Em busca do paralelo perdido

Às vezes é estranho passar de um lado para outro. Enfim, esclarecendo, por estes últimos dias acompanhei uma campanha eleitoral. Ou por outra, fiz parte de uma campanha eleitoral.
E como passo de um lado ao outro? Bem, todos sabemos que a nível autárquico, uma das maiores preocupações das populações são os buracos na estrada. Não é o orçamento, nem questões complicadas de governação, são os buracos na estrada e a limpeza das ruas! Assim, evidentemente que numa campanha eleitoral autárquica, o tema tem de ser presente e as “promessas” são evidentes: asfaltar ou alcatifar tudo o que se possa.

Mas agora temos o Paris-Roubaix, que vive de buracos, pó ou lama e paralelos. E todos queremos buracos, pó ou lama e paralelos. Nos anos 70/80 do século passado os tradicionais paralelos do Paris-Roubaix acabaram por sofrer algum revés. As transmissões televisivas que nos começaram a mostrar esta decana clássica eram vistas pelos autarcas locais como uma imagem de atraso civilizacional. E vai daí, como bons autarcas que eram, começaram a asfaltar tudo.

 
Les Amis du Paris – Roubaix preparam a estrada para o próximo domingo, um serviço benévolo de quem preserva a identidade e a tradição de uma corrida única .

Felizmente, percebeu-se a tempo, que o alcatrão não é tudo e que às vezes há características regionais e culturais que têm de ser mantidas e podem ser potenciadas para determinados fins, designadamente desportivos. Hoje em dia, nalgumas situações, se calhar até caímos no campo oposto. O ciclismo quer tanto voltar às suas raízes naturais que, às tantas, nos últimos tempos até tem exagerado nalguns traçados que escolhe.

Este exagero nunca será o caso do Paris-Roubaix. Os paralelos, que até são um dos prémios mais apetecidos do ciclismo, e as dificuldades desde sempre inerentes ao traçado fazem parte desta corrida a que Pélisier chamou “uma peregrinação”. É mais conhecida, sabemos, pelo Inferno do Norte, mas a Peregrinação de Pélisier continua, para mim, a ser bem mais simbólica do que é esta aventura.

Por hoje, e já há algum tempo, até existe uma associação que se dedica à preservação dos paralelos de Roubaix que não são mais do que anónimos, mas frutuosos, caminhos agrícolas durante o resto do ano. Uma associação destas não teria sucesso numa campanha eleitoral noutra zona qualquer.

A título excecional e como nota final do texto, devo assinalar o comentário do nosso leitor Rui Rocha ao artigo sobre “o sonho africano do Rafiki”. Caro Rui, é de facto esse o Rafiki que conheço.
Luís Gonçalves