Festa é …festa !

Aproxima-se a Volta a Portugal, a verdadeira festa do ciclismo português. É assim desde quase sempre. Podemos considerar isso como um fator mais, ou menos, importante, gostar mais, ou menos, do modelo da prova, das equipas, dos ciclistas, mas isso é tudo irrelevante para esmagadora maioria do público português que acompanha a prova ano após ano.

Assim começou a história da Volta a Portugal. COs clistas partiram do Marquês de Pombal, em Lisboa, mas corrida só começou depois de atravessarem o Tejo e chegarem a Cacilhas. Augusto Carvalho, do Carcavelos, era o nome de cartaz da época.


Já não é a festa que foi em tempos. Já não é desenhada em cópia quase exacta do mapa de Portugal, como acontecia nas primeiras Voltas, ou até meados da década de noventa do século passado. A caravana publicitária, desapareceu. Atualmente, os mais puristas, dizem ser desnecessária. É preciso foco único na competição. Mas sabemos todos, os mais tradicionalistas, que uma boa parte da festa popular estava na caravana publicitária. E o ciclismo sempre viveu dessa festa. Aliás, a caravana publicitária, até foi uma invenção francesa (que se mantém bem viva no Tour) para financiamento da modalidade. Pode muito para além da capacidade de atração festiva.
Serão tempos de festa diferente estes. Com mais cautelas, com mais imposições, muitas imposições. Mas enfim, como isto muda, os abastecimentos apeados (os únicos então) da primeira Volta a Portugal, em 1927, tinham sólidos e líquidos. Podia ser fruta, ou uma sande de queijo ou presunto. Dependia das terras por onde passava. Nalgumas chouriço, noutras se calhar alheira. Depois vinho, cerveja, essenciais para levantar a moral. E também havia água

A dar a Volta a Portugal em Bicicleta desde 1927
Agostinho e Herculano Oliveira . na abordagem às Penhas da Saúde.


Estradas, algumas. Muitos caminhos de terra batida, dureza, muita dureza. Avarias nas bicicletas. A integrar a caravana, mecânicos, de fato de macaco, para se distinguirem dos restantes elementos. Assim se criou a rivalidade entre o Benfica e o Sporting, e se começo a criar o pecúlio de vitória do FC Porto

Público, muito público. Nas estradas, nos estádios, nas pistas. Etapas de manhã e à noite, com regulamentos esquisitos. Também momentos maus, como a agressão a Alves Barbosa, em 1955, na zona dos Carvalhos. Greves, como a de 1969, que nos dá a célebre fotografia de Joaquim Agostinho com um chapéu mexicano e cigarro na boca.

Como era a Volta a Portugal há 60 anos
Alves Barbosa foi um dos nomes mais sonantes de sempre do ciclismo nacional e da história da Volta a Portugal.


1971, inaugurou a Torre. 1978, trouxe-nos os romeiros da Senhora da Graça. São outros anos, outras datas, anos, até meados de noventa em que o público se deslocava às serras e por lá ficava já no dia anterior. Hoje (quase) de qualquer ponto do país, vamos e vimos da serra da Estrela, no mesmo dia, de uma forma mais confortável. Era um público generoso, sem complexos.

Os grandes duelos entre a Sicasal e o Recer-Boavista já estão na história. O Tavira está sempre na história. Também o Sangalhos, o Louletano, o Coimbrões e o Feirense, a provar que o desporto também se pode fazer e apreciar sem os “três grandes”. É uma das principais lições democráticas do ciclismo.

Talvez já não seja possível voltar para trás, a esse verdadeiro acontecimento social que era a Volta a Portugal. Mas ela aí está, ainda e sempre, no coração dos portugueses. Porque festa, é festa. Assim nos deixem festejar, quanto mais não seja para homenagear os grandes heróis do passado. É bom não esquecer que são eles, e apenas eles, os que nos permitem estar aqui.
Luís Gonçalves