Pensar no estado das coisas -“não teremos, por ora, problemas mais urgentes para resolver?”

Ansiosamente, continuamos a aguardar referências concretas ao que podemos esperar da época de ciclismo nacional. Bem, copiando o nosso amigo Jorge Jesus a culpa exclusiva parece ser da “pandumia”.

Mas o certo é que a “pandumia” apenas veio pôr a nu problemas estruturais. Não só no ciclismo, no desporto em geral. O Estado, que não tem apoiado a actividade desportiva como devia, lança decretos definitivos de abandono, sob o olhar quase resignado das estruturas federativas.

O que se prepara na formação é um colapso nacional. A redução drástica de jovens praticantes é brutal. Para os que ficam, sem possibilidades de competição, ou sequer de treino, o processo de aprendizagem levar-nos-à a anos de atraso. Preocupante, sobretudo quando pensamos que há outros países que sempre vão fazendo qualquer coisinha.

Mas no ciclismo, por vários factores que já enumerámos aqui por mais de uma vez ao longo do tempo, e outros que com toda a certeza seriam bem enunciados pelos mais experientes treinadores e dirigentes de clubes de formação (se lhes dessem voz…) a redução dos mais jovens praticantes (na competição) já era um sinal dos tempos, referenciado, inclusivé, pela estrutura federativa. Lá está, já era estrutural. A “pandumia”, apenas veio torná-lo ainda mais visível.

Há pouco tempo, ouvi um ilustre director desportivo de uma equipa portuguesa dizer que estamos pior do que em 2020, porque, pelo menos em 2020, começámos a época. É certo, entre Fevereiro e Março, provas para Escolas, Cadetes, Juniores, Sub-23, a Prova de Abertura, Clássica da Primavera e a Volta ao Algarve para os profissionais.

Nos profissionais, para além das equipas que já tinham competido no exterior, em solo nacional, tínhamos sete dias de competição. A pergunta óbvia é quantos teremos este ano, no final da época e, mais importante, em que tipo de provas? Pelo que se vai ouvindo, há provas importantes e tradicionais do ciclismo português que agonizam. As razões serão várias, algumas até com o seu quê de obscuridade, mas, chegados aqui também perguntamos se a situação é completamente nova ou já era estrutural e apenas foi acentuada pela “pandumia”?

Já dizia o nosso Camões “fraco rei faz fraca a forte gente”. E quando o Estado se esquece do deporto, a tendência são as estruturas desportivas irem andando e vendo, às vezes pensando, que o que se faz hoje não possa ter impacto negativo daqui a anos. Ou então, à boa maneira governativa, quem vier que feche a porta.

No ciclismo tempos houve em que se pensou no imediato e pouco no futuro a longo prazo. Pensou-se no modelo de ciclismo como puro negócio, que resulta nalguns países, desde que a estrutura o permita. Mas se queremos negócio e não temos estrutura para isso, nem a fomentamos, torna-se em mais um problema estrutural. Porventura o caminho mais próximo e útil para nós, seja o de um ciclismo mais prático que dê para pensar na sustentabilidade. E se para isso for necessário algum sacrifício financeiro, com razoabilidade, que se faça. Porque a “pandumia” não pode ser justificação para tudo. Há quem faça a sua parte. Só esperamos que os outros, mais negociantes ou menos negociantes, também sejam cumpridores.

Bem, entretanto no meio disto vamos criando regulamentos. Como as coisas estão fáceis, como se vê, fazem-se regulamentos. A única coisa que o Estado e as instâncias das modalidades sabem fazer e as federações adaptarem são regulamentos. O ciclismo vive dificuldades mas as coimas regulamentares aumentam, em número, espécie e montante. O ciclismo vive dificuldades mas as imposições a equipas e organizações aumentam. Qualquer dia não há atletas jovens, mas os cursos de treinador, com a mão de Deus do IPDJ, são cada vez mais bíblicos.

Mas também chegamos à conclusão que a maioria dos regulamentos, estudos e comissões, têm surgido para defender o negócio, ou por outra, os negociantes e pouco o essencial da modalidade. Claro, a capa é outra, mas também nós, portugueses, íamos pelo mundo espalhar a fé cristã, como os americanos vão espalhar a democracia! Nos regulamentos a tentação portuguesa tem sido a cópia, sem ligar à tal falta de estrutura.

Por cá, porventura pelo negócio e pelos negociantes, o MPCC (movimento para um ciclismo credível), parece que vai tendo adeptos e será fonte inspiradora de bons costumes e normas regulamentares. Como se já não existissem normas suficientes no quadro legal.

Vejamos uma das normas desse movimento de impoluta raiz francesa: Proibição de contratar ciclistas, por um período de dois anos, que tenham sido condenados em penas (dopagem) superiores a seis meses (excepto localização).

Reparem, por exemplo, uma pena de oito meses em matéria de dopagem, significa normalmente uma negligência bastante leve.
Depois, entre outras, para além da função de ressocialização da pena que vigora em Portugal, quem tiver oportunidade, veja o artigo 58º da nossa Constituição (direito ao trabalho).

É verdade que também temos problemas nalgumas matérias indesejáveis. Mas, tendo em conta a norma referida (e podíamos mencionar outras!), será este o bom exemplo a seguir? E não teremos, por ora, problemas mais urgentes para resolver?
Luís Gonçalves