O estranho duelo esloveno

Muito nos têm empolgado os duelos entre os eslovenos Pogacar e Roglic. Naturalmente que a vitória na Volta a França do primeiro e o contexto “trágico” da derrota do segundo ajuda a esse empolgamento. Mas serão estes duelos dos tempos modernos assim tão verdadeiramente significativos?

Na resposta, em bom rigor, teremos de dizer que nos são agradáveis de ver e uma boa promoção para a modalidade, contudo, não são propriamente novidade e carecem ainda de alguma sustentabilidade.

O ciclismo sempre foi campo fértil entre grandes rivalidades. Nas grandes competições, entre essas grandes rivalidades de nacionais do mesmo país, talvez a maior e mais romântica de todas tenha sido a de Fausto Coppi e Gino Bartali, que deram à modalidade momentos verdadeiramente imortais e até com uma certa aura de mistério, como o célebre episódio da partilha da garrafa de água. A isto, juntam-se características sociais e políticas de ambas as personagens que os tornam de um carisma sem par e que os fazem cair na categoria de verdadeiros mitos.

Mas também as disputas entre Poulidor e Anquetil, cada um justificando o seu tipo de apoio do público, ou de Hinault e Fignon, que durante algum tempo partilharam equipa, são “lutas” que perdurarão na modalidade, pelos contornos que tinham. No contexto, repare-se que não foi preciso a Poulidor vencer o Tour para cair no estatuto de lenda, sendo às vezes até mais lembrado do que o próprio Anquetil, mas isso, é algo só ao alcance de Poulidor.

Há boa maneira americana é curioso reparar que os americanos, há falta de grandes duelos na estrada, criaram uma rivalidade entre Lemond e Armstrong. Mas essa foi a destempo e com contornos menos cavalheirescos.

Pogacar e Roglic têm animado os nossos tempos mais próximos. Entre esta aparente rivalidade, talvez o mais estranho mesmo, seja serem eslovenos. Não era algo que estivéssemos propriamente à espera! De resto, ainda lhes falta muito para confirmarem uma história na modalidade. Nesse aspecto, o próximo Tour pode-nos dar algumas luzes, mas, apenas isso.

Ainda não é o mesmo que ter Hinault contra Fignon, e muito mais longe de Coppi contra Bartali. Aliás, começou-se a apelidar Roglic de “canibal”. Enfim, Canibal há só um, e não podemos comparar um canibal com cinco Voltas a França, com um ciclista que nem sequer uma venceu. Roglic é evidentemente um grande ciclista, mas está a anos luz de Eddy Merckx. Outros tempos os do belga, é verdade, mas, enquadrando mais o tempo, se Roglic chegar a uma espécie de Froomey, Tubarão ou Pistoleiro, já se pode dar por muito satisfeito. E quão longe ele ainda está de todos…

Quanto a Pogacar, correndo tudo dentro da normalidade, já ninguém lhe tira uma Volta a França. Só isso está ao alcance de muito poucos. Veremos o que lhe reserva o futuro, aparentemente risonho. Ou então, daqui a uns anos estaremos a falar de Pogacar como de Carlos Sastre. Porque mesmo para chegar a Ullrich, que, como Pogacar, também venceu bem jovem a Volta a França, seria preciso bater-se com Lance Armstrong e Marco Pantani e ser o recordista de segundos lugares na maior prova do mundo.
Luís Gonçalves

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