Caso LA-MSS faz meio ano

Cumpre-se hoje meio ano desde que a face visível da investigação policial à equipa de ciclismo profissional LA-MSS se revelou, com uma operação de busca em casa dos corredores, direcção desportiva e sede da equipa. Seis meses após essas buscas mediáticas, o processo desdobrou-se em dois tabuleiros cujo desenlace parece estar à vista: a consolidação de eventuais provas dirá em breve se o inquérito passará a acusação e possível julgamento da prática de crimes de dopagem e corrupção no desporto, tal como o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) se pronunciará sobre o caso, sabendo-se que, para já, continua a auscultação dos corredores suspensos.

As últimas notícias apontam para alguns desenvolvimentos. A FPC já recebeu um segundo relatório com resultados das análises feitas no estrangeiro aos produtos apreendidos pela Polícia Judiciária e que não tinham qualquer rótulo. Além disso, o presidente da FPC, Artur Lopes, admitiu haver duas amostras recolhidas aquando da operação de 19 de Maio em que foram encontradas “substâncias anormais”, pelo que está a decorrer um processo sobre essa matéria.

Em termos de responsabilidade criminal, há por enquanto dois arguidos, Cláudio Faria e Afonso Azevedo. Mas uma fonte citada pela Agência Lusa, não exclui a possibilidade de virem a ser constituídos outros arguidos num caso que se arrasta e que está a provocar o desespero dos envolvidos, que não recebem salários há quatro meses. Alguns elementos estão até a accionar o fundo de garantia bancária, embora o principal patrocinador, Luís Almeida, não esteja pelos ajustes e pretenda ser ressarcido dos prejuízos que, alega, a situação lhe criou. Ou se confirmam as suspeitas e a equipa/empresa tem razões para despedimentos por justa causa ou não se confirmam e o empresário poderá pensar em processar as instâncias que levaram ao afastamento da equipa das estradas.

Uma revisão da cronologia dos eventuais factos relevantes do ano da LA-MSS mistura resultados desportivos – que não passaram incólumes sob o pior dos estigmas do ciclismo, a suspeita – com acontecimentos de valor extra-desportivo, como o caso da trágica desaparição de Bruno Neves, vítima de uma insuficiência respiratória aguda, seguida de arritmia cardíaca, em pleno esforço na Clássica de Amarante, a 11 de Maio.

O inquérito judicial que se revelou a 19 de Maio, uma semana após a vitória de Pedro Cardoso e da equipa no GP Internacional de Paredes abriu uma recomendação da FPC à exclusão de LA-MSS das provas portuguesas, mais tarde substituída, em Junho, pela suspensão de nove elementos da equipa. Afonso Azevedo, Cláudio Faria, Pedro Cardoso, Rogério Baptista e Tiago Silva, o presidente do Póvoa Cycling Clube Luís Almeida, o director-desportivo, Manuel Zeferino, o médico espanhol, Marcos Maynar, e o massagista Paulo Silva foram suspensos alegadamente após conhecidos os resultados preliminares do material apreendido aquando das buscas efectuadas pela PJ, com a colaboração do CNAD.

A suspensão de parte nuclear da equipa ocorre dois dias antes da disputa dos Campeonatos Nacionais, a 29 de Junho. Os dois únicos corredores portugueses não suspensos, tomaram parte na prova em Paredes, tendo pedalado contra as adversidades até à vitória, com o título conquistado por João Cabreira. A última competição oficial na qual a LA-MSS tomou parte, nessa altura já decapitada pela demissão do presidente Luís Almeida foi a Volta a Madrid a Clássica de Villafranca de Ordizia, na qual Bruno Pires foi segundo classificado.

Com a decisão de exclusão da equipa da Volta a Portugal, a actividade desportiva da equipa esgotou-se, confirmando o receio de continuidade do projecto de ciclismo profissional na Póvoa de Varzim que, recorde-se, vivia o primeiro ano de concretização tendo transitado da União Ciclista da Maia.

A 16 de Outubro, Pedro Cardoso e João Cabreira informaram a comunicação social da suspensão que foram alvo pela FPC, aumentando para 10, os elementos com actividade desportiva interrompida. Cardoso foi suspenso por 12 meses na sequência de um controlo positivo por corticosteróides no GP Internacional de Paredes, vitória que entretanto lhe foi retirada. Já João Cabreira foi suspenso por um período de dez meses após a falta a um controlo anti-doping fora de competição quando se encontrava no País Basco. Ambos os corredores anunciaram recurso da decisão do CD.

Chegados a Novembro, a incerteza do mais negro episódio da história recente do ciclismo português paira como uma espada de Dâmocles sobre os eventuais arguidos e corredores suspensos na certeza, porém, que o caso poderia adquirir circunstâncias pessoais para os envolvidos bem mais graves, caso se confirmasse a sua culpabilidade: a nova lei que criminaliza o tráfico de produtos dopantes ainda não foi publicada em Diário da República, circunstância que não é de somenos importância, dado as sanções envolvidas, entre seis meses a seis anos e meio de prisão.

Fontes: Jornal Ciclismo, OJogo, Agência Lusa