História dá muitas voltas

Gradualmente, vamos assistindo ao fim da geração dos ciclistas que ainda sabiam o que era correr sem pensar em watts. O ciclismo, como tudo na vida com o avançar do tempo, vai mudando.
Não sabemos o que dizer daqui a uns anos (poucos) quando a modalidade estiver completamente dominada pelas mais recentes evoluções de treino, competição e de material. Porventura, acharemos já tudo normal e, como sempre, vamo-nos esquecendo do que existia antes e de como eram feitas as corridas.

O desporto avança, não podemos dizer que não. O ciclismo acompanha de perto essa evolução. Uma evolução que não pode, nem deve, ser travada. Mas, talvez, alguns venham a ter cada vez mais saudades (essa palavra complicada de se perceber!) de outro ciclismo. Um ciclismo que era muito mais épico, essa expressão que deu o verdadeiro relevo à modalidade.

Não é preciso recuar muito. Aliás, não devemos recuar a tempos em que os ciclistas eram verdadeiramente escravos do sacrifício. Fiquemos a partir de meados do século passado, e com todas aquelas figuras que recordamos como os grandes mitos do ciclismo. Talvez daqui a uns tempos olhemos para Nibali ou Valverde, que ainda competem (e saberiam competir em qualquer época), com um merecido respeito idêntico.

A adaptação da tecnologia e de uma metodologia mais científica na avaliação do treino e competição ao ciclismo vai-se mostrando imparável. As gerações mais recentes adoram. Evidentemente, já não sabem fazer as coisas de outra maneira. As estruturas governativas do ciclismo também colocam em evidência essa modernidade. Os comentadores televisivos (alguns) espalham sabedoria na matéria. E têm tempo de antena para isso, a avaliar pela quantidade crescente de transmissões, que começam a tirar alguma aura ao ciclismo (mas isto é outro tema…).

Toda a gente parece adorar esta nova forma, ou forma mais moderna, do ciclismo. Os outros, os mais românticos, adaptam-se, como sempre fizeram. É, contudo interessante reparar, que o verdadeiro “boom” tecnológico do ciclismo mais moderno começou essencialmente, com três proscritos da modalidade.

Usando uma dimensão publicitária que não existia noutros tempos nem era tão acessível a grandes ciclistas (que também foram protagonistas de grandes invenções ou adaptações à modalidade, e isso dava um tratado histórico que não se pretende agora), o marketing apelativo do ciclismo começou, a sério, com Pantani e Cipollini.

Mas não são estes os três proscritos do impulso tecnológico e científico. Esses são Bruynel, Armstrong e até o malfadado Dr. Ferrari. Não fizeram tudo bem. Sabemos. Fizeram, até, muitas coisas mal. Mas, também, fizeram muitas coisas bem. E, muitas delas, são hoje usadas no tal ciclismo moderno. A História dá muitas voltas. Veremos (quem puder) o que pensaremos destas três figuras daqui a trinta anos.
Luís Gonçalves