Fora de tempo e mesmo assim atual

Nem sempre o tempo das coisas flui à velocidade que queremos, nem sempre a disponibilidade é aquela que queremos. Assim há que organizar os espaços temporais em função dos vários projetos.

Posto isto e duas semanas depois da prova de fundo masculina do Campeonato do Mundo de Estrada merecidamente ganha pela seleção francesa através do seu “ponta de lança” Julian Alaphilippe, aqui ficam algumas notas a reter. (1) O Ciclismo na Bélgica tem uma dimensão ímpar comparativamente ao resto do mundo e o comportamento dos fans é exemplar para todos os desportos: https://www.youtube.com/watch?v=E_ER-jD40fE; (2) Wout van Aert demonstra algumas fragilidades quando pressionado a não falhar e a ganhar e os seus adversários começam a saber disso. (3) A seleção portuguesa continua com algumas lacunas: o João Almeida aparece mal colocado nos momentos críticos, tal como aconteceu nos europeus, o Nelson não teve a leitura de corrida, ou as pernas…, de ir com o Valgren, que saltou do segundo grupo para o primeiro grupo e ainda chegou a uma medalha de bronze. Parece que falta o mais acreditar à nossa seleção de elite, mas estes ciclistas nas suas equipas profissionais deixam sempre tudo o que lhes é exigido.

Mas o facto mais importante para o ciclismo português ocorrido na Bélgica, passou ao lado de muitos. Artur Lopes, histórico dirigente do ciclismo português, europeu e mundial, terminou as suas funções como membro do Comité de Gestão da UCI. Esta retirada era espectável tendo em conta a idade de 75 anos que Artur Lopes já conta. Artur Lopes chegou quase ao topo do ciclismo mundial tendo sido Vice-Presidente da instituição durante nove anos, estando no último mandato como membro do Comité de Gestão. O facto que marca negativamente o nosso ciclismo, é que não há um único português em nenhum Órgão Jurídico da UCI. Nos seis órgãos UCI, a saber Comité de Gestão, Comissão Disciplinar, Conselho Arbitral, Comissão de Licença, Comissão de Ética e Tribuna Antidopagem, com um total 98 membros, não há um único português.

Como chegamos a uma situação de termos um Vice Presidente a não termos um único dirigente? Houve inabilidade de promover outros dirigentes no seio da UCI? Houve lacunas nas competências dos nossos dirigentes? Houve falta de estratégia e vontade em Portugal estar representado nos diversos Órgãos da UCI?

Claro que se pode argumentar que o dirigismo português está bem representado nas comissões da UCI onde Artur Lopes, sempre ele, se mantém em 6 delas – presidente em 5 – ou que Delmino Pereira está na comissão de estrada da UCI e é Vice Presidente atualmente UEC. Mas o ciclismo português não precisa só de ciclistas a disputar as grandes provas do calendário internacional, de treinadores, de mecânicos e staff nas grandes equipas, precisa também de dirigentes que deem expressão mais internacional ao ciclismo português.

Paulo Coelho Vaz