligado a uma multinacional desportiva (a Nike), penso que está explicado o porquê de esta anunciada volta do norte-americano à competição poder ser vista como muito mais do que um mero regresso.
Tudo aquilo que ele faz tem um impacto enorme em termos de comunicação social e a maior prova disso são as duas recentes corridas em que participou e que passaram do completo anonimato ao vocabulário do meio velocipédico – a Leadville 100 e o Tour de Gruene. A primeira, uma duríssima corrida de BTT nas Montanhas Rochosas em que foi segundo, serviu para se convencer de que estava em condições de encetar um regresso; a segunda, neste último fim-de-semana, já foi um teste mais sério às suas capacidades actuais, uma vez que é composta por um contra-relógio individual e outro por duplas de corredores. Armstrong quis testar a sua capacidade de sofrimento e, para isso, nada melhor do que a prova solitária!
Quem viu fotos de Armstrong neste Tour de Gruene perceberá o que eu quis dizer atrás quando associei o seu nome à Nike: o heptavencedor do Tour não se apresentou à partida com um equipamento que estava guardado no armário – fê-lo com um fato de “crono” todo preto, onde se via bem o logótipo da marca desportiva e o nome da sua fundação, a Livestrong. O fenómeno da sua volta à competição, além da vertente humanitária da luta contra o cancro terá certamente um lado publicitário a ser naturalmente explorado pelos seus sponsors. E este é outro dos aspectos que conferem ao ciclista texano aquela dimensão extra, que o coloca ao nível dos maiores fenómenos desportivos dos últimos anos, em que a carreira, o mérito e o mediatismo se confundem e multiplicam, casos de um Jordan, um Beckham, um Schumacher ou mesmo um Tiger Woods, talvez o melhor exemplo de alguém cuja imagem é claramente mais popular do que a sua modalidade.

Zangado com o Mundo?

Há dias vi um documentário sobre a vida e a carreira de Lance Armstrong que me pôs a pensar sobre este regresso. Entre outras coisas, recordava-se o seu início de carreira desportiva, primeiro no triatlo e depois no ciclismo, e recuperava-se a imagem que ele tinha: a de alguém extremamente arrogante e conflituoso. Não foi por acaso que no pelotão internacional ganhou a alcunha de “cowboy”. Queria ser o melhor e reconhecido como tal, mas a verdade é que o seu nível competitivo não era, nem de longe nem de perto, aquele que viria a exibir anos mais tarde. Era um bom corredor, capaz de vencer corridas de um dia (como um campeonato do Mundo) e etapas em grandes voltas, mas nada mais.
Por isto interrogo-me sobre a origem da força interior de Lance Armstrong. Virá da motivação positiva que dá uma vitória sobre uma doença que poderia ter sido mortal ou, pelo contrário, do facto de isso ter contribuído para acentuar a sua zanga com o Mundo, que dura pelo menos desde a infância?

A gestão do sofrimento

Aqui chegado, penso que é altura de fazer um parêntesis e confessar que admiro Armstrong pelo que conseguiu mas que não consta da minha lista de ídolos no ciclismo, pois valorizo muito mais um certo tipo de corredores “instintivos”, capazes de ganhar qualquer tipo de corrida, em especial se isso significar incutir-lhe incerteza e fugir ao que está “programado”!
Contudo, Armstrong intriga-me pela natureza da sua motivação, que atribuo a uma estranha vontade de sofrer. Se a capacidade de suportar e de lidar com o sofrimento é aquilo que faz a diferença em modalidades como o ciclismo, no caso de Armstrong penso tratar-se de algo que vai mais além: não se trata apenas de se superiorizar aos demais mas sim a ele mesmo e à sua capacidade de sofrimento. Como se, depois das provações a que foi submetido pela luta contra o cancro, tenha a necessidade de sentir que controla o sofrimento: já não é algo exterior a ele mas sim auto-imposto, controlado por ele. Como se Armstrong, mais do que ser feliz em cima duma bicicleta, necessite de estabelecer novos limites para o seu sofrimento.

Coincidência ou superstição?

O segundo lugar na extenuante Leadville 100, depois de um intenso “mano a mano” com o futuro vencedor, parece tê-lo convencido de que ainda tem essa capacidade de sofrer, enquanto no “crono” individual do Tour Gruene terá redescoberto essa estranha capacidade de redefinir os limites do seu organismo.
Não deixa de ser curioso que Lance Armstrong tenha escolhido esta corrida para se testar antes do regresso ao ciclismo de competição. Poderia argumentar-se com a proximidade da sua residência, em Austin, mas a verdade é que foi ali que fez a primeira aparição depois de lhe terem diagnosticado o cancro, em 1996, na companhia do lendário Eddy Merckx, e a primeira prova após a operação, em 1997, junto ao compatriota Kevin Livingstone. Se é algum tipo de superstição ou de presságio só o tempo dirá, mas os sinais estão todos lá: desde o tom crítico com que comentou a sua participação, apesar da clara vitória, até à declaração de que, com o apoio do público, o sofrimento tornou-se mais suportável. Como se Armstrong, competidor nato na vida e no desporto, não pudesse passar sem esse mesmo sofrimento e sinta a necessidade de estabelecer novas fronteiras com o único objectivo de superá-las e assim sentir que está vivo.

* texto originalmente publicado na edição nº 33 do Jornal Ciclismo

2 comentários a “Lance Armstrong: muito mais do que um simples regresso”

  1. Sem duvida o melhor de todos os tempos,velhos sao os trapos…….nao tem q mostrar mais nada a ninguém.

  2. Fantástico artigo. Lance Armstrong, sem dúvida o melhor de todos os tempos. Em relação ao seu regresso associado à publicidade e divulgação da instituição de luta contra o cancro, acho muito bem. Assim como o Jordan, quando fez o seu segundo regresso, também o Lance, vai dar espectáculo. Durante a sua ausência, parece que a volta a frança perdeu o interesse. Este ano, vou acompanhar de certeza.

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