Desconfinar consciênciS

A resiliência é identificada como a capacidade de superar ou recuperar de adversidades. Recuperação é, pois, recuperar. Portanto, o famoso Plano de Recuperação e Resiliência, tem em si mesmo, logo à partida, um reforço português de recuperação.
Pelo desporto, não se vê bem é onde e como. Mas importante é recuperar, e quando um título nos fala em recuperação, e soma a resiliência, só podemos ficar descansados, com este, e com todos os outros planos de recuperação e resiliência (com outros nomes) que acompanham este.

Planos não faltam. Resta saber se são planos bem planeados. Neste contexto, no que nos toca a nós, gente do desporto, não se sabe bem onde o Estado quer a recuperação e a resiliência. Pela educação falarão outros. Mas não deixa de existir uma ligação íntima entre a educação escolar e a educação desportiva, sobretudo em relação a jovens. Quanto a ambas, já será pouco uma questão de recuperação e resiliência, e começa a parecer de resistência, uma oposição ao ataque, por este andar, um ataque cada vez mais cerrado, injustificado e imprudente.

Mas se a recuperação e a resiliência do Estado constituem conceitos sobrepostos e vagos, que fazem as estruturas desportivas portuguesas, nomeadamente a nossa federação, para, de verdade, desconfinar a resiliência?

Provavelmente, primeiro será preciso desconfinar consciências, o que, num país que tem tratado tão mal o desporto, não se avizinha fácil. O desporto e os desportistas, salvo raras excepções, continuam a ser vistos como matérias menores. Continua a ser, por exemplo, uma matéria extremamente dependente da boa vontade e do esforço autárquico. E aqui, a dependência do ciclismo, para além de muitas vezes financeira, sobretudo na formação, é também organizativa.

Ficamos, portanto, à mercê do que possa cada autarca pensar sobre o que é o melhor para o seu território. E nesse aspecto o autarca A, pode entender que o ciclismo é uma oportunidade, mas o autarca B, do município vizinho, pode não ver dessa forma. Tal, é limitador de movimentos, sobretudo em ano de eleições autárquicas, como este, em que os autarcas terão dilemas de eleitores para resolver. Ou seja, num ano normal fariam todas as festas possíveis e inimagináveis, com o máximo de público aceitável, para serem iluminadamente vistos. Mas este ano, pela divisão de opiniões, terão de pensar alguns eventos com pinças. E como o ciclismo é uma festa popular, ou as populações estão todas sequiosas de festas, ou estamos tramados.
Talvez aqui pudéssemos de facto começar a pensar numa escala mais abrangente. Sugerir um pouco uma reforma de fundo, ou um regresso a um passado ainda recente, embora com outras circunstâncias legais, em que uma entidade regional, ou nacional coordenadora, pudesse facilitar procedimentos. Ainda não há muito tempo, os italianos, apercebendo-se do problema crescente, quanto ao ciclismo, e a nível estatal, legislaram no sentido de permitir a deslocação de corridas entre territórios locais diferentes, sendo suficiente o acordo entre locais de partida e chegada. Um procedimento simples, mas que muda mundos e oportunidades, sobretudo quando a burocracia portuguesa é o que é.

Isto porque apesar de tudo, nas autarquias acaba por existir alguma sensibilidade para o ciclismo. O mais urgente seria de facto despertar essa consciência a nível nacional. Sem nunca ser fácil, acaba por ser tantas vezes nestes momentos mais apertados que conseguimos despertar ou desconfinar essas consciências. Talvez fosse útil aproveitar este, como um de muitos passos para desconfinar consciências desportivas quanto ao ciclismo.
Depois, evidentemente, que também não interessava nada um esforço federativo neste sentido, se as organizações de provas caíssem no marasmo.

Em clarividência, nestes tempos há quem vá fazendo os impossíveis, como as equipas e os ciclistas, da formação aos profissionais, e era importante que a federação e o maior organizador (ou único!) estivessem em simbiose nestas questões de sustentabilidade. Já se sabe que para alguns, não todos, isto é apenas um negócio, mas ainda teremos de acreditar em laivos de solidariedade e de compromisso contratual.
Luís Gonçalves