A memória dos antigos nas pernas dos novos

Por João Araújo, jornalista

O ciclismo vive o seu defeso, altura em que se chora o fim de algumas equipas mas se saúda o crescimento ou nascimento de outras. Para os corredores, a pré-temporada é a altura em que se começa a trabalhar o corpo e a mente a pensar em futuras conquistas e para os amantes da modalidade é quando se renovam as esperanças numa época de corridas disputadas, empolgantes e que, se possível, permitam assistir ao nascimento de novos valores.
Nesse sentido, o ano de 2009 parece ter tudo para superar as expectativas. A nível internacional, um só factor garantidamente devolverá o ciclismo às primeiras páginas: o regresso de Lance Armstrong, para o bem ou para o mal, arrastará consigo a atenção dos meios de comunicação de todo o Mundo. Daí que a organização do Giro, que vai comemorar o centenário, tenha sido genial ao garantir a presença do heptavencedor do Tour, ainda de candeias às avessas com os franceses por causa das intermináveis (mas não provadas) suspeitas de doping…
A nível nacional, as coisas passam-se naturalmente num outro plano de mediatismo, mas não deixam de ser igualmente curiosas. Tal como em relação a Armstrong, está em perspectiva uma espécie de regresso ao passado: os dois maiores clubes de Lisboa, outrora protagonistas de  episódios épicos do ciclismo português e que também por causa disso se tornaram grandes a nível nacional, deverão reeditar essas batalhas das duas rodas, mas no escalão de sub-23.
Benfica e Sporting – é quase garantido – terão equipas do escalão de esperanças e em Portugal, está provado, não há melhor maneira de atrair público para seja qual for a modalidade do que o envolvimento dos grandes, ainda que os sponsors possam queixar-se de falta de visibilidade…
Para completar o quadro, acrescente-se que no Cartaxo vai surgir uma formação profissional como forma de homenagear a memória de Nicolau e Trindade, antigas glórias do ciclismo nacional e… do Benfica e do Sporting! Como se o destino desta modalidade tão nobre fosse um eterno regresso ao passado como forma de garantir o futuro.
Questões filosóficas à parte, é inegável que o escalão secundário arrisca-se a ter honras de protagonista na época que se avizinha. E talvez isso possa vir a servir de paliativo ao sentimento de injustiça que certamente percorre os integrantes da Selecção Nacional de sub-23 que este ano ganhou a Taça das Nações e nem sequer se encontrava entre os nomeados para equipa do ano da Confederação do Desporto. Pode ser que enquanto uns se preparavam para desfilar nas carpetes do Casino do Estoril, esses outros esquecidos treinavam para passear classe pelas estradas portuguesas.

* Texto originalmente publicado na edição nº 33 do Jornal Ciclismo